{"id":2632,"date":"2020-01-21T13:41:00","date_gmt":"2020-01-21T12:41:00","guid":{"rendered":"https:\/\/old.outra.pt\/?p=2632"},"modified":"2020-01-21T13:41:00","modified_gmt":"2020-01-21T12:41:00","slug":"entrevista-a-will-brooks-mc-dalek","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/old.outra.pt\/pt_pt\/2020\/01\/entrevista-a-will-brooks-mc-dalek\/","title":{"rendered":"Entrevista a Will Brooks (MC D\u00e4lek)"},"content":{"rendered":"<p>No \u00faltimo OUT.FEST tivemos o prazer e a honra de contar com os nova iorquinos D\u00e4lek, grupo de hip hop do mais aventureiro, no seu regresso a Portugal pela primeira vez em mais de uma d\u00e9cada. Antes do concerto, falamos com Will Brooks (MC D\u00e4lek, o pr\u00f3prio) sobre a abordagem em est\u00fadio do grupo, colabora\u00e7\u00f5es passadas e futuras, e os artistas que o inspiram.<\/p>\n<p><em>Entrevista por Tiago Franco. Fotos por <a href=\"https:\/\/eyesofmadness666.blogspot.com\/\">Pedro Roque<\/a>.<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2635\" src=\"https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/MEA_4487.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"424\" srcset=\"https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/MEA_4487.jpg 640w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/MEA_4487-300x199.jpg 300w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/MEA_4487-600x398.jpg 600w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/MEA_4487-619x410.jpg 619w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p><strong>Como foi a tour com os Anguish?<\/strong><\/p>\n<p>Tem sido incr\u00edvel, \u00e9 fenomenal como as coisas se alinharam e como conseguimos dar concertos, porque \u00e9 dif\u00edcil juntar toda a gente, todos temos projectos diferentes a acontecer, e por isso n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil marcar tours, ent\u00e3o quando temos a oportunidade aproveitamos. O primeiro concerto que demos foi no Moers Festival e no dia anterior demos um concerto de D\u00e4lek em Austin no Texas, por isso voamos de Austin para Nova York, de l\u00e1 para a Alemanha para dar esse concerto\u2026Mas teve mesmo que ser, se n\u00e3o pass\u00e1vamos mais um m\u00eas sem tocar. Mas foi muito bom, desde o primeiro concerto que\u2026sab\u00edamos que t\u00ednhamos algo especial quando gravamos, mas logo no primeiro concerto deu para perceber que isto era mesmo especial em palco. Acho que fizemos oito ou nove actua\u00e7\u00f5es at\u00e9 agora e tem ficado melhor e melhor. \u00c9 um bocado louco, porque logo no primeiro concerto nem ensaiamos, s\u00f3 fizemos aquilo acontecer de alguma forma, depois houve dois concertos em que o Mats [Gustafsson] n\u00e3o conseguiu participar, ent\u00e3o arranjamos um substituto recomendado por ele, o Goran [Kajfes], que tocou trompete, ele chegou a conhecer as m\u00fasicas e connosco a confiar que nos \u00edamos safar de alguma maneira, e foi fenomenal, as coisas funcionaram muito bem. Tem sido um prazer, tocar com m\u00fasicos deste calibre torna tudo mais f\u00e1cil \u2013 tenho toda a confian\u00e7a em toda a gente naquele palco e \u00e9 fixe porque podemos levar as coisas para dire\u00e7\u00f5es mais fora e mesmo assim sei que vai correr tudo bem. Por isso \u00e9 fixe, \u00e9 muito diferente das coisas de D\u00e4lek, porque as can\u00e7\u00f5es evoluem e mudam. H\u00e1 momentos centrais nas m\u00fasicas mas \u00e9 muito improv, muito aberto, e \u00e9 um prazer fazer parte disso.