PARTICULAR UNIVERSAL: Vaiapraia em residência em Castro Marim

Rodrigo Vaiapraia é o próximo artista em residência no Concelho de Castro Marim, ao abrigo do projecto Particular Universal. 

Criador transdisciplinar e autodidata, lidera desde 2014 os Vaiapraia, banda maior do rock independente em Portugal, herdeiros directos e assumidos dos movimentos punk/riot-grrrl/queercore, aclamados em igual medida por Público, Blitz ou Time Out, por exemplo, com o álbum “100% carisma”, de 2020, como marco no rock português de qualquer época.

Entre os dias 6 e 13 de Maio, Rodrigo, juntamente com Ana Farinha, Daniel Fonseca e Beatriz Diniz, estará pela Quinta da Fornalha a trabalhar sobre várias ideias embrionárias colecionadas ao longo dos últimos dois anos, procurando “encontrar coletivamente a atenção, crescimento e reformulação que cada melodia pede”.

No dia 14, pelas 19h, no Anfiteatro ao ar livre do Revelim de Santo António, teremos a oportunidade, talvez, de conhecer pela primeira vez (ao lado de algumas das mais enérgicas e profundas canções de produção nacional dos últimos largos anos), as novas direcções de Vaiapraia. O concerto é de entrada livre.

Esta é a segunda residência com curadoria da Filho Único, parceira do projeto Particular Universal.

Entrevista a Sarnadas (OUT.FEST 2021 (II))

João Sarnadas, tcp Coelho Radioactivo, foi o responsável pela abertura do último dia do segundo momento do OUT.FEST 2021, com a apresentação de uma experiência de escuta profunda de música intimamente ligada à do seu trabalho de estreia em nome próprio, dois discos duplos de seu nome “The Hum”. Na SDUB “Os Franceses” pudemos ouvir duas horas de improviso electrónico rico em harmonias e texturas nas condições perfeitas para tal: deitados, de olhos fechados, a absorver o som.

Tivemos também a oportunidade de falar com o artista antes e depois do concerto, e é o resultado compilado dessas entrevistas que vos apresentamos abaixo.

Entrevista por Tiago Franco. Fotos de Nuno Bernardo e Pedro Roque (a preto e branco).

 

 

Qual foi o teu primeiro contacto com música de longa duração minimal deste género?

Oláolá. Sempre gostei muito de músicas demoradas, não necessariamente em termos de duração da música mas mais no que toca à sua composição e também à utilização de sons mais contínuos. Nem que seja pelo simples facto de muitas vezes haver algum drama associado a músicas longas desse modo e esse drama ser algo com que eu me relaciono facilmente. Assim de repente os meus primeiros contactos com música de longa duração minimal, diria que aconteceram com artistas não muito duracionais ou minimais, as primeiras músicas que me lembro são a “Back to Schinzo” do Pascal Comelade e a “Stranger Intro” do Bill Frisell (Introdução para um disco da Marianne Faithfull) que eram músicas que ouvia bastante quando era miudo. O Pascal é um dos meus músicos preferidos de sempre, e felizmente tem discos que cheguem para se ouvir sempre coisas novas, só há coisa de uns 5 anos é que descobri os primeiros discos mais experimentais dele. A Stranger Intro é um loop de 30 segundos que eu ouvia em repeat, e que decidi fazer uma versão para este disco, se bem que quando a fiz não sabia necessariamente que ia fazer parte de um disco, só a quis experimentar tocar para ouvir o que poderia ser uma versão com mais de 30 segundos, acabou por ser a D1 M Bombarda Transmission. A nível de coisas mais intelectuais, acho que assim o primeiro músico minimal de longa duração em que colei foi o La Monte Young, depois possivelmente o concerto do Terry Riley com o Don Cherry em Köln. Mas não sei se foram essas as minhas inspirações para fazer este disco, até porque a longa duração foi mais um efeito da maneira como eu toco do que um ponto de partida, obviamente que são artistas de quem gosto portanto acabaram por influenciar as minhas melodias e o meu pensamento mas acho que a música acaba por ser um resultado de um número de influencias muito mais abrangente.

 

 

Podias falar um pouco sobre o equipamento que usaste neste álbum? Foi construído pela Inês Castanheira, que gere um workshop de sintetizadores DIY. Foi uma comissão ou foi-te entregue a ti com os 3 osciladores?

Sim, o instrumento que utilizei neste álbum, e que uso agora ao vivo, é um sintetizador simples com 3 osciladores e 3 switches de on/off feito pela Inês Castanheira. Felizmente tenho a sorte de partilhar não só a minha vida como casa com a Inês, o que faz com que tenha facilmente acesso às cenas que ela constrói, este em particular foi um dos primeiros que ela construiu, porque estava na altura a explorar o campo da construção de sintetizadores, e é assim simples precisamente por esse motivo. Começámos a usar este synth e outro num projecto que temos os dois chamado Well, e eventualmente comecei também a usa-lo em peças colectivas da Favela Discos como por exemplo a peça Desilusão Óptica. Foi um bocado com esse background que fui desenvolvendo a abordagem ao material que tenho neste disco, à base do uso deste sintetizador, da mesa de mistura, de loops e outros pedais de efeito.

 

 Gravaste o disco em 2 dias, o que resultou em 8 horas de gravações, em que demoraste 3 anos a reduzir a 2 discos de 2 horas cada. Que métodos de condensação usaste e que desafios encontraste no cutting room?

