No último OUT.FEST tivemos o prazer e a honra de contar com os nova iorquinos Dälek, grupo de hip hop do mais aventureiro, no seu regresso a Portugal pela primeira vez em mais de uma década. Antes do concerto, falamos com Will Brooks (MC Dälek, o próprio) sobre a abordagem em estúdio do grupo, colaborações passadas e futuras, e os artistas que o inspiram.
Entrevista por Tiago Franco. Fotos por Pedro Roque.

Como foi a tour com os Anguish?
Tem sido incrível, é fenomenal como as coisas se alinharam e como conseguimos dar concertos, porque é difícil juntar toda a gente, todos temos projectos diferentes a acontecer, e por isso não é fácil marcar tours, então quando temos a oportunidade aproveitamos. O primeiro concerto que demos foi no Moers Festival e no dia anterior demos um concerto de Dälek em Austin no Texas, por isso voamos de Austin para Nova York, de lá para a Alemanha para dar esse concerto…Mas teve mesmo que ser, se não passávamos mais um mês sem tocar. Mas foi muito bom, desde o primeiro concerto que…sabíamos que tínhamos algo especial quando gravamos, mas logo no primeiro concerto deu para perceber que isto era mesmo especial em palco. Acho que fizemos oito ou nove actuações até agora e tem ficado melhor e melhor. É um bocado louco, porque logo no primeiro concerto nem ensaiamos, só fizemos aquilo acontecer de alguma forma, depois houve dois concertos em que o Mats [Gustafsson] não conseguiu participar, então arranjamos um substituto recomendado por ele, o Goran [Kajfes], que tocou trompete, ele chegou a conhecer as músicas e connosco a confiar que nos íamos safar de alguma maneira, e foi fenomenal, as coisas funcionaram muito bem. Tem sido um prazer, tocar com músicos deste calibre torna tudo mais fácil – tenho toda a confiança em toda a gente naquele palco e é fixe porque podemos levar as coisas para direções mais fora e mesmo assim sei que vai correr tudo bem. Por isso é fixe, é muito diferente das coisas de Dälek, porque as canções evoluem e mudam. Há momentos centrais nas músicas mas é muito improv, muito aberto, e é um prazer fazer parte disso.
Sei que fizeste o disco com o Hans Joachim Irmler…Como é que o conheceste a ele e à malta da Fire! Orchestra?
O Mats é outro que…já nos conhecemos há mais que uma década, acho que a primeira vez que tocamos juntos foi no Konfrontationen Festival em Nickelsdorf, um festival de free jazz na Austria, e demo-nos logo bem, ele era daqueles tipos com os quais sempre dissemos que queríamos trabalhar, mas os nossos calendários nunca se alinhavam e nunca deu para o fazer. Mas no verão em que gravamos o disco de Anguish conseguimos fazê-lo acontecer: Convidamo-lo para tocar saxofone com Dälek nuns quantos festivais (basicamente tínhamos duas semanas de concertos e uma semana livre no meio), e pensamos, em vez de ir para casa, era melhor irmos para um estúdio e ver o que saia daí. Por isso propusemos-lhe essa ideia e ele adorou, e eu fui imediatamente falar com o Joachim, porque também já queríamos fazer algo com ele outra vez e ele tem um bom estúdio na Alemanha, e ele estava completamente nessa. Depois o Mats sugeriu que trouxéssemos o baterista dele na Fire! Orchestra e foi perfeito, funcionou mesmo mesmo bem, era eu e o Mike de Dälek, os dois gajos da Fire! Orchestra e o Joachim…parece fora, mas correu tudo às mil maravilhas.
Já colaboraste com tantos artistas diferentes ao longo dos anos – o que é que te apela em trabalhar com artistas que as pessoas normalmente não associam ao hip hop?
Nunca quis saber de género, na realidade. Só quero saber da música, se é boa é boa, e ter músicos daquele calibre a sequer considerar trabalhar comigo é uma honra, por isso quando tenho a oportunidade de trabalhar com alguém que respeito agarro-a, porque a vida é limitada, estou a tentar fazer com que conte, ter tantos projectos e fazer tanta música boa quanto consiga, e há uma longa lista de pessoal com o qual ainda quero trabalhar, por isso…
Tens algumas colaborações futuras em mente?
Sim, há algumas coisas no forno das quais não posso falar ainda, e há uma lista de colaborações de sonho, claro. Adorava trabalhar com o Kevin Shields dos My Bloody Valentine, gostava de trabalhar com o Stephen O’Malley, a Björk também esteve sempre na minha lista…no que toca hip hop, gajos como o Ka…há tanta gente, tantos bons artistas por ai…mais uma vez, os géneros não interessam, o que interessa é: “Que tipo de arte é que criaste com outro músico?” Quando se vem de mundos completamente diferentes, encontrar um espaço em comum é o que torna a coisa especial.
