{"id":3026,"date":"2021-11-10T13:03:38","date_gmt":"2021-11-10T12:03:38","guid":{"rendered":"https:\/\/old.outra.pt\/?p=3026"},"modified":"2021-11-10T13:04:54","modified_gmt":"2021-11-10T12:04:54","slug":"entrevista-a-vasco-alves-out-fest-2021","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/old.outra.pt\/pt_pt\/2021\/11\/entrevista-a-vasco-alves-out-fest-2021\/","title":{"rendered":"Entrevista a Vasco Alves (OUT.FEST 2021)"},"content":{"rendered":"<p>Na semana anterior ao momento de Outubro do OUT.FEST 2021, tivemos a oportunidade de conversar com Vasco Alves &#8211; gaiteiro de bancada d&#8217;Os Belenenses, membro de VA AA LR e investigador her\u00f3ico da materialidade do som e da natureza dos fen\u00f3menos ac\u00fasticos, que tem tido um percurso discreto mas sempre fascinante recorrendo a v\u00e1rias fontes e metodologias que passam pelo uso de r\u00e1dios quitados, gravadores de fita, processamento de sinal, t\u00e9cnicas de s\u00edntese e \u2013 em tempos mais ou menos recentes \u2013 a gaita de foles.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-3028\" src=\"https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_25_NunoBernardo-530x800.jpg\" alt=\"\" width=\"530\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_25_NunoBernardo-530x800.jpg 530w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_25_NunoBernardo-199x300.jpg 199w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_25_NunoBernardo-768x1160.jpg 768w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_25_NunoBernardo-1017x1536.jpg 1017w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_25_NunoBernardo-8x12.jpg 8w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_25_NunoBernardo.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 530px) 100vw, 530px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Podes falar-me um pouco sobre o teu percurso com a gaita de fole? Como \u00e9 que come\u00e7aste a tocar e como \u00e9 que a tua rela\u00e7\u00e3o com o instrumento se desenvolveu ao longo do tempo?<\/strong><\/p>\n<p>Comecei a aprender a gaita de fole em 2014 no Centro Galego de Lisboa, e nos primeiros anos tive uma aprendizagem tradicional, mas sempre tive a vontade de usar o instrumento de uma forma talvez menos convencional, mais explorat\u00f3ria, mais pr\u00f3xima dos temas que me interessam, e isso foi algo que eu s\u00f3 consegui come\u00e7ar a fazer alguns anos ap\u00f3s ter come\u00e7ado a tocar. Acho que foi h\u00e1 cerca de tr\u00eas anos e tal, talvez em 2018: comecei a preparar algumas pe\u00e7as que apesar de tamb\u00e9m inclu\u00edrem algum material electr\u00f3nico, trabalham fen\u00f4menos ac\u00fasticos e a psicoac\u00fastica acima de tudo. Tento explorar sempre algum tipo de efeito nesse campo.<\/p>\n<p><strong>E o que \u00e9 que te levou especificamente a este instrumento? Porque em 2014 j\u00e1 fazias m\u00fasica, certo?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, j\u00e1 tocava h\u00e1 bastante tempo\u2026eu tive duas experi\u00eancias que foram algo surpreendentes, tanto que quando ocorreram eu nem pensava que fosse um dia aprender um instrumento. Uma foi um concerto do Paul Dunmall em Londres &#8211; ele est\u00e1 mais associado at\u00e9 ao jazz e ao improv como saxofonista, mas tem uma cole\u00e7\u00e3o pessoal de gaitas de fole de todo o mundo. Eu e um amigo convidamo-lo para um concerto que est\u00e1vamos a organizar quando eu vivia l\u00e1, e ele teve uma actua\u00e7\u00e3o onde tocou com v\u00e1rias gaitas de fole ao longo da performance, e houve ali momentos incr\u00edveis, que eu n\u00e3o esperava, mesmo a n\u00edvel material do som&#8230;quando a gaita era amplificada, se fechasses os olhos imaginavas que era um concerto de laptop, de m\u00fasica de computador&#8230;bem, havia elementos bastante surpreendentes, e depois quando voltei para Portugal, em 2014, acabei por ver um ou dois concertos em que o instrumento tamb\u00e9m era utilizado, j\u00e1 fora deste contexto, mas na altura decidi ir aprend\u00ea-lo, de uma forma um bocado espont\u00e2nea. E pronto, gostei e continuei e neste momento \u00e9 possivelmente o instrumento com que estou a trabalhar mais, apesar de tamb\u00e9m explorar tem\u00e1ticas parecidas \u00e0s da gaita quando trabalho com electr\u00f3nica.