Bem, na altura quando fiz essa sessão de gravação não estava já com ideia de fazer necessariamente um disco. Como disse em cima, simplesmente sentia que tinha chegado a uma maneira de tocar diferente do que fazia por exemplo com Coelho Radioactivo, e que queria gravar alguma coisa com essa “linguagem”. Na verdade sinto que o The Hum até acaba por ter algumas coisas de Coelho, creio que as melodias acabam por ter algo a ver com esse universo, assim como a utilização de loops que era uma coisa que fazia bastante ao vivo e quando tocava sozinho em casa. Na altura tinha ficado com a mesa do Nuno Loureiro em minha casa porque a tinha usado num concerto de Desilusão Óptica e aproveitei para fazer esses dois dias de gravações, que como disseste resultaram em 8 horas. Na verdade até foi mais de 8 horas, foram cerca de 11 horas, mas eu não costumo contar essas 3 horas extra porque não estavam fixes à partida. Basicamente o grande desafio foi perceber o que é que tinha em mãos, que creio que se dividia em dois problemas,  primeiro o de reduzir as músicas de maneira a que tivessem uma duração minimamente aceitável para que fossem mais fáceis de perceber como uma música, e o segundo de perceber o que é que eram aquelas músicas, se eram três discos… se era um… se eram dois… Qual era o percurso / ordem que fazia sentido… Quais eram os modos das músicas etc… Eventualmente consegui simplificar a coisa em dois discos, um mais drone, outro mais ambient, ou um mais atonal, outro mais melódico, ou um mais nocturno outro mais diurno, mas ao longo desses três anos fui agrupando as músicas com conceitos bastante diferentes, que provavelmente não são tão claros mas que me ajudaram a perceber o que eram estas músicas.

 

 

Li algures que foste informado pela ‘harmonia única de cada cidade que viveste’, podias falar um bocado sobre isso? Vês algum cruzamento entre a tua música e a arquitectura?

Isso na verdade, apesar de ser inspirado em coisas que eu sinto em relação ao disco, ao processo e ao que eu andava a pensar na altura em que fiz o disco, é um bocado Mumbo-Jumbo de Press. Fico sempre um pouco na dúvida entre conceptualizar ou não a música que faço, normalmente não crio coisas previamente definidas por um conceito, a única coisa que me interessa na altura da gravação é a minha intuição, e se estou a gostar da música que estou a fazer. No entanto por outro lado, o pensamento do som é uma coisa que me interessa, e que acabo por fazer no meu dia a dia por vários motivos, seja simplesmente por ler coisas sobre música e som, seja por comunicar sobre o que faço a solo ou colectivamente com as pessoas com quem trabalho no dia a dia, como por exemplo com o resto da malta da Favela Discos quando desenvolvemos peças colectivas: obviamente que precisamos de verbalizar sobre o que queremos fazer, e eventualmente queiras conceptualizar ou não o que fazes acabas sempre por ter alguns pensamentos sobre o que é aquilo que estás a fazer. Nesse sentido uma coisa que me interessa, por exemplo, é a relação entre a ambiguidade e a audição profunda. Da mesma maneira que com uma audição profunda consegues descobrir melodias, ritmos, tons, etc na paisagem sonora de uma cidade, também consegues ir percebendo novas camadas sonoras no tipo de música que eu faço, por entre as melodias mais óbvias consegues perceber outras melodias, assim como as consegues distinguir no meio da massa sonora e do ruído. Nesse sentido acho que a relação com a paisagem sonora da cidade acaba por ser essa, a de descobrir alguma lógica musical no meio da massa sonora a que estamos expostos, entre carros, ventoinhas e turbinas, aquelas cenas barulhentas de ar condicionado, e todas as coisas que fazem o chão sonoro que por vezes nem nos apercebemos que está lá.

 

O fenómeno global do ’The Hum’, com relatos de pessoas quase perseguidas por frequências ultra baixas em zonas residenciais ou industriais, é considerado um som desagradável, que causa insónias e dores de cabeça. São os últimos efeitos que iria descrever ao ouvir o teu disco. O disco tenta redimir este tipo de som e pô-lo num contexto diferente?

Bem, em primeiro lugar obrigado pelo elogio. Agora, em relação ao fenómeno do The Hum, creio que ele é desagradável também porque é um som intruso, indesejado e permanente, mas não sei se num concerto de música experimental esse som não seria aceitável (risos). A minha ideia não é bem redimir o fenómeno, simplesmente acho que adoptei o nome assim como um termo mais abrangente, como disse em cima acho que o meu The Hum fala mais do som das cidades que não nós é perceptível imediatamente. O fenómeno do The Hum também não é audível por todas as pessoas, aparentemente parece haver pessoas que são mais sensíveis a esses “Hums” e outras que não são tanto. Ou seja não me interessou falar de um som violento que persegue as pessoas mas simplesmente de um som que só ouvimos quando despertamos para a sua existência ou algo assim. Interessa-me a ideia, mas não me interessa tanto a text-book definition do conceito, e como em relação à música, dos principais motivos pelo qual escolhi o nome foi por intuição, gostei da mística da ideia e pareceu-me um nome fixe. Para além disso também aproveitei este tema e título para uma banda desenhada, que foi editada pel’ O Panda Gordo em 2016 ou 2017, e na altura achei que seria fixe ligar as duas coisas por trabalharem um pouco a mesma ideia de maneiras muito diferentes.

 

 

Como achas que o disco e a música muda quando tocas ao vivo? Fizeste alguns ajustes para o concerto do OUT.FEST?

Bem eu na verdade não estou mesmo a tocar as músicas do disco, o que eu estou a fazer é utilizar os mesmos meios e técnicas para criar novas músicas. O disco foi criado em improvisação, que é o que faço ao vivo, sendo que ultimamente já tenho levado alguns loops iniciais gravados para não ser tão boring. Durante os ensaios ainda tentei replicar algumas das músicas dos discos, mas não gostei do resultado, por estar muito preocupado em tentar fazer que a música soasse igual ao disco acabava por fazer uma cópia foleira da música do disco, que nem soava 100% igual ao disco, nem era uma música tão interessante como as do disco. Portanto achei melhor simplesmente usar as técnicas que usei no disco para criar algo novo, que não é o que está no disco mas que de certa maneira faz parte daquilo que é o disco.  Para o OUT.FEST a única coisa que fiz de especial foi escolher uma série de loops à partida para usar, mas a preparação do concerto foi toda muito caótica porque foi a primeira vez que usei a cenografia e foi assim tudo mesmo em cima da hora. Acho que assim o maior ajuste que fiz para o concerto foi mesmo a existência da cenografia da “cidade” ou como lhe quiserem chamar, era algo que eu já queria fazer desde o início e que ainda não tinha feito, e fiquei bastante contente com o resultado.