Queria perguntar-te sobre os My Bloody Valentine, porque falas deles com frequência – podes contar-nos sobre a primeira vez que os ouviste e o que isso despertou em ti?
Na realidade só comecei a ouvi-los muito tarde, por volta da altura em que começamos os Dälek. Fui eu o o Oktopus a começar o grupo, acho que foi por volta de 95/96 que começamos a trabalhar juntos, e na altura ele vinha mais do punk, eu vinha mais do hip hop, obviamente, mas ao mesmo tempo ele tinha um gosto bastante variado, gostava de muito shoegaze, cenas alternativas, gostávamos ambos de muito jazz, eu gostava de salsa, ele gostava de metal…por isso ambos tínhamos um espaço musical em comum meio estranho, mas ao mesmo tempo havia muita coisa que nem eu nem ele conhecíamos muito bem. Ele gostava de hip hop old school mas tinha deixado de ouvir hip hop, gostava dos Public Enemy e coisas assim…
Na altura ele era só o engenheiro de som do meu projecto, ainda não tínhamos começado a banda, mas depois das sessões juntávamo-nos e ficávamos só a mostrar música um ao outro. Eu dizia-lhe “Tens que ouvir isto!” e mostrava-lhe o hip hop que estava a sair na altura, em 94/95/96, os discos solo dos Wu Tang, o Nas, as cenas Boom Bap todas, suponho que agora lhe chamam a era dourada do hip hop, mas na altura era só o que estava a acontecer, e ele estava a mostrar-me coisas como os All Natural Lemon And Lime Flavours, que até tinham uma ligação connosco. Andamos na escola com um desses gajos, o Josh Booth, que acabou por chegar a trabalhar também connosco, e foram eles a mostrar os MBV ao Oktopus. Ainda hoje me lembro desse momento, estavamos completamente bêbedos, ele pôs o Loveless a dar e foi como se se acendesse uma luz, fiquei tipo “Isso, mas que é isso? Eu quero fazer isto para o hip hop, como é que fazemos isto?” fez-me logo totalmente sentido, tudo naquele disco soava bem, a forma como as vozes eram um instrumento, como as guitarras faziam aquela parede de som, como o ruido era melódico, mesmo tudo acerca daquele disco era lindo para mim, aquele disco mudou tudo, foi um daqueles momentos em que fiquei tipo…Honestamente, para mim Dälek é só My Bloody Valentine, Public Enemy, KRS-One, talvez um pouco de Faust e de Velvet Underground, sabes, talvez um bocadinho de Rakim…essa é a formula que nos inspirou…
Tocamos num festival que curado pelo Thurston Moore, e a Deb Googe, a baixista dos MBV, tocava na banda dele, por isso tivemos a sorte de estar com ela e eu parecia um puto…e ela foi tão fofa e fixe connosco, disse-nos que curtia o que nós estávamos a fazer e eu disse-lhe que isso para mim era tudo, e depois quando os MBV tocaram em Nova Iorque ela convidou-me para o concerto e pude conhece-los, e fiquei outra vez – e normalmente nem sou esse tipo de pessoa – mas estava 100% em modo fã, pedi-lhes para assinarem os meus discos e tudo isso. Essa é a coisa linda acerca da música, há certas bandas que ressoam contigo, inspiram-te, e eles são definitivamente uma das bandas que acabou por redefinir o que eu achava que queria fazer. O KRS-One foi provavelmente quem começou isso, quando o ouvi percebi que era o que queria fazer da minha vida, os Public Enemy foram outro desses grupos, e sinto que os My Bloody Valentine foram o outro que me fez ficar tipo “Siiim, é isto!” quando os ouvi, sabes? Simplesmente incríveis.

No último disco, a forma como os samples são usados e a forma como a música acaba a soar lembra-me muito das técnicas usadas pelo Kevin Shields no estúdio, a forma como ele trabalha intensivamente para fazer tudo colar de uma forma completamente etérea, mas ao mesmo tempo brutal e in your face. Acho que fazem um ótimo trabalho em incorporar isso sem ser um rip-off…
Obrigado. Sabes, é engraçado que sempre nos acusaram de samplar os My Bloody Valentine – Eu nunca samplei os MBV e nunca o irei fazer, há certos discos dos quais me parece errado tirar seja o que for tirando inspiração…não há necessidade de o fazer sequer, descobrimos uma forma de chegar onde queremos sem samplar nada, só criando as nossas próprias coisas.
Já mencionaste que a música contemporânea é muito interessante para ti. E como vês o hip hop contemporâneo?