<\/p>\n<p><strong>Continuando nesse t\u00f3pico, quando \u00e9 que ganhaste o interesse em m\u00fasica eletroac\u00fastica? Houve algum momento espec\u00edfico no qual encontraste essa m\u00fasica e achaste que era por a\u00ed que ia seguir o teu percurso musical?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei se consigo definir um momento em particular, penso que provavelmente tamb\u00e9m ter\u00e1 muito a ver com as coisas que fui ouvindo na adolesc\u00eancia, e que me levaram a ter algum interesse em explorar, e em seguir pelo lado mais explorat\u00f3rio da m\u00fasica, ou menos convencional, por assim dizer. Tamb\u00e9m nos anos da universidade, se n\u00e3o me engano, aprendi a fazer uns microfones de contacto e outras pequenas coisas (acho que at\u00e9 as primeiras grava\u00e7\u00f5es que fiz foi com esse material, ainda de uma forma muito na\u00efve e muito intuitiva), e pronto, as coisas foram acontecendo, fui continuando a interessar-me tamb\u00e9m pela constru\u00e7\u00e3o de instrumentos, pela explora\u00e7\u00e3o de materiais, e a coisa foi evoluindo por a\u00ed. Obviamente que as coisas em que estou interessado hoje em dia n\u00e3o s\u00e3o necessariamente as que estava interessado na altura, mas tem sido uma evolu\u00e7\u00e3o, tem passado por v\u00e1rias fases, mas penso que h\u00e1 algo que as une.<\/p>\n<p><strong>Qual era ent\u00e3o a m\u00fasica que ouvias na adolesc\u00eancia, que te levou para esses lados?<\/strong><\/p>\n<p>Bem&#8230; assim numa fase muito inicial da adolesc\u00eancia ouvia imenso Sonic Youth (e toda a cena musical em que se inseriam), possivelmente foi assim uma das primeiras vezes que vi instrumentos a serem utilizados de forma menos convencional. E agora voltando \u00e0 pergunta de h\u00e1 bocado, realmente houve uma altura, quando descobri o trabalho do Christian Marclay, em que vi uma exposi\u00e7\u00e3o dele e depois cheguei a ver alguns concertos e a ouvir algumas grava\u00e7\u00f5es, e penso que isso foi um momento que me marcou de alguma forma, tamb\u00e9m pela utiliza\u00e7\u00e3o do material que ele fazia, e pelo pr\u00f3prio som que era gerado pelas coisas que ele constru\u00eda, os processos que ele explorava e que as pe\u00e7as dele tinham, foram tudo coisas que na altura me influenciaram bastante. Pouco depois descubro o Alvin Lucier, grande mestre. H\u00e1 muitas outras coisas que tamb\u00e9m me t\u00eam vindo a influenciar, como o trabalho do Rafael Toral, o do Sei Miguel&#8230; Mas pronto, depois torna-se dif\u00edcil enumerar influ\u00eancias especificas, tem sido muitas as coisas que me t\u00eam influenciado.<\/p>\n<p><strong>A rela\u00e7\u00e3o que eu vejo entre todos esses m\u00fasicos passa um bocado pelo que o Eddie Pr\u00e9vost diz e tenta ensinar, que \u00e9 a ver um instrumento como algo para tocar \u201cfora da caixa\u201d, que \u00e9 preciso ser um bocado explorat\u00f3rio e improvisador com os instrumentos. No teu website vi o r\u00e1dio que tu tocaste, e pareceu-me familiar &#8211; estavas no workshop do Eddie Pr\u00e9vost [no OUT.FEST 2015]?