 

Ainda o OUT.FEST

Já passaram quase dois meses, e estamos já nesta fase totalmente focados no OUT.FEST 2022 – 18ª edição do festival que está, portanto, prestes a entrar na maioridade -, mas lançámos esta semana um mini-documentário que recorda o que foi a segunda metade da edição de 2021 realizada em Outubro.

Com realização do Mário Jerónimo Negrão a partir de entrevistas, imagens e sons recolhidos pela equipa do festival e diversos colaboradores e amigos – a quem agradecemos -, é uma forma de celebrar e relembrar seis dias de escuta intensa, de reencontros muito aguardados e de novas e duradouras descobertas.

Podem encontrá-lo aqui.

Entretanto, o ano aproxima-se do fim mas ainda chegarão muitas e boas propostas do nosso lado – fiquem atentos às novidades no início da semana.

Entrevista a Vasco Alves (OUT.FEST 2021)

Na semana anterior ao momento de Outubro do OUT.FEST 2021, tivemos a oportunidade de conversar com Vasco Alves – gaiteiro de bancada d’Os Belenenses, membro de VA AA LR e investigador heróico da materialidade do som e da natureza dos fenómenos acústicos, que tem tido um percurso discreto mas sempre fascinante recorrendo a várias fontes e metodologias que passam pelo uso de rádios quitados, gravadores de fita, processamento de sinal, técnicas de síntese e – em tempos mais ou menos recentes – a gaita de foles.

 

 

Podes falar-me um pouco sobre o teu percurso com a gaita de fole? Como é que começaste a tocar e como é que a tua relação com o instrumento se desenvolveu ao longo do tempo?

Comecei a aprender a gaita de fole em 2014 no Centro Galego de Lisboa, e nos primeiros anos tive uma aprendizagem tradicional, mas sempre tive a vontade de usar o instrumento de uma forma talvez menos convencional, mais exploratória, mais próxima dos temas que me interessam, e isso foi algo que eu só consegui começar a fazer alguns anos após ter começado a tocar. Acho que foi há cerca de três anos e tal, talvez em 2018: comecei a preparar algumas peças que apesar de também incluírem algum material electrónico, trabalham fenômenos acústicos e a psicoacústica acima de tudo. Tento explorar sempre algum tipo de efeito nesse campo.

E o que é que te levou especificamente a este instrumento? Porque em 2014 já fazias música, certo?

Sim, já tocava há bastante tempo…eu tive duas experiências que foram algo surpreendentes, tanto que quando ocorreram eu nem pensava que fosse um dia aprender um instrumento. Uma foi um concerto do Paul Dunmall em Londres – ele está mais associado até ao jazz e ao improv como saxofonista, mas tem uma coleção pessoal de gaitas de fole de todo o mundo. Eu e um amigo convidamo-lo para um concerto que estávamos a organizar quando eu vivia lá, e ele teve uma actuação onde tocou com várias gaitas de fole ao longo da performance, e houve ali momentos incríveis, que eu não esperava, mesmo a nível material do som…quando a gaita era amplificada, se fechasses os olhos imaginavas que era um concerto de laptop, de música de computador…bem, havia elementos bastante surpreendentes, e depois quando voltei para Portugal, em 2014, acabei por ver um ou dois concertos em que o instrumento também era utilizado, já fora deste contexto, mas na altura decidi ir aprendê-lo, de uma forma um bocado espontânea. E pronto, gostei e continuei e neste momento é possivelmente o instrumento com que estou a trabalhar mais, apesar de também explorar temáticas parecidas às da gaita quando trabalho com electrónica.

Continuando nesse tópico, quando é que ganhaste o interesse em música eletroacústica? Houve algum momento específico no qual encontraste essa música e achaste que era por aí que ia seguir o teu percurso musical?

Não sei se consigo definir um momento em particular, penso que provavelmente também terá muito a ver com as coisas que fui ouvindo na adolescência, e que me levaram a ter algum interesse em explorar, e em seguir pelo lado mais exploratório da música, ou menos convencional, por assim dizer. Também nos anos da universidade, se não me engano, aprendi a fazer uns microfones de contacto e outras pequenas coisas (acho que até as primeiras gravações que fiz foi com esse material, ainda de uma forma muito naïve e muito intuitiva), e pronto, as coisas foram acontecendo, fui continuando a interessar-me também pela construção de instrumentos, pela exploração de materiais, e a coisa foi evoluindo por aí. Obviamente que as coisas em que estou interessado hoje em dia não são necessariamente as que estava interessado na altura, mas tem sido uma evolução, tem passado por várias fases, mas penso que há algo que as une.

Qual era então a música que ouvias na adolescência, que te levou para esses lados?

Bem… assim numa fase muito inicial da adolescência ouvia imenso Sonic Youth (e toda a cena musical em que se inseriam), possivelmente foi assim uma das primeiras vezes que vi instrumentos a serem utilizados de forma menos convencional. E agora voltando à pergunta de há bocado, realmente houve uma altura, quando descobri o trabalho do Christian Marclay, em que vi uma exposição dele e depois cheguei a ver alguns concertos e a ouvir algumas gravações, e penso que isso foi um momento que me marcou de alguma forma, também pela utilização do material que ele fazia, e pelo próprio som que era gerado pelas coisas que ele construía, os processos que ele explorava e que as peças dele tinham, foram tudo coisas que na altura me influenciaram bastante. Pouco depois descubro o Alvin Lucier, grande mestre. Há muitas outras coisas que também me têm vindo a influenciar, como o trabalho do Rafael Toral, o do Sei Miguel… Mas pronto, depois torna-se difícil enumerar influências especificas, tem sido muitas as coisas que me têm influenciado.

A relação que eu vejo entre todos esses músicos passa um bocado pelo que o Eddie Prévost diz e tenta ensinar, que é a ver um instrumento como algo para tocar “fora da caixa”, que é preciso ser um bocado exploratório e improvisador com os instrumentos. No teu website vi o rádio que tu tocaste, e pareceu-me familiar – estavas no workshop do Eddie Prévost [no OUT.FEST 2015]?