Bem, acho que há muito hip hop contemporâneo que é inacreditável, apesar da minha definição de hip hop contemporâneo poder ser diferente da tua. As coisas que passam na radio para mim não são hip hop sabes, é pop. Eu até prefiro quando lhe chamam coisas como trap, mais vale que seja a sua própria cena, porque tem muito pouco a ver com a cultura do hip hop. É a sua própria cena e isso não tem mal nenhum. Acho que também há uma certa parte disso que é geracional, sinto que muitas das coisas mais recentes são para pessoal mais novo, sabes. Não é para mim – eu tenho 44 anos, as coisas não são escritas para mim nem deviam ser. E não há nada de errado com isso, não estou a falar mal dessa música, acho que a música pode existir por diferentes razões e isso é perfeitamente ok, mas chamar algo de hip hop….
Acho que há hip hop novo que é incrível, se ouvires o Roc Marciano, já falei do Ka, se ouvires Crimeapple, Brown13, há tanta coisa contemporânea a sair, ainda existe aquele hip hop grimy que eu adoro, há letristas fantásticos agora, há tanta coisa boa a acontecer…Não sei, eu tenho 44 mas odeio quando pessoas da minha idade começam a dizer que “Não há música boa hoje em dia”. Nah, tu é que paraste de ouvir, porque há sempre música boa, é só questão de ir procurá-la. Claro que também há imenso lixo, mas sempre foi assim….
Então fora do hip hop, que outra música contemporânea é que te tem excitado ultimamente?
Estou a tentar pensar, porque às vezes fico num daqueles moods em que ouço montes de cenas antigas…Há meses em que só ouço The Cure ou Joy Division (risos)…Tenho estado numa onda dessas ultimamente…
Adorei os últimos dois discos da Solange, achei que eram discos mesmo incríveis, falando de…suponho que lhe chamarias R&B contemporâneo, mas eu gosto só do que ela tem feito em geral, uma construção musical e letras mesmo boas, é experimental de certa forma, para música pop é bastante fora, o que é fixe…Importas-te que olhe para o meu Spotify para ver o que tenho andado a ouvir? Porque se não tenho uma branca…
Ah, o Sufjan Stevens, tenho ouvido demasiado o Carrie & Lowell, adoro esse disco. O novo dos Tool, já me esquecia disso…a cena louca dos dias de hoje é que há tantos discos a sair, quase um a seguir ao outro a seguir ao outro que é tipo…sobrecarga sensorial (risos). Há muita música boa neste mundo.
Há esta banda chamada Belong, não sei se os conheces, são meio shoegazy…Black Marble, ando obcecado com esse gajo, as cenas deles são incríveis. Falando de hip hop, o meu mano House Shoes e a label dele, Street Corner Music, ele tem lançado uns três ou quatro álbuns por ano, e tudo o que ele tem lançado é incrivelmente bom. É principalmente hip hop instrumental, mas há coisas incríveis lá.
Hmm…Iron & Wine…Midnight Owl…
Não pareces restringir-te de todo na música que ouves, quer seja mais ou menos pesada…
Nah meu, eu só gosto de música, se for boa é boa…Ah, os Space Echo são outros. Os Suuns…também são fantásticos…Ya, há montes de coisas.
Voltando aos clássicos de que falaste, qual foi o primeiro disco ou música de hip hop que te fez pensar fora da caixa, e ver as possibilidades do hip hop e da música em geral?
Provavelmente os Ultramagnetic MCs, porque foram os primeiros a ter uma produção mais fora. Acho que o Premier…é enganador, porque ouves a produção dele e ele faz-te achar que é simples, mas depois reparas que ele escolheu as peças mais simples que encaixam perfeitamente juntas, e isso é muito difícil de fazer…sinto que se tentares fazer um beat do Premier vais falhar, ele tem um ouvido para o que funciona, e apesar de ser muito minimal é surpreendentemente complexo a nível de estrutura, e acho que há algo de lindo nisso. É como se ele fosse completamente o nosso oposto, nós fazemos coisas em camadas densas, mas tenho tanto respeito pelo que ele faz no lado mais minimal do hip hop…é estranho, ele é o nosso oposto, mas mesmo assim é uma influencia, eu estudo o que ele faz porque para mim é lindo, é fantástico.
E claro, os Bomb Squad, a produção deles…a noção de layering no hip hop vem da Bomb Squad, se ouvires o “It Takes a Nation of Millions” ou o “Fear of a Black Planet”…
Sim, os Public Enemy estavam muito a frente…
Os Shocklees, a Bomb Squad em geral estava noutro planeta, mesmo, eram incríveis.

Falando sobre o vosso último disco [Endangered Philosophies], que filosofias é que vês em perigo hoje em dia?
Sabes, honestamente…sinto que qualquer tipo de pensamento está em perigo hoje em dia (risos). Nem sequer estava a tentar ir muito fundo no que toca a coisas especificas…sinto que o intelecto em geral está em perigo atualmente, todo o clima actual da sociedade faz parecer que se tiveres algum tipo de inteligência és uma espécie em vias de extinção…pelo menos é como me sinto agora.