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, eu tamb\u00e9m costumava levar esse r\u00e1dio para as workshops que ele organizava em Londres, que eram um encontro semanal de improvisa\u00e7\u00e3o &#8211; todas as sextas-feiras \u00e0 noite na cave de uma igreja, em que toda a gente podia aparecer e juntar-se, e durante uns dois anos eu ia l\u00e1 com regularidade, e foi por isso que eu participei tamb\u00e9m no workshop no Barreiro, que voc\u00eas organizaram.<\/p>\n<p><strong>E o que \u00e9 que essas workshops te ensinaram? Como \u00e9 que te ajudaram a desenvolver o teu trabalho?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que essas workshops na altura tiveram bastante impacto em mim, mas eu hoje em dia n\u00e3o me sinto assim t\u00e3o pr\u00f3ximo ou t\u00e3o interessado naquilo que a improvisa\u00e7\u00e3o livre \u00e9, que \u00e9 basicamente naquilo em que o Eddie Pr\u00e9vost se foca. Os workshops na altura foram uma coisa incr\u00edvel, n\u00e3o s\u00f3 a n\u00edvel pessoal como a n\u00edvel social, havia uma din\u00e2mica que para mim era uma novidade e era bastante entusiasmante, a forma como as workshops decorriam e como as pessoas iam tocando&#8230; havia pequenas regras, mas havia muita abertura e muita fluidez e nunca ningu\u00e9m dizia o que devias ou n\u00e3o fazer, e isso durante um tempo fascinou-me bastante. Entretanto acho que foi perdendo um pouco&#8230;n\u00e3o sei se me tornei menos na\u00efve em rela\u00e7\u00e3o a essa ideia, se me fui simplesmente interessando talvez mais por outros lados, por outras coisas&#8230;no entanto, tamb\u00e9m experienciei momentos incr\u00edveis l\u00e1, de m\u00fasicos mesmo muito bons, e acho que a certa altura, na fase final do tempo em que frequentei essas workshops, ia l\u00e1 mais para ver uma ou duas pessoas (o Seymour Wright por exemplo) cujo trabalho me interessava e fascinava, e os 5 ou 10 minutos que os ouvia a tocar valiam as horas que estava por l\u00e1\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-3029\" src=\"https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_13_NunoBernardo-600x398.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"398\" srcset=\"https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_13_NunoBernardo-600x398.jpg 600w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_13_NunoBernardo-300x199.jpg 300w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_13_NunoBernardo-768x509.jpg 768w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_13_NunoBernardo-18x12.jpg 18w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_13_NunoBernardo.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Dizias-me ent\u00e3o que os teus interesses come\u00e7aram a mudar &#8211; consegues dizer qual \u00e9 a parte da m\u00fasica que te interessa mais neste momento?<\/strong><\/p>\n<p>Bem, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 improvisa\u00e7\u00e3o livre: eu penso que n\u00e3o \u00e9 esse o ponto central do que me interessa mais hoje em dia. O meu trabalho, quer electr\u00f3nico quer ac\u00fastico sempre envolveu, materialmente, muita volatilidade e por isso a improvisa\u00e7\u00e3o continua a ser algo muito importante para mim, mas gosto de trabalhar sobre alguns temas, sejam eles coisas que na realidade tenham vindo do trabalho com algum instrumento (no sentido mais lato), da \u201cvida\u201d que essa volatilidade e instabilidade possam gerar, mas tamb\u00e9m temas espaciais, da liga\u00e7\u00e3o do instrumento com o espa\u00e7o, e tentar de alguma forma criar trabalho que se encaixe neste contexto. A improvisa\u00e7\u00e3o \u00e9 obviamente algo que est\u00e1 sempre presente, por que eu tenho estruturas, mas n\u00e3o tenho definido exactamente aquilo que vou fazer, h\u00e1 espa\u00e7o para eu poder reagir \u00e0s coisas da forma que me pare\u00e7a mais acertada no momento. A pr\u00f3pria gaita de fole, sendo um instrumento t\u00e3o bruto, t\u00e3o primitivo de certa forma, e se calhar as pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es do instrumento, penso que s\u00e3o uma boa ferramenta para explorar este tipo de ideias, porque de certa forma eu acho que essa simplicidade e crueza depois permitem que tamb\u00e9m as outras coisas tenham alguma proemin\u00eancia, e alguma import\u00e2ncia, que sejam ouvidas e que sejam percept\u00edveis, e a gaita acaba por ser um pouco o <em>trigger<\/em> para esses eventos&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Isso leva-me a outra pergunta &#8211; eu noto na tua m\u00fasica, especialmente o teu trabalho mais recente, que h\u00e1 uma certa dualidade, entre o folclore, coisas bastante primordiais, com um \u00e2ngulo mais tecnol\u00f3gico e mais maquinal. N\u00e3o sei se \u00e9 algo com que concordes\u2026<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 certamente algo intencional. As ferramentas que uso tendem muitas vezes a definir aquilo que eu fa\u00e7o. Apareceu-me a gaita de foles, e tamb\u00e9m outro tipo de coisas que tenho usado, e a perspectiva \u00e9 mais do g\u00e9nero, \u201cCom este instrumento o que posso fazer, o que \u00e9 que o instrumento me d\u00e1, como \u00e9 que o consigo aplicar no que me interessa fazer sonoramente?\u201d No concerto que vou apresentar no OUT.FEST o computador est\u00e1 a gerar simplesmente uma frequ\u00eancia, uma onda dente-de-serra (sawtooth) e tem um som muito parecido ao da gaita de fole, acaba por ser quase um segundo tocador, que depois gera o tal confronto de frequ\u00eancias&#8230;\u00e9 um pouco dif\u00edcil de definir, mas como j\u00e1 referi interessa-me a explora\u00e7\u00e3o de instabilidades no processo e nos mecanismos que vou construindo, eu tento fazer tamb\u00e9m um pouco isso na gaita de foles. Mas como disse n\u00e3o \u00e9 uma decis\u00e3o consciente, gosto de trabalhar com a crueza, interessa-me alguma secura nas coisas, nos materiais, e pronto, a partir da\u00ed parto para a constru\u00e7\u00e3o musical, para desenvolver o trabalho que fa\u00e7o, mas na realidade para mim s\u00e3o tudo coisas que se encaixam mentalmente no mesmo s\u00edtio: estar a usar a gaita de foles ou o sintetizador ou um circuito constru\u00eddo ou um r\u00e1dio, a finalidade para mim \u00e9 a mesma, n\u00e3o h\u00e1 nenhum conceito por detr\u00e1s disso.<\/p>\n<p><strong>Usas mesmo os instrumentos porque gostas do som&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Sim, e porque me interessa a pr\u00f3pria crueza e a brutalidade de coisas como o ru\u00eddo branco, do som da gaita de foles, que tamb\u00e9m \u00e9 algo bastante simples, interesso-me a simplicidade no trabalho electr\u00f3nico, mesmo muito&#8230; digamos que a ideia de economia, de fazer muito com pouco \u00e9 algo que me interessa bastante e que eu tento ao m\u00e1ximo procurar nos processos e nas coisas que crio.<\/p>\n<p><strong>Queria perguntar-te sobre o trabalho que vais apresentar no OUT.FEST, o \u201cGaita Contra Computador\u201d, que \u00e9 um t\u00edtulo que traz uma ideia de oposi\u00e7\u00e3o, de combate quase&#8230;Tu mencionaste que h\u00e1 um tom do computador que \u00e9 muito parecido com o da gaita de fole, podes falar-nos um pouco mais sobre esse trabalho?<\/strong><\/p>\n<p>O \u201cGaita Contra Computador\u201d \u00e9 o t\u00edtulo de um CD que eu editei no ano passado, e sim, o trabalho assenta na cria\u00e7\u00e3o de algumas pe\u00e7as que s\u00e3o relativamente curtas, algumas das quais influenciaram o nome do disco e envolvem a gaita usada sem amplifica\u00e7\u00e3o num espa\u00e7o, enquanto que o computador est\u00e1 a gerar uma frequ\u00eancia programada por mim que gera tons que se assemelham muito ao tom da gaita, e a ideia \u00e9 que quando as frequ\u00eancias se cruzam no espa\u00e7o criam-se determinados efeitos ac\u00fasticos (batimentos, por exemplo)&#8230;A minha inten\u00e7\u00e3o \u00e9 dar a ideia de que h\u00e1 um novo som a certa altura, a uni\u00e3o entre os dois sons na qual a dado ponto deixas de conseguir perceber o que \u00e9 o qu\u00ea&#8230; Mas fundamentalmente interessa-me saber como os sons se cruzam no espa\u00e7o, \u00e9 como se tivesse basicamente uma outra pessoa ali a tocar comigo, mas quando exploras frequ\u00eancias muito, muito pr\u00f3ximas e te moves no espa\u00e7o, h\u00e1 pequenos efeitos que se geram, neste caso no espa\u00e7o ac\u00fastico, na sala do concerto.<\/p>\n<p>Depois tamb\u00e9m vou possivelmente apresentar algumas pe\u00e7as ac\u00fasticas, sem a utiliza\u00e7\u00e3o do computador, em que exploro a gaita de fole, os seus limites f\u00edsicos, tento puxar assim a palheta para registos de som que n\u00e3o s\u00e3o propriamente os registos aos quais \u00e9 suposto o instrumento chegar, \u00e0 procura de falhas, e a explorar essas falhas e essa instabilidade. Depois h\u00e1 outra pe\u00e7a que envolve acrescentar um tubo \u00e0 gaita de foles e apontar essa frequ\u00eancia para uns jarros que v\u00e3o estar no ch\u00e3o, e explorar a frequ\u00eancia de resson\u00e2ncia dos jarros &#8211; quando aproximas o som da gaita dos jarros h\u00e1 uma nova frequ\u00eancia que surge, e \u00e9 uma pe\u00e7a focada nessa intera\u00e7\u00e3o&#8230;e \u00e9 \u00e0 volta destas ideias que vai ser o meu concerto &#8211; s\u00e3o pe\u00e7as que se assemelham de alguma forma ao que est\u00e1 no disco mas que est\u00e3o em constante evolu\u00e7\u00e3o, cada vez que as apresento ou ensaio elas v\u00e3o sofrendo ajustes e v\u00e3o mudando ao longo do tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-3030\" src=\"https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_09_NunoBernardo-600x400.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_09_NunoBernardo-600x400.jpg 600w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_09_NunoBernardo-300x200.jpg 300w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_09_NunoBernardo-768x512.jpg 768w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_09_NunoBernardo-18x12.jpg 18w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_09_NunoBernardo.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>At\u00e9 porque o pr\u00f3prio espa\u00e7o influencia a forma como as pe\u00e7as soam &#8211; lembro-me por exemplo de termos tido por c\u00e1 o<\/strong> <a href=\"https:\/\/old.outra.pt\/en_us\/2020\/12\/entrevista-a-erwan-keravec\/\"><strong>Erwan Keravec<\/strong><\/a><strong>, que estava muito satisfeito com a reverbera\u00e7\u00e3o e amplifica\u00e7\u00e3o natural da igreja na qual tocou&#8230;Como tem sido a tua experi\u00eancia a tocar em diferentes espa\u00e7os, tamb\u00e9m sentes que tem um grande impacto na forma como tocas?<\/strong><\/p>\n<p>Claro, tem sempre bastante, n\u00e3o s\u00f3 nas pe\u00e7as ac\u00fasticas mas tamb\u00e9m naquelas em que uso o computador&#8230; a resson\u00e2ncia do espa\u00e7o \u00e9 algo que favorece um pouco as pe\u00e7as, digo eu, um espa\u00e7o muito seco possivelmente n\u00e3o funcionaria t\u00e3o bem&#8230;possivelmente teria que pensar noutras coisas, mas sim, a ac\u00fastica do espa\u00e7o \u00e9 algo bastante importante, que eu tenho que ter em conta sempre que estou a tocar, e neste caso j\u00e1 fui \u00e0 biblioteca [Municipal do Barreiro] ver e experimentar tocar l\u00e1 e isso acaba por informar um pouco aquilo que vou