Sim, eu também costumava levar esse rádio para as workshops que ele organizava em Londres, que eram um encontro semanal de improvisação – todas as sextas-feiras à noite na cave de uma igreja, em que toda a gente podia aparecer e juntar-se, e durante uns dois anos eu ia lá com regularidade, e foi por isso que eu participei também no workshop no Barreiro, que vocês organizaram.

E o que é que essas workshops te ensinaram? Como é que te ajudaram a desenvolver o teu trabalho?

Acho que essas workshops na altura tiveram bastante impacto em mim, mas eu hoje em dia não me sinto assim tão próximo ou tão interessado naquilo que a improvisação livre é, que é basicamente naquilo em que o Eddie Prévost se foca. Os workshops na altura foram uma coisa incrível, não só a nível pessoal como a nível social, havia uma dinâmica que para mim era uma novidade e era bastante entusiasmante, a forma como as workshops decorriam e como as pessoas iam tocando… havia pequenas regras, mas havia muita abertura e muita fluidez e nunca ninguém dizia o que devias ou não fazer, e isso durante um tempo fascinou-me bastante. Entretanto acho que foi perdendo um pouco…não sei se me tornei menos naïve em relação a essa ideia, se me fui simplesmente interessando talvez mais por outros lados, por outras coisas…no entanto, também experienciei momentos incríveis lá, de músicos mesmo muito bons, e acho que a certa altura, na fase final do tempo em que frequentei essas workshops, ia lá mais para ver uma ou duas pessoas (o Seymour Wright por exemplo) cujo trabalho me interessava e fascinava, e os 5 ou 10 minutos que os ouvia a tocar valiam as horas que estava por lá…

 

 

Dizias-me então que os teus interesses começaram a mudar – consegues dizer qual é a parte da música que te interessa mais neste momento?

Bem, em relação à improvisação livre: eu penso que não é esse o ponto central do que me interessa mais hoje em dia. O meu trabalho, quer electrónico quer acústico sempre envolveu, materialmente, muita volatilidade e por isso a improvisação continua a ser algo muito importante para mim, mas gosto de trabalhar sobre alguns temas, sejam eles coisas que na realidade tenham vindo do trabalho com algum instrumento (no sentido mais lato), da “vida” que essa volatilidade e instabilidade possam gerar, mas também temas espaciais, da ligação do instrumento com o espaço, e tentar de alguma forma criar trabalho que se encaixe neste contexto. A improvisação é obviamente algo que está sempre presente, por que eu tenho estruturas, mas não tenho definido exactamente aquilo que vou fazer, há espaço para eu poder reagir às coisas da forma que me pareça mais acertada no momento. A própria gaita de fole, sendo um instrumento tão bruto, tão primitivo de certa forma, e se calhar as próprias limitações do instrumento, penso que são uma boa ferramenta para explorar este tipo de ideias, porque de certa forma eu acho que essa simplicidade e crueza depois permitem que também as outras coisas tenham alguma proeminência, e alguma importância, que sejam ouvidas e que sejam perceptíveis, e a gaita acaba por ser um pouco o trigger para esses eventos….

Isso leva-me a outra pergunta – eu noto na tua música, especialmente o teu trabalho mais recente, que há uma certa dualidade, entre o folclore, coisas bastante primordiais, com um ângulo mais tecnológico e mais maquinal. Não sei se é algo com que concordes…

Não é certamente algo intencional. As ferramentas que uso tendem muitas vezes a definir aquilo que eu faço. Apareceu-me a gaita de foles, e também outro tipo de coisas que tenho usado, e a perspectiva é mais do género, “Com este instrumento o que posso fazer, o que é que o instrumento me dá, como é que o consigo aplicar no que me interessa fazer sonoramente?” No concerto que vou apresentar no OUT.FEST o computador está a gerar simplesmente uma frequência, uma onda dente-de-serra (sawtooth) e tem um som muito parecido ao da gaita de fole, acaba por ser quase um segundo tocador, que depois gera o tal confronto de frequências…é um pouco difícil de definir, mas como já referi interessa-me a exploração de instabilidades no processo e nos mecanismos que vou construindo, eu tento fazer também um pouco isso na gaita de foles. Mas como disse não é uma decisão consciente, gosto de trabalhar com a crueza, interessa-me alguma secura nas coisas, nos materiais, e pronto, a partir daí parto para a construção musical, para desenvolver o trabalho que faço, mas na realidade para mim são tudo coisas que se encaixam mentalmente no mesmo sítio: estar a usar a gaita de foles ou o sintetizador ou um circuito construído ou um rádio, a finalidade para mim é a mesma, não há nenhum conceito por detrás disso.

Usas mesmo os instrumentos porque gostas do som…

Sim, e porque me interessa a própria crueza e a brutalidade de coisas como o ruído branco, do som da gaita de foles, que também é algo bastante simples, interesso-me a simplicidade no trabalho electrónico, mesmo muito… digamos que a ideia de economia, de fazer muito com pouco é algo que me interessa bastante e que eu tento ao máximo procurar nos processos e nas coisas que crio.

Queria perguntar-te sobre o trabalho que vais apresentar no OUT.FEST, o “Gaita Contra Computador”, que é um título que traz uma ideia de oposição, de combate quase…Tu mencionaste que há um tom do computador que é muito parecido com o da gaita de fole, podes falar-nos um pouco mais sobre esse trabalho?

O “Gaita Contra Computador” é o título de um CD que eu editei no ano passado, e sim, o trabalho assenta na criação de algumas peças que são relativamente curtas, algumas das quais influenciaram o nome do disco e envolvem a gaita usada sem amplificação num espaço, enquanto que o computador está a gerar uma frequência programada por mim que gera tons que se assemelham muito ao tom da gaita, e a ideia é que quando as frequências se cruzam no espaço criam-se determinados efeitos acústicos (batimentos, por exemplo)…A minha intenção é dar a ideia de que há um novo som a certa altura, a união entre os dois sons na qual a dado ponto deixas de conseguir perceber o que é o quê… Mas fundamentalmente interessa-me saber como os sons se cruzam no espaço, é como se tivesse basicamente uma outra pessoa ali a tocar comigo, mas quando exploras frequências muito, muito próximas e te moves no espaço, há pequenos efeitos que se geram, neste caso no espaço acústico, na sala do concerto.