<\/p>\n<p><strong>Sei que fizeste o disco com o Hans Joachim Irmler\u2026Como \u00e9 que o conheceste a ele e \u00e0 malta da Fire! Orchestra?<\/strong><\/p>\n<p>O Mats \u00e9 outro que\u2026j\u00e1 nos conhecemos h\u00e1 mais que uma d\u00e9cada, acho que a primeira vez que tocamos juntos foi no Konfrontationen Festival em Nickelsdorf, um festival de free jazz na Austria, e demo-nos logo bem, ele era daqueles tipos com os quais sempre dissemos que quer\u00edamos trabalhar, mas os nossos calend\u00e1rios nunca se alinhavam e nunca deu para o fazer. Mas no ver\u00e3o em que gravamos o disco de Anguish conseguimos faz\u00ea-lo acontecer: Convidamo-lo para tocar saxofone com D\u00e4lek nuns quantos festivais (basicamente t\u00ednhamos duas semanas de concertos e uma semana livre no meio), e pensamos, em vez de ir para casa, era melhor irmos para um est\u00fadio e ver o que saia da\u00ed. Por isso propusemos-lhe essa ideia e ele adorou, e eu fui imediatamente falar com o Joachim, porque tamb\u00e9m j\u00e1 quer\u00edamos fazer algo com ele outra vez e ele tem um bom est\u00fadio na Alemanha, e ele estava completamente nessa. Depois o Mats sugeriu que troux\u00e9ssemos o baterista dele na Fire! Orchestra e foi perfeito, funcionou mesmo mesmo bem, era eu e o Mike de D\u00e4lek, os dois gajos da Fire! Orchestra e o Joachim\u2026parece fora, mas correu tudo \u00e0s mil maravilhas.<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 colaboraste com tantos artistas diferentes ao longo dos anos \u2013 o que \u00e9 que te apela em trabalhar com artistas que as pessoas normalmente n\u00e3o associam ao hip hop?<\/strong><\/p>\n<p>Nunca quis saber de g\u00e9nero, na realidade. S\u00f3 quero saber da m\u00fasica, se \u00e9 boa \u00e9 boa, e ter m\u00fasicos daquele calibre a sequer considerar trabalhar comigo \u00e9 uma honra, por isso quando tenho a oportunidade de trabalhar com algu\u00e9m que respeito agarro-a, porque a vida \u00e9 limitada, estou a tentar fazer com que conte, ter tantos projectos e fazer tanta m\u00fasica boa quanto consiga, e h\u00e1 uma longa lista de pessoal com o qual ainda quero trabalhar, por isso\u2026<\/p>\n<p><strong>Tens algumas colabora\u00e7\u00f5es futuras em mente?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, h\u00e1 algumas coisas no forno das quais n\u00e3o posso falar ainda, e h\u00e1 uma lista de colabora\u00e7\u00f5es de sonho, claro. Adorava trabalhar com o Kevin Shields dos My Bloody Valentine, gostava de trabalhar com o Stephen O\u2019Malley, a Bj\u00f6rk tamb\u00e9m esteve sempre na minha lista\u2026no que toca hip hop, gajos como o Ka\u2026h\u00e1 tanta gente, tantos bons artistas por ai\u2026mais uma vez, os g\u00e9neros n\u00e3o interessam, o que interessa \u00e9: \u201cQue tipo de arte \u00e9 que criaste com outro m\u00fasico?\u201d Quando se vem de mundos completamente diferentes, encontrar um espa\u00e7o em comum \u00e9 o que torna a coisa especial.<\/p>\n<p><strong>Queria perguntar-te sobre os My Bloody Valentine, porque falas deles com frequ\u00eancia \u2013 podes contar-nos sobre a primeira vez que os ouviste e o que isso despertou em ti?