apresentar\u2026<\/p>\n<p><strong>Estavas a falar h\u00e1 pouco de intensidade, e como isso te interessa muito. Eu queria perguntar-te sobre o \u201cEstrada Longa\u201d &#8211; eu estive a ouvi-lo h\u00e1 alguns dias e senti que tivesse algo pr\u00f3ximo do motorik, n\u00e3o tanto na vertente r\u00edtmica do krautrock, mas como uma certa propuls\u00e3o e transe, n\u00e3o de forma intensa mas a transmitir movimento, a desloca\u00e7\u00e3o de bicicleta&#8230;Que foi o que inspirou o \u201cEstrada Longa\u201d, a tua viagem de na N2 de bicicleta no meio da pandemia, certo? Podias falar um pouco sobre a tua viagem, e como isso influenciou o disco?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, foi isso. Eu fiz a viagem sozinho de bicicleta, e quando o fiz n\u00e3o tinha planeado criar nada a partir da\u00ed, simplesmente comecei a andar e a ver imensos nomes de terras aos quais achava piada, e decidi no primeiro dia come\u00e7ar a gravar o nome dos s\u00edtios por onde ia passando. Quase todos, aqueles que me ia lembrando, mas tamb\u00e9m n\u00e3o fazia isso constantemente: primeiro passava uns quantos, gravava no telem\u00f3vel, depois ia andando e gravava outros, e cheguei ao final da viagem e tinha quase 150 nomes de terras, de Tr\u00e1s-os-Montes ao Algarve.<\/p>\n<p>Na altura passei algum tempo a pensar como \u00e9 que iria usar aquele material. As grava\u00e7\u00f5es foram feitas no telem\u00f3vel e muitas vezes a pedalar, e apesar de achar que tinham algum interesse n\u00e3o consegui propriamente encaix\u00e1-las, e pronto, achei que s\u00f3 com o material cru n\u00e3o teria tanto interesse (apesar de tamb\u00e9m me interessar esse aspecto). O que acabei por fazer foi pegar num par de sintetizadores que tinha em casa e que costumo usar, que basicamente permitem criar uma esp\u00e9cie de padr\u00f5es com imensa instabilidade e volatilidade envolvida na forma como os sintetizadores est\u00e3o ligados, h\u00e1 um aspecto c\u00edclico da coisa, mas n\u00e3o linear de alguma forma, e eu pensei que se calhar as duas coisas se pudessem unir, e ent\u00e3o criei outros padr\u00f5es, para cada dia de viagem, e regravei os nomes das terras por onde passei a cada dia.<\/p>\n<p>E foi assim que surgiu o disco &#8211; foi como falaste, h\u00e1 aquele aspecto c\u00edclico dos sintetizadores, e procurei tamb\u00e9m passar alguma monotonia, interessou-me essa ideia dos dias longos, das estradas que nunca mais acabam, mas ao mesmo tempo est\u00e3o em constante muta\u00e7\u00e3o&#8230;mas pronto, foi uma pe\u00e7a que surgiu e que teve aquele resultado final, o tal disco. N\u00e3o sei bem se faz sentido dar-lhe seguimento ou n\u00e3o, mas esse trabalho ficou conclu\u00eddo ali, naquela pe\u00e7a, que \u00e0s vezes penso que podia ter sido bastante mais longa: em vez de ter 50 minutos devia ter 4 horas, mas ficou assim\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-large wp-image-3031\" src=\"https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_20_NunoBernardo-600x400.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_20_NunoBernardo-600x400.jpg 600w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_20_NunoBernardo-300x200.jpg 300w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_20_NunoBernardo-768x512.jpg 768w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_20_NunoBernardo-18x12.jpg 18w, https:\/\/old.outra.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Outfest_20211007_20_NunoBernardo.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A \u00faltima pergunta se calhar \u00e9 um bocadinho parva, mas: como \u00e9 que foste tornar-te gaiteiro dos Belenenses?<\/strong><\/p>\n<p>(risos) A minha liga\u00e7\u00e3o ao Belenenses \u00e9 familiar, o meu av\u00f4 e bisav\u00f4 eram ali de Bel\u00e9m, sou s\u00f3cio desde que nasci, etc&#8230;O clube desceu para a \u00faltima divis\u00e3o recentemente, por causa dos conflitos com a B-SAD, e no primeiro jogo da sexta divis\u00e3o eu decidi levar a gaita. J\u00e1 tinha falado com alguns amigos que estavam ligados \u00e0 claque, e comecei a tocar o hino do clube, come\u00e7ou toda a gente a cantar no est\u00e1dio, e ao fim do dia j\u00e1 estavam v\u00eddeos no YouTube a ligar aquele momento a uma antiga tradi\u00e7\u00e3o dos anos vinte, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=81gL2TobA7Y\">os quinze minutos \u00e0 Belenenses<\/a> &#8211; supostamente o clube naquela \u00e9poca fez uma s\u00e9rie de remontadas em jogos muito importantes, onde viravam os jogos nos \u00faltimos 15 minutos, incluindo um espec\u00edfico contra o Benfica que ficou muito c\u00e9lebre. E assim durante muitos anos os s\u00f3cios faziam imenso barulho nos \u00faltimos quinze minutos, j\u00e1 ouvi dizer que com apitos e panelas, e algu\u00e9m fez essa colagem \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o, por isso agora nos jogos, nos \u00faltimos 15 minutos, toco o hino e mais algumas m\u00fasicas da claque (a F\u00faria Azul) na gaita de fole, e tornou-se num acontecimento nos jogos. Agora sinto assim aquela responsabilidade \u00e0 qual n\u00e3o posso falhar, e todos os domingos estou l\u00e1 com a gaita de fole, j\u00e1 somos dois gaiteiros na verdade&#8230;e pronto, a liga\u00e7\u00e3o da gaita ao Belenenses \u00e9 essa.<\/p>\n<p><strong>Isso \u00e9 muito fixe. Tu pr\u00f3prio n\u00e3o sabias dessa tradi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p>Sabia, o meu av\u00f4 contou-me em crian\u00e7a, mas a tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o era com a gaita, sabes, antigamente diz que se fazia muito barulho na bancada ou que se tocava um apito tr\u00eas vezes, mas entretanto aquilo morreu completamente, h\u00e1 livros dos anos 60 de gente ligada ao clube que dizia que os jogadores j\u00e1 n\u00e3o sabiam o que eram os 15 minutos \u00e0 Belenenses&#8230;isto nos anos 60, e eu nos anos 90 ainda ouvi alguns apitos, mas era uma coisa praticamente esquecida, e agora voltou a ter algum significado, \u00e9 engra\u00e7ado.<\/p>\n<div class=\"su-youtube su-u-responsive-media-yes\"><iframe width=\"600\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/81gL2TobA7Y?\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; encrypted-media; picture-in-picture\" title=\"\"><\/iframe><\/div>\n<p><em>Entrevista por Tiago Franco e Diogo Carneiro. Fotos por Pedro Roque (a primeira) e Nuno Bernardo (as restantes).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na semana anterior ao momento de Outubro do OUT.FEST 2021, tivemos a oportunidade de conversar com Vasco Alves &#8211; gaiteiro de bancada d&#8217;Os Belenenses, membro de VA AA LR e investigador her\u00f3ico da materialidade do som e da natureza dos fen\u00f3menos ac\u00fasticos, que tem tido um percurso discreto mas sempre fascinante recorrendo a v\u00e1rias fontes [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3027,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[138,360,10],"tags":[580,24,579],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Entrevista a Vasco Alves (OUT.FEST 2021) - OUT.RA<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_PT\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Entrevista a Vasco Alves (OUT.FEST 2021) - OUT.RA\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Na semana anterior ao momento de Outubro do OUT.FEST 2021, tivemos a oportunidade de conversar com Vasco Alves &#8211; 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