Depois também vou possivelmente apresentar algumas peças acústicas, sem a utilização do computador, em que exploro a gaita de fole, os seus limites físicos, tento puxar assim a palheta para registos de som que não são propriamente os registos aos quais é suposto o instrumento chegar, à procura de falhas, e a explorar essas falhas e essa instabilidade. Depois há outra peça que envolve acrescentar um tubo à gaita de foles e apontar essa frequência para uns jarros que vão estar no chão, e explorar a frequência de ressonância dos jarros – quando aproximas o som da gaita dos jarros há uma nova frequência que surge, e é uma peça focada nessa interação…e é à volta destas ideias que vai ser o meu concerto – são peças que se assemelham de alguma forma ao que está no disco mas que estão em constante evolução, cada vez que as apresento ou ensaio elas vão sofrendo ajustes e vão mudando ao longo do tempo.

 

 

Até porque o próprio espaço influencia a forma como as peças soam – lembro-me por exemplo de termos tido por cá o Erwan Keravec, que estava muito satisfeito com a reverberação e amplificação natural da igreja na qual tocou…Como tem sido a tua experiência a tocar em diferentes espaços, também sentes que tem um grande impacto na forma como tocas?

Claro, tem sempre bastante, não só nas peças acústicas mas também naquelas em que uso o computador… a ressonância do espaço é algo que favorece um pouco as peças, digo eu, um espaço muito seco possivelmente não funcionaria tão bem…possivelmente teria que pensar noutras coisas, mas sim, a acústica do espaço é algo bastante importante, que eu tenho que ter em conta sempre que estou a tocar, e neste caso já fui à biblioteca [Municipal do Barreiro] ver e experimentar tocar lá e isso acaba por informar um pouco aquilo que vou apresentar…

Estavas a falar há pouco de intensidade, e como isso te interessa muito. Eu queria perguntar-te sobre o “Estrada Longa” – eu estive a ouvi-lo há alguns dias e senti que tivesse algo próximo do motorik, não tanto na vertente rítmica do krautrock, mas como uma certa propulsão e transe, não de forma intensa mas a transmitir movimento, a deslocação de bicicleta…Que foi o que inspirou o “Estrada Longa”, a tua viagem de na N2 de bicicleta no meio da pandemia, certo? Podias falar um pouco sobre a tua viagem, e como isso influenciou o disco?

Sim, foi isso. Eu fiz a viagem sozinho de bicicleta, e quando o fiz não tinha planeado criar nada a partir daí, simplesmente comecei a andar e a ver imensos nomes de terras aos quais achava piada, e decidi no primeiro dia começar a gravar o nome dos sítios por onde ia passando. Quase todos, aqueles que me ia lembrando, mas também não fazia isso constantemente: primeiro passava uns quantos, gravava no telemóvel, depois ia andando e gravava outros, e cheguei ao final da viagem e tinha quase 150 nomes de terras, de Trás-os-Montes ao Algarve.

Na altura passei algum tempo a pensar como é que iria usar aquele material. As gravações foram feitas no telemóvel e muitas vezes a pedalar, e apesar de achar que tinham algum interesse não consegui propriamente encaixá-las, e pronto, achei que só com o material cru não teria tanto interesse (apesar de também me interessar esse aspecto). O que acabei por fazer foi pegar num par de sintetizadores que tinha em casa e que costumo usar, que basicamente permitem criar uma espécie de padrões com imensa instabilidade e volatilidade envolvida na forma como os sintetizadores estão ligados, há um aspecto cíclico da coisa, mas não linear de alguma forma, e eu pensei que se calhar as duas coisas se pudessem unir, e então criei outros padrões, para cada dia de viagem, e regravei os nomes das terras por onde passei a cada dia.

E foi assim que surgiu o disco – foi como falaste, há aquele aspecto cíclico dos sintetizadores, e procurei também passar alguma monotonia, interessou-me essa ideia dos dias longos, das estradas que nunca mais acabam, mas ao mesmo tempo estão em constante mutação…mas pronto, foi uma peça que surgiu e que teve aquele resultado final, o tal disco. Não sei bem se faz sentido dar-lhe seguimento ou não, mas esse trabalho ficou concluído ali, naquela peça, que às vezes penso que podia ter sido bastante mais longa: em vez de ter 50 minutos devia ter 4 horas, mas ficou assim…

 

 

A última pergunta se calhar é um bocadinho parva, mas: como é que foste tornar-te gaiteiro dos Belenenses?

(risos) A minha ligação ao Belenenses é familiar, o meu avô e bisavô eram ali de Belém, sou sócio desde que nasci, etc…O clube desceu para a última divisão recentemente, por causa dos conflitos com a B-SAD, e no primeiro jogo da sexta divisão eu decidi levar a gaita. Já tinha falado com alguns amigos que estavam ligados à claque, e comecei a tocar o hino do clube, começou toda a gente a cantar no estádio, e ao fim do dia já estavam vídeos no YouTube a ligar aquele momento a uma antiga tradição dos anos vinte, os quinze minutos à Belenenses – supostamente o clube naquela época fez uma série de remontadas em jogos muito importantes, onde viravam os jogos nos últimos 15 minutos, incluindo um específico contra o Benfica que ficou muito célebre. E assim durante muitos anos os sócios faziam imenso barulho nos últimos quinze minutos, já ouvi dizer que com apitos e panelas, e alguém fez essa colagem à tradição, por isso agora nos jogos, nos últimos 15 minutos, toco o hino e mais algumas músicas da claque (a Fúria Azul) na gaita de fole, e tornou-se num acontecimento nos jogos. Agora sinto assim aquela responsabilidade à qual não posso falhar, e todos os domingos estou lá com a gaita de fole, já somos dois gaiteiros na verdade…e pronto, a ligação da gaita ao Belenenses é essa.

Isso é muito fixe. Tu próprio não sabias dessa tradição, não é?