<\/strong><\/p>\n<p>Na realidade s\u00f3 comecei a ouvi-los muito tarde, por volta da altura em que come\u00e7amos os D\u00e4lek. Fui eu o o Oktopus a come\u00e7ar o grupo, acho que foi por volta de 95\/96 que come\u00e7amos a trabalhar juntos, e na altura ele vinha mais do punk, eu vinha mais do hip hop, obviamente, mas ao mesmo tempo ele tinha um gosto bastante variado, gostava de muito shoegaze, cenas alternativas, gost\u00e1vamos ambos de muito jazz, eu gostava de salsa, ele gostava de metal\u2026por isso ambos t\u00ednhamos um espa\u00e7o musical em comum meio estranho, mas ao mesmo tempo havia muita coisa que nem eu nem ele conhec\u00edamos muito bem. Ele gostava de hip hop old school mas tinha deixado de ouvir hip hop, gostava dos Public Enemy e coisas assim\u2026<\/p>\n<p>Na altura ele era s\u00f3 o engenheiro de som do meu projecto, ainda n\u00e3o t\u00ednhamos come\u00e7ado a banda, mas depois das sess\u00f5es junt\u00e1vamo-nos e fic\u00e1vamos s\u00f3 a mostrar m\u00fasica um ao outro. Eu dizia-lhe \u201cTens que ouvir isto!\u201d e mostrava-lhe o hip hop que estava a sair na altura, em 94\/95\/96, os discos solo dos Wu Tang, o Nas, as cenas Boom Bap todas, suponho que agora lhe chamam a era dourada do hip hop, mas na altura era s\u00f3 o que estava a acontecer, e ele estava a mostrar-me coisas como os All Natural Lemon And Lime Flavours, que at\u00e9 tinham uma liga\u00e7\u00e3o connosco. Andamos na escola com um desses gajos, o Josh Booth, que acabou por chegar a trabalhar tamb\u00e9m connosco, e foram eles a mostrar os MBV ao Oktopus. Ainda hoje me lembro desse momento, estavamos completamente b\u00eabedos, ele p\u00f4s o Loveless a dar e foi como se se acendesse uma luz, fiquei tipo \u201cIsso, mas que \u00e9 isso? Eu quero fazer isto para o hip hop, como \u00e9 que fazemos isto?\u201d fez-me logo totalmente sentido, tudo naquele disco soava bem, a forma como as vozes eram um instrumento, como as guitarras faziam aquela parede de som, como o ruido era mel\u00f3dico, mesmo tudo acerca daquele disco era lindo para mim, aquele disco mudou tudo, foi um daqueles momentos em que fiquei tipo\u2026Honestamente, para mim D\u00e4lek \u00e9 s\u00f3 My Bloody Valentine, Public Enemy, KRS-One, talvez um pouco de Faust e de Velvet Underground, sabes, talvez um bocadinho de Rakim\u2026essa \u00e9 a formula que nos inspirou\u2026<\/p>\n<p>Tocamos num festival que curado pelo Thurston Moore, e a Deb Googe, a baixista dos MBV, tocava na banda dele, por isso tivemos a sorte de estar com ela e eu parecia um puto\u2026e ela foi t\u00e3o fofa e fixe connosco, disse-nos que curtia o que n\u00f3s est\u00e1vamos a fazer e eu disse-lhe que isso para mim era tudo, e depois quando os MBV tocaram em Nova Iorque ela convidou-me para o concerto e pude conhece-los, e fiquei outra vez \u2013 e normalmente nem sou esse tipo de pessoa \u2013 mas estava 100% em modo f\u00e3, pedi-lhes para assinarem os meus discos e tudo isso. Essa \u00e9 a coisa linda acerca da m\u00fasica, h\u00e1 certas bandas que ressoam contigo, inspiram-te, e eles s\u00e3o definitivamente uma das bandas que acabou por redefinir o que eu achava que queria fazer. O KRS-One foi provavelmente quem come\u00e7ou isso, quando o ouvi percebi que era o que queria fazer da minha vida, os Public Enemy foram outro desses grupos, e sinto que os My Bloody Valentine foram o outro que me fez ficar tipo \u201cSiiim, \u00e9 isto!\u201d quando os ouvi, sabes? Simplesmente incr\u00edveis.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2634\" src=\"https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/MEA_4286.jpg\" alt=\"\" width=\"1600\" height=\"1059\" srcset=\"https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/MEA_4286.jpg 1600w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/MEA_4286-300x199.jpg 300w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/MEA_4286-600x397.jpg 600w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/MEA_4286-768x508.jpg 768w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/MEA_4286-1536x1017.jpg 1536w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/MEA_4286-619x410.jpg 619w\" sizes=\"(max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" \/><\/p>\n<p><strong>No \u00faltimo disco, a forma como os samples s\u00e3o usados e a forma como a m\u00fasica acaba a soar lembra-me muito das t\u00e9cnicas usadas pelo Kevin Shields no est\u00fadio, a forma como ele trabalha intensivamente para fazer tudo colar de uma forma completamente et\u00e9rea, mas ao mesmo tempo brutal e <em>in your face<\/em>. Acho que fazem um \u00f3timo trabalho em incorporar isso sem ser um <em>rip-off<\/em>\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Obrigado. Sabes, \u00e9 engra\u00e7ado que sempre nos acusaram de samplar os My Bloody Valentine \u2013 Eu nunca samplei os MBV e nunca o irei fazer, h\u00e1 certos discos dos quais me parece errado tirar seja o que for tirando inspira\u00e7\u00e3o\u2026n\u00e3o h\u00e1 necessidade de o fazer sequer, descobrimos uma forma de chegar onde queremos sem samplar nada, s\u00f3 criando as nossas pr\u00f3prias coisas.<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 mencionaste que a m\u00fasica contempor\u00e2nea \u00e9 muito interessante para ti. E como v\u00eas o hip hop contempor\u00e2neo?<\/strong><\/p>\n<p>Bem, acho que h\u00e1 muito hip hop contempor\u00e2neo que \u00e9 inacredit\u00e1vel, apesar da minha defini\u00e7\u00e3o de hip hop contempor\u00e2neo poder ser diferente da tua. As coisas que passam na radio para mim n\u00e3o s\u00e3o hip hop sabes, \u00e9 pop. Eu at\u00e9 prefiro quando lhe chamam coisas como trap, mais vale que seja a sua pr\u00f3pria cena, porque tem muito pouco a ver com a cultura do hip hop. \u00c9 a sua pr\u00f3pria cena e isso n\u00e3o tem mal nenhum. Acho que tamb\u00e9m h\u00e1 uma certa parte disso que \u00e9 geracional, sinto que muitas das coisas mais recentes s\u00e3o para pessoal mais novo, sabes. N\u00e3o \u00e9 para mim \u2013 eu tenho 44 anos, as coisas n\u00e3o s\u00e3o escritas para mim nem deviam ser. E n\u00e3o h\u00e1 nada de errado com isso, n\u00e3o estou a falar mal dessa m\u00fasica, acho que a m\u00fasica pode existir por diferentes raz\u00f5es e isso \u00e9 perfeitamente ok, mas chamar algo de hip hop\u2026.<\/p>\n<p>Acho que h\u00e1 hip hop novo que \u00e9 incr\u00edvel, se ouvires o Roc Marciano, j\u00e1 falei do Ka, se ouvires Crimeapple, Brown13, h\u00e1 tanta coisa contempor\u00e2nea a sair, ainda existe aquele hip hop <em>grimy<\/em> que eu adoro, h\u00e1 letristas fant\u00e1sticos agora, h\u00e1 tanta coisa boa a acontecer\u2026N\u00e3o sei, eu tenho 44 mas odeio quando pessoas da minha idade come\u00e7am a dizer que \u201cN\u00e3o h\u00e1 m\u00fasica boa hoje em dia\u201d. Nah, tu \u00e9 que paraste de ouvir, porque h\u00e1 sempre m\u00fasica boa, \u00e9 s\u00f3 quest\u00e3o de ir procur\u00e1-la. Claro que tamb\u00e9m h\u00e1 imenso lixo, mas sempre foi assim\u2026.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o fora do hip hop, que outra m\u00fasica contempor\u00e2nea \u00e9 que te tem excitado ultimamente?<\/strong><\/p>\n<p>Estou a tentar pensar, porque \u00e0s vezes fico num daqueles <em>moods<\/em> em que ou\u00e7o montes de cenas antigas\u2026H\u00e1 meses em que s\u00f3 ou\u00e7o The Cure ou Joy Division (risos)\u2026Tenho estado numa onda dessas ultimamente\u2026<\/p>\n<p>Adorei os \u00faltimos dois discos da Solange, achei que eram discos mesmo incr\u00edveis, falando de\u2026suponho que lhe chamarias R&amp;B contempor\u00e2neo, mas eu gosto s\u00f3 do que ela tem feito em geral, uma constru\u00e7\u00e3o musical e letras mesmo boas, \u00e9 experimental de certa forma, para m\u00fasica pop \u00e9 bastante fora, o que \u00e9 fixe\u2026Importas-te que olhe para o meu Spotify para ver o que tenho andado a ouvir? Porque se n\u00e3o tenho uma branca\u2026<\/p>\n<p>Ah, o Sufjan Stevens, tenho ouvido demasiado o Carrie &amp; Lowell, adoro esse disco. O novo dos Tool, j\u00e1 me esquecia disso\u2026a cena louca dos dias de hoje \u00e9 que h\u00e1 tantos discos a sair, quase um a seguir ao outro a seguir ao outro que \u00e9 tipo\u2026sobrecarga sensorial (risos). H\u00e1 muita m\u00fasica boa neste mundo.<\/p>\n<p>H\u00e1 esta banda chamada Belong, n\u00e3o sei se os conheces, s\u00e3o meio shoegazy\u2026Black Marble, ando obcecado com esse gajo, as cenas deles s\u00e3o incr\u00edveis. Falando de hip hop, o meu mano House Shoes e a label dele, Street Corner Music, ele tem lan\u00e7ado uns tr\u00eas ou quatro \u00e1lbuns por ano, e tudo o que ele tem lan\u00e7ado \u00e9 incrivelmente bom. \u00c9 principalmente hip hop instrumental, mas h\u00e1 coisas incr\u00edveis l\u00e1.<\/p>\n<p>Hmm\u2026Iron &amp; Wine\u2026Midnight Owl\u2026<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o pareces restringir-te de todo na m\u00fasica que ouves, quer seja mais ou menos pesada\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Nah meu, eu s\u00f3 gosto de m\u00fasica, se for boa \u00e9 boa\u2026Ah, os Space Echo s\u00e3o outros. Os Suuns\u2026tamb\u00e9m s\u00e3o fant\u00e1sticos\u2026Ya, h\u00e1 montes de coisas.<\/p>\n<p><strong>Voltando aos cl\u00e1ssicos de que falaste, qual foi o primeiro disco ou m\u00fasica de hip hop que te fez pensar fora da caixa, e ver as possibilidades do hip hop e da m\u00fasica em geral?<\/strong><\/p>\n<p>Provavelmente os Ultramagnetic MCs, porque foram os primeiros a ter uma produ\u00e7\u00e3o mais fora. Acho que o Premier\u2026\u00e9 enganador, porque ouves a produ\u00e7\u00e3o dele e ele faz-te achar que \u00e9 simples, mas depois reparas que ele escolheu as pe\u00e7as mais simples que encaixam perfeitamente juntas, e isso \u00e9 muito dif\u00edcil de fazer\u2026sinto que se tentares fazer um beat do Premier vais falhar, ele tem um ouvido para o que funciona, e apesar de ser muito minimal \u00e9 surpreendentemente complexo a n\u00edvel de estrutura, e acho que h\u00e1 algo de lindo nisso. \u00c9 como se ele fosse completamente o nosso oposto, n\u00f3s fazemos coisas em camadas densas, mas tenho tanto respeito pelo que ele faz no lado mais minimal do hip hop\u2026\u00e9 estranho, ele \u00e9 o nosso oposto, mas mesmo assim \u00e9 uma influencia, eu estudo o que ele faz porque para mim \u00e9 lindo, \u00e9 fant\u00e1stico.<\/p>\n<p>E claro, os Bomb Squad, a produ\u00e7\u00e3o deles\u2026a no\u00e7\u00e3o de <em>layering<\/em> no hip hop vem da Bomb Squad, se ouvires o \u201cIt Takes a Nation of Millions\u201d ou o \u201cFear of a Black Planet\u201d\u2026<\/p>\n<p><strong>Sim, os Public Enemy estavam muito a frente\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Os Shocklees, a Bomb Squad em geral estava noutro planeta, mesmo, eram incr\u00edveis.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2636\" src=\"https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/MEA_4401.jpg\" alt=\"\" width=\"1600\" height=\"1059\" srcset=\"https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/MEA_4401.jpg 1600w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/MEA_4401-300x199.jpg 300w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/MEA_4401-600x397.jpg 600w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/MEA_4401-768x508.jpg 768w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/MEA_4401-1536x1017.jpg 1536w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/MEA_4401-619x410.jpg 619w\" sizes=\"(max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" \/><\/p>\n<p><strong>Falando sobre o vosso \u00faltimo disco [Endangered Philosophies], que filosofias \u00e9 que v\u00eas em perigo hoje em dia?<\/strong><\/p>\n<p>Sabes, honestamente\u2026sinto que qualquer tipo de pensamento est\u00e1 em perigo hoje em dia (risos). Nem sequer estava a tentar ir muito fundo no que toca a coisas especificas\u2026sinto que o intelecto em geral est\u00e1 em perigo atualmente, todo o clima actual da sociedade faz parecer que se tiveres algum tipo de intelig\u00eancia \u00e9s uma esp\u00e9cie em vias de extin\u00e7\u00e3o\u2026pelo menos \u00e9 como me sinto agora.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 que achas que o vosso pr\u00f3ximo disco vai abordar, isso \u00e9 algo que tenhas considerado?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei meu, \u00e9 uma boa pergunta. Temos este concerto, depois um festival em Minneapolis, talvez alguns concertos no M\u00e9xico, mas depois vamos voltar ao est\u00fadio para montar o pr\u00f3ximo disco a s\u00e9rio. Temos algumas pe\u00e7as em que temos trabalhado, mas quando trabalho num \u00e1lbum gosto de o fazer como um todo, tentar ver como todas as pe\u00e7as encaixam e em que dire\u00e7\u00e3o vamos, e o que vamos fazer a seguir. Para ser honesto contigo ainda n\u00e3o sei, n\u00e3o tenho a certeza\u2026porque sempre tentei que os nossos discos fossem actuais mas sem estarem presos ao tempo deles, sabes, quero que seja sobre o agora mas n\u00e3o quero que se consiga logo dizer \u201cAh, este disco \u00e9 desta altura\u201d. \u00c9 uma linha t\u00e9nue em que quero tocar no que est\u00e1 a acontecer agora, n\u00e3o s\u00f3 no mundo mas tamb\u00e9m na minha vida, mas tamb\u00e9m p\u00f4-lo num contexto em que seja mais universal, intemporal, por isso n\u00e3o sei, n\u00e3o tenho bem a certeza para onde vou. Tenho algumas ideias, mas ainda tenho que as trabalhar. Sei que n\u00e3o vai ser um disco muito feliz\u2026(risos)<\/p>\n<p><strong>Parece que as pessoas mais infelizes s\u00e3o de certa forma as menos loucas neste momento. Claro que \u00e9 uma generaliza\u00e7\u00e3o estranha de ser fazer, mas parece que tanto do que \u00e9 considerado l\u00f3gico est\u00e1 completamente invertido hoje em dia\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Vivemos numa \u00e9poca interessante, \u00e9 a melhor forma de p\u00f4r a coisa\u2026N\u00e3o sei, acho que n\u00e3o tenho nenhumas respostas, n\u00e3o sei para onde isto vai. Mas posso dizer que sou uma pessoa muito curiosa, por isso quero ver onde isto vai dar, seja bom ou mau. N\u00e3o estou 100% convencido de nenhuma das dire\u00e7\u00f5es, n\u00e3o acho que seja necessariamente tudo terr\u00edvel\u2026mas n\u00e3o sei, vamos ver o que acontece (risos).<\/p>\n<p><strong>Uma \u00faltima pergunta j\u00e1 que falaste dos Cure, qual \u00e9 o teu disco favorito deles? O que \u00e9 que achas-<\/strong><\/p>\n<p>Fascination Street\u2026Boys Don\u2019t Cry\u2026um desses dois. Quer dizer, adoro os hits todos deles, claro, mas o Fascination Street \u00e9 um disca\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>Eles s\u00e3o outra daquelas bandas que parecem nunca se deixar prender por nenhum g\u00e9nero\u2026<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, eles s\u00f3 seguiam em frente, \u00e9 fant\u00e1stico\u2026qual era a m\u00fasica? Aquela dos dias, tu sabes do que estou a falar.<\/p>\n<p><strong>\u201cIn Between Days.\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Ya, essa m\u00fasica soa t\u00e3o feliz, e eu fico tipo \u201cYo, isto n\u00e3o \u00e9 nada The Cure\u201d, e no entanto \u00e9 totalmente The Cure, sabes? \u00c9 incr\u00edvel que a m\u00fasica v\u00e1 totalmente contra tudo o que eles normalmente fazem e no entanto continua a soar a eles, e mesmo sendo uma m\u00fasica feliz acaba por soar meio melanc\u00f3lica\u2026o que \u00e9 fant\u00e1stico, sabes?<\/p>\n<p><strong>Sim, as letras disso s\u00e3o qualquer coisa tipo \u201cOntem senti-me t\u00e3o velho, senti que queria morrer\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>(risos)<\/p>\n<p><strong>Aquilo que se costuma dizer sobre os The Fall \u00e9 meio redutor mas ao mesmo tempo \u00e9 muito verdade e aplica-se a v\u00e1rias bandas: \u201cSempre diferentes, sempre iguais\u201d. E pessoalmente acho que \u00e9 o pico da criatividade art\u00edstica quando fazes algo que faz com que as pessoas pensem \u201cYep, isto \u00e9 deles\u201d, como os The Cure e voc\u00eas conseguem fazer.<\/strong><\/p>\n<p>Fogo meu, quando me p\u00f5es na mesma frase que os Cure e os Fall\u2026obrigado! Nem sei se merecemos ser mencionados em conjunto, mas agrade\u00e7o, porque isso s\u00e3o pesos pesados, mesmo. Mas sim, tudo o que tentamos fazer \u00e9 a melhor m\u00fasica poss\u00edvel. \u00c9 engra\u00e7ado, ontem \u2013 esta \u00e9 a primeira vez que estamos em Portugal nos \u00faltimos 10, 12 anos, qualquer coisa assim \u2013 e um puto veio ter connosco ontem dizer \u201cHey, j\u00e1 estou \u00e0 espera h\u00e1 12 anos para vos ver, n\u00e3o estava a espera que ainda tivessem essa energia toda\u201d, e eu respondi-lhe \u201cPois, nem eu\u2026\u201d (risos).<\/p>\n<p>Mas ainda tenho, ainda tenho essa fome e adoro todos os concertos, adoro actuar, fazer esta m\u00fasica, e o dia em que eu n\u00e3o goste disto \u00e9 o dia em que deixo de o fazer, \u00e9 a minha promessa, e o dia em que sinta que um disco n\u00e3o \u00e9 bom o suficiente n\u00e3o o lan\u00e7o, n\u00e3o o vou fazer s\u00f3 por fazer. Sei que j\u00e1 fazemos isto h\u00e1 muito tempo, especialmente o que eu e o Oktopus constru\u00edmos juntos\u2026antes da nossa pausa, quando voltei, disse-lhe \u201cHey, n\u00e3o vou lan\u00e7ar lixo, n\u00e3o vou fazer nada que deturpe o que fizemos no passado\u201d. Sinto que a minha miss\u00e3o \u00e9 pelo menos tentar fazer mais e melhor, e se conseguir continuar faz\u00ea-lo, vou faz\u00ea-lo.&nbsp; Como disse, desde que esteja a sentir-me bem em palco e feliz com o que estou a fazer\u2026porque isto \u00e9 o que eu conhe\u00e7o, n\u00e3o conhe\u00e7o outra vida, vou estar c\u00e1 enquanto me quiserem por c\u00e1, sabes? Mesmo a s\u00e9rio.<\/p>\n<p><strong>Muito obrigado.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No \u00faltimo OUT.FEST tivemos o prazer e a honra de contar com os nova iorquinos D\u00e4lek, grupo de hip hop do mais aventureiro, no seu regresso a Portugal pela primeira vez em mais de uma d\u00e9cada. 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