O que é que achas que o vosso próximo disco vai abordar, isso é algo que tenhas considerado?
Não sei meu, é uma boa pergunta. Temos este concerto, depois um festival em Minneapolis, talvez alguns concertos no México, mas depois vamos voltar ao estúdio para montar o próximo disco a sério. Temos algumas peças em que temos trabalhado, mas quando trabalho num álbum gosto de o fazer como um todo, tentar ver como todas as peças encaixam e em que direção vamos, e o que vamos fazer a seguir. Para ser honesto contigo ainda não sei, não tenho a certeza…porque sempre tentei que os nossos discos fossem actuais mas sem estarem presos ao tempo deles, sabes, quero que seja sobre o agora mas não quero que se consiga logo dizer “Ah, este disco é desta altura”. É uma linha ténue em que quero tocar no que está a acontecer agora, não só no mundo mas também na minha vida, mas também pô-lo num contexto em que seja mais universal, intemporal, por isso não sei, não tenho bem a certeza para onde vou. Tenho algumas ideias, mas ainda tenho que as trabalhar. Sei que não vai ser um disco muito feliz…(risos)
Parece que as pessoas mais infelizes são de certa forma as menos loucas neste momento. Claro que é uma generalização estranha de ser fazer, mas parece que tanto do que é considerado lógico está completamente invertido hoje em dia…
Vivemos numa época interessante, é a melhor forma de pôr a coisa…Não sei, acho que não tenho nenhumas respostas, não sei para onde isto vai. Mas posso dizer que sou uma pessoa muito curiosa, por isso quero ver onde isto vai dar, seja bom ou mau. Não estou 100% convencido de nenhuma das direções, não acho que seja necessariamente tudo terrível…mas não sei, vamos ver o que acontece (risos).
Uma última pergunta já que falaste dos Cure, qual é o teu disco favorito deles? O que é que achas-
Fascination Street…Boys Don’t Cry…um desses dois. Quer dizer, adoro os hits todos deles, claro, mas o Fascination Street é um discaço.
Eles são outra daquelas bandas que parecem nunca se deixar prender por nenhum género…
Não, eles só seguiam em frente, é fantástico…qual era a música? Aquela dos dias, tu sabes do que estou a falar.
“In Between Days.”
Ya, essa música soa tão feliz, e eu fico tipo “Yo, isto não é nada The Cure”, e no entanto é totalmente The Cure, sabes? É incrível que a música vá totalmente contra tudo o que eles normalmente fazem e no entanto continua a soar a eles, e mesmo sendo uma música feliz acaba por soar meio melancólica…o que é fantástico, sabes?
Sim, as letras disso são qualquer coisa tipo “Ontem senti-me tão velho, senti que queria morrer”.
(risos)
Aquilo que se costuma dizer sobre os The Fall é meio redutor mas ao mesmo tempo é muito verdade e aplica-se a várias bandas: “Sempre diferentes, sempre iguais”. E pessoalmente acho que é o pico da criatividade artística quando fazes algo que faz com que as pessoas pensem “Yep, isto é deles”, como os The Cure e vocês conseguem fazer.
Fogo meu, quando me pões na mesma frase que os Cure e os Fall…obrigado! Nem sei se merecemos ser mencionados em conjunto, mas agradeço, porque isso são pesos pesados, mesmo. Mas sim, tudo o que tentamos fazer é a melhor música possível. É engraçado, ontem – esta é a primeira vez que estamos em Portugal nos últimos 10, 12 anos, qualquer coisa assim – e um puto veio ter connosco ontem dizer “Hey, já estou à espera há 12 anos para vos ver, não estava a espera que ainda tivessem essa energia toda”, e eu respondi-lhe “Pois, nem eu…” (risos).
Mas ainda tenho, ainda tenho essa fome e adoro todos os concertos, adoro actuar, fazer esta música, e o dia em que eu não goste disto é o dia em que deixo de o fazer, é a minha promessa, e o dia em que sinta que um disco não é bom o suficiente não o lanço, não o vou fazer só por fazer. Sei que já fazemos isto há muito tempo, especialmente o que eu e o Oktopus construímos juntos…antes da nossa pausa, quando voltei, disse-lhe “Hey, não vou lançar lixo, não vou fazer nada que deturpe o que fizemos no passado”. Sinto que a minha missão é pelo menos tentar fazer mais e melhor, e se conseguir continuar fazê-lo, vou fazê-lo. Como disse, desde que esteja a sentir-me bem em palco e feliz com o que estou a fazer…porque isto é o que eu conheço, não conheço outra vida, vou estar cá enquanto me quiserem por cá, sabes? Mesmo a sério.
Muito obrigado.