Sabia, o meu avô contou-me em criança, mas a tradição não era com a gaita, sabes, antigamente diz que se fazia muito barulho na bancada ou que se tocava um apito três vezes, mas entretanto aquilo morreu completamente, há livros dos anos 60 de gente ligada ao clube que dizia que os jogadores já não sabiam o que eram os 15 minutos à Belenenses…isto nos anos 60, e eu nos anos 90 ainda ouvi alguns apitos, mas era uma coisa praticamente esquecida, e agora voltou a ter algum significado, é engraçado.

Entrevista por Tiago Franco e Diogo Carneiro. Fotos por Pedro Roque (a primeira) e Nuno Bernardo (as restantes).

 

 

 

 

Entrevista a Erwan Keravec

Erwan Keravec é um músico francês (Bretanha), cujo instrumento de eleição é a gaita-de-foles. Com ela, atravessa a tradição e abraça a modernidade e a improvisação, interpretando com regularidade os cancioneiros históricos do instrumento, peças escritas para si por diversos compositores contemporâneos, peças suas para teatro e dança ou improvisando com nomes fortes do jazz europeu. Actuou na Igreja da Nossa Senhora do Rosário no Barreiro em Julho de 2019, e depois do seu soundcheck aproveitamos para lhe fazer uma entrevista que agora partilhamos convosco.

Olá Erwan, podes falar-nos um pouco sobre o teu background enquanto músico e como escolheste a gaita de foles como o “teu” instrumento?

Eu cresci com a música tradicional. Os meus pais dançavam ao estilo tradicional da Bretanha, com música tradicional da Bretanha, e quando eu era uma criança os primeiros instrumentos que ouvi foram a gaita de foles e o bombarde, um tipo de oboé. Aprendi a tocar a gaita de foles no seu contexto tradicional, para marchas e danças. Um dia toquei com uma orquestra em Bern com gaitas de foles, tarolas e bombarde, e encontramo-nos com uma big band de jazz. Foi aí que improvisei com a gaita de foles pela primeira vez, e a partir dai decidi focar-me na música improvisada, apesar de o meu background ser mesmo a música tradicional.

Já experimentaste outros instrumentos da família da gaita de foles, de outras tradições musicais? Como os compararias à “tua” versão?

Há dois anos toquei num trio com duas outras gaitas de foles – uma da Algéria, outra do Irão, e a minha. Ao inicio a minha ideia era que iriamos os três tocar solos, e quando estávamos a ensaiar claro que experimentamos as gaitas de foles dos outros, e não foi muito fácil… (risos). A forma de tocar é diferente, embora o sistema de respiração e sopro seja o mesmo, claro, mas o jogo de dedos é totalmente diferente, por isso não é muito fácil tocar outros tipos de gaita de foles…foco-me na da Bretanha exclusivamente.

Tens estado em tour com o teu trio “Revolutionary Birds” (com o Wassim Halal e o Mounir Troudi). Como surgiu esta colaboração?

Os Revolutionary Birds nasceram de um desafio feito por dois festivais, o Irtijal em Beirute e o La Voix est Libre em Paris, e a ideia que os responsáveis desses festivais tiveram foi misturar música do Irão, do Líbano, da Tunísia de da Bretanha. Apesar de não ter começado como uma ideia nossa, após esses festivais nós os três decidimos pegar no projecto e ir em tour com ele. Para mim isto é diferente do que costumo fazer – quando toco a solo, duo ou trio, etc, as coisas partem sempre de ideias minhas, mas esta foi a primeira vez que toquei em algo que partisse de ideias de outros. Ao inicio fiquei um bocado a pensar: “Ok, que tipo de banda é esta?” Trabalhamos muito com a percussão logo desde o início do processo de composição, por isso a estrutura da nossa música é toda baseada na gaita de foles e na percussão, com as vozes a vir depois. Mas não é o que eu costumo fazer – normalmente pego numa ideia e desenvolvo-a do início ao fim, por isso isto é novo para mim.

Como tem sido recebidas as actuações do trio? Os públicos têm gostado?

Sim, em todos os tipos de contextos, até em festivais de rock. Não tocamos rock, mas também não é world music…não toco musica da Bretanha, só a gaita de foles da Bretanha, e o vocalista, o Mounir, também não canta música Tunisina – ele faz um pouco de Mawwal, que é musica improvisada da Tunísia, mas não são músicas inteiras, é um improviso que faz parte da música. Mas pronto, em festivais de música tradicional e de world music a recepção é boa, e em festivais de música nova também, por isso…é estranho. (risos)

Hoje vais trazer-nos o teu projecto “Urban Pipes” – podes explicar-nos o conceito que está por trás desse projecto?

No início este projecto era apenas de estúdio, e na altura não queria tocar esta música em concerto, queria apenas gravar. Tocar a gaita de foles a solo é a forma tradicional de usar o instrumento, e o que me fez lançar este projecto foi querer fazer música nova para a gaita de foles. Por isso peguei na forma tradicional deste instrumento, e depois anos depois, quando comecei a dar concertos, decidi tocar apenas uma peça e mexer-me muito durante a performance, mudar muito… Após lançar o meu segundo disco eu próprio já tinha mudado muito e composto mais e…o “Urban Pipes” é a minha concepção do que é a música de gaita de foles, o que eu consigo fazer com o instrumento.

Quando iniciei o projecto, queria fazer música sem qualquer referência à música tradicional. É possível a gaita de foles ser o seu próprio instrumento, e não só um instrumento exclusivamente usado em música tradicional? Como seria música nova para este instrumento? Era isso que eu buscava, mas não foi fácil porque foi justamente nessa tradição que eu cresci, por isso a minha forma de imaginar a música é naturalmente influenciada pela música tradicional. Mas agora é diferente, porque já trabalhei muito em música nova, em música contemporânea, o que me permite concepcionar a música de forma diferente, mas em 2007 não era esse o caso… a música tradicional da Bretanha é a música do campo, não da cidade, e quando comecei a explorar esta música nova queria ver o que seria a música urbana para a gaita de foles.

Já actuaste em igrejas?

Sim.

E gostaste da experiência?

Sim, claro!

Então porque?

Porque o som é muito alto, há muita reverberação. O som pode estar em qualquer lado, é possível tê-lo a vir da frente, de trás, as igrejas são óptimas para isso. Eu não gosto muito de tocar na rua porque não há paredes, o som não é reflectido, e numa igreja ele reflecte em todo o lado, por isso…adoro tocar em igrejas.

O que achaste desta igreja [Igreja da Nossa Senhora do Rosário] e do som dela?

Vai estar alto (risos)…vai estar alto. Mas isso é bom! (risos)

Entrevista – Clothilde e HOBO

Clothilde é o alter-ego musical de Sofia Mestre, colorista, fotógrafa, desenhadora e não só, que se encontrou enquanto música na viragem para os 40. Trabalha a partir da herança de pós-minimalistas, improvisadoras e compositoras de mente aberta, como Pauline Oliveros, Maryanne Amacher, Daphne Oram, Eliane Radigue ou Delia Derbyshire, para criar a partir de bases electrónicas modulares – tecnologia feita pelo seu companheiro Zé, aka HOBO -, novas paisagens e realidades emocionais e estéticas. Em Outubro de 2018, durante a edição do OUT.FEST desse ano, onde testemunhamos uma bela actuação da artista na Escola de Jazz do Barreiro, o Alexandre Ribeiro e o Vasco Completo tiveram a oportunidade de ter uma curta conversa com os dois – Clothilde e HOBO – sobre o sistema electrónico único que usam e as suas origens, bem como o despertar de Clothilde para a criação músical.

Quando é que começaste a construir este tipo de máquinas?

HOBO: Comecei a pensar nisto aí há uns seis, sete anos. Na altura andava a fazer umas máquinas em cartão (sempre usei os materiais que tinha à mão para fazer coisas) e no meio das buscas de materiais para usar fui a casa do meu pai, que foi rádio montador na Guiné durante a guerra do ultramar, e ele tinha lá uma breadboard e mais uns chips e outras coisinhas que me disse para levar. Eu pus aquilo no saco e ficou numa gaveta durante para aí um ano, até depois tropeçar numa coisa qualquer que me lembrou que tinha aquilo por casa. Depois comecei a construir coisas, primeiro um amplificador numa caixa de Scotch-Brite, uma coisa muito básica, e fui expandindo a partir dai. Comecei a pensar, “Ok, quero que o som saia para algum lado, por isso preciso de um amplificador”. Foi o passo número um. Passo número dois: “temos de fazer uns osciladores, vamos a isso”. A partir dai foi sempre a crescer, continuei a pesquisar, ver o que já foi feito e o que conseguia fazer de diferente. Hoje com a internet consegues dar passos gigantes com as coisas – dantes era muito mais complicado, a informação estava só em livros, mas agora fazes uma buscazinha, fica mais ou menos explicito o que tens que fazer, e depois a partir do que já está feito é andar para trás, explorar a ficha técnica do chip, e partir dai para criar as tuas próprias coisas. O processo tem sido um bocado assim, autodidata e sem grandes pretensiosismos, fazer a coisa porque me dá prazer.

No caso específico destas máquinas que a “maquinista” usa, podes explicar-nos melhor como funcionam?

CLOTHILDE: São muitas…

H: Não as trouxemos todas…estão ali umas dez, mais uns teclados, e no total já devemos ter umas 20…a ideia é que cada uma das maquinas possa ser usada independentemente e produzir som, quase como um sistema modular, mas não completamente, porque no modular tens que levar a tralha toda atrás e aqui se quiser levar só uma máquina posso mete-la debaixo do braço e leva-la comigo, e fazer o output do sinal ou diretamente por jack ou então com um jack banana para poder mandar o som para outro lado qualquer. Queria que fosse sempre muito versátil, para poder tocar tanto com uma, ou com duas, ou com tudo….

C: Foi curioso porque só agora é que podemos tocar juntos – dantes não tínhamos máquinas suficientes para tocar os dois. Eu toco sozinha muito fruto disso – ele tem um projeto com um amigo em que também usa estas máquinas e se tocássemos os dois ao mesmo tempo íamos “desfazer-nos” um ao outro, porque para conseguir certos sons é necessário que elas estejam ligadas entre si, para modular, filtrar, whatever. Mas agora já conseguimos, e o próximo passo é começarmos também a ter um projecto e a tocar juntos.

Como começou esta tua atividade enquanto música?

C: Eu sempre adorei música, mas nunca pretendi fazer música, nunca desejei isto – propuseram-me, porque sabiam que eu tocava com ele [HOBO], e aconteceu. Nós temos uma casa no Meco com amigos, para descansar, e ele levava as máquinas e ficávamos ali a brincar, mas sem pretensão qualquer de chegar a vir a tocar um dia…

Sou amiga da Sonja da Labareda, por quem eu lancei o álbum, há muitíssimos anos e ela conhece-me muito bem – melhor que eu própria pelos vistos – e desafiou-me a fazer alguma coisa, e eu fiquei tipo “tás doida…eu?” Nunca foi algo que tivesse desejado antes sequer, mas acabei por ficar a pensar que não podia ficar a vida toda a pensar nisso e foi assim…

Lançaste recentemente o teu primeiro LP, o “Twitcher”… o teu percurso tem alguma coisa a ver com a música?

C: Nada.

Podes falar um pouco sobre isso?

C: Eu sou fanática por música, sempre fui, desde pequenina – quando a minha mãe punha alguma coisa que eu não gostava a dar eu desatava a chorar. Isto é verdade! Mas eu nunca trabalhei em música.

O meu avô era o baterista de uma banda fabulosa de jazz nos anos vinte, a minha mãe esforçou-se imenso para eu estudar música (ela queria estudar música quando era mais nova e ele não deixou porque ela era menina), o meu tio toca tudo…isto está lá, afinal.

Eu trabalhei muitos anos em publicidade e cinema, fui colorista, gosto de desenhar, fotografar, agora estou a montar um projeto com amigas que ainda estamos a ver o que é que vai dar…Mas isto… Fiz o “Birdwatching”, que foi para isso que a Sonja me desafiou, para uma compilação, foi ai que eu disse “epá…olha, vou dedicar-me e ver, prometo que não te vou deixar ficar mal, nem que eu me mate”, que eu sou um bocadinho exigente comigo própria, demasiado até. E depois ela veio-me com a história do álbum, e eu ai fiquei um bocado “afinal já não é só uma…” mas já tinha passado a barreira, já tinha tocado a primeira vez no Damas… Não tive meio termo, fiz o “Birdwatching”, toco a primeira vez no Damas, a segunda no Lounge, a terceira no Walk&Talk dos Açores, depois na ZDB, eu já só dizia “Poça, já só falta o Maria Matos” (risos) Não sei o que aconteceu, eu não estava a espera, mas eu sei que tenho ouvido, sei que as coisas estão aqui. Eu não conto os tempos, eu sinto, é uma vida inteira a ouvir música e com muita paixão, eu acho que é isso. Fiz o álbum (fizemos o lançamento a 25 de Maio) e estranhamente saiu bem! Eu fiquei muito contente, não sabia o que ia sair…

Como foi a receção?

C: Está a ser uma loucura, eu não tenho vida para ser artista…(risos) não tenho tempo…Só o mês passado dei três concertos, no Festival Exquisito no dia 13, no dia 15 estava em Santiago de Compostela no WOS, no dia 22 foi no Porto no Passos Manuel. Essa última foi uma noite organizada pela Fungo, em que o Zé tocou com o Marco (o Citizen:Kane), porque não dava para tocarmos os dois, mais o Nuno Patrício e o Nicolai que são DJs da Fungo, tocamos todos, e agora estou aqui. E já tenho várias coisas para responder, entretanto…até para 2020, e eu fico muito nervosa com estas coisas, não sei se estarei viva sequer (risos). Mas é um projecto super interessante mesmo, é uma peça de teatro e acho que tem tudo a ver com a minha cabeça.

Viegas – Entrevista

Parte do impressionante colectivo mina, participante nas festas Rabbit Hole e já de há tempo parte da Rádio Quântica, Viegas é um artista e DJ barreirense que fez parte da noite de encerramento do OUT.FEST 2019 no espaço A4. Antes do festival tivemos a oportunidade de conversar com ele sobre o seu percurso artistico, e a sua actividade nos colectivos que integra numa entrevista que agora divulgamos.

Como e quando descobriste o techno e a música eletrónica de club?

Em 2014 passei uns meses fora de Portugal, em Barcelona, e a forma que encontrei de criar relações (com a cidade e conhecer pessoas) foi a sair à noite. O River Dealer do Burial tinha sido lançado há pouco tempo e esse EP foi também uma porta de entrada para a electrónica, principalmente para a cena musical do UK, e foi uma porta de entrada para outras coisas.

Que clubes e noites mais frequentavas, depois desse período formativo? Se calhar mais aqui no Barreiro e em Lisboa?

No Barreiro as minhas noites eram mais na rua…mas em Lisboa o Lux, e algumas festas da Rabbit Hole e noites Príncipe.

Antes de irmos ao teu coletivo, queria perguntar-te rapidamente sobre as Rabbit Holes – porque eram festas que apesar de serem associadas à música de dança eram muito variadas, cheguei até a ver um amigo que fazia música drone a atuar numa. Achas que essa mistura de estilos de música diferente que influenciou a tua forma de ser DJ?

Sim, de certa forma. Na Rabbit Hole havia lugar para todo o tipo de expressões artísticas, tudo cabia numa noite. Esse ecletismo que havia na programação talvez me tenha influenciado, sim.  Ter crescido no subúrbio também teve um grande impacto na minha percepção de música eletrónica e nos meus interesses. Comecei a ouvir Kuduro e Kizomba muito antes de Techno ou House ou qualquer outro estilo…então ultimamente tem sido mais um trabalho de perceber como misturas as várias referências que tenho em algo que se adequa ao momento em que estou a tocar.

Falando agora sobre a mina, como é que ela surgiu e como é que te juntaste a ela?

A mina surgiu de um juntar de forças entre a Rabbit Hole e a Rádio Quântica (outro projeto a que acabei por me juntar pouco tempo depois de ter começado a colaborar com a Rabbit Hole). Na altura faltava em Lisboa uma noite de música eletrónica onde houvesse espaço para experimentares com a tua identidade e sexualidade…onde as regras fossem…subentendidas, mais baseadas no respeito entre as pessoas e não aquelas regras que estão associadas a espaços mais institucionalizados. o Pedro Marum, que foi uma das pessoas que fundou a Rabbit Hole, e que também se juntou à Rádio Quântica mais ou menos na mesma altura que eu, teve a ideia de criar estas noites com a Violet e com o Photonz, que são os fundadores da Rádio Quântica, e como eu estava a colaborar com os dois projetos fui convidado a ajudar.

Quanto à Rádio Quântica, tu ainda tens o programa de rádio “Mercúrio”?

Bem entretanto mudou para rave3000, e ultimamente não tenho feito com tanta frequência, mas sim.

Como é que diferem as playlists que fazes para a rádio do que passas na pista de dança? Quais são as diferenças e as semelhanças, o que tentas trazer para um e para o outro?

Se calhar começando pelas semelhanças: acaba por vir tudo do mesmo sitio, os critérios são semelhantes, eu tento ser inclusivo e ter sempre o meu foco mais afastado do centro. Com o programa não tenho tantas preocupações, se a música é dançável ou como vai ser recebida, porque acho que é um espaço muito mais experimental e com muito menos expectativas da parte de quem ouve. E também tento sempre dividir o slot com outra pessoa, por isso varia também de quem convido. Na rádio para mim o mais importante é dar oportunidade a outras pessoas de terem acesso a esta plataforma, tenho a certeza que se não existisse Rádio Quântica teria sido tudo muito mais complicado para mim.

Tu já tocaste lá fora várias vezes, em Berlim por exemplo…

Sim…neste último ano tive a oportunidade de tocar em várias capitais Europeias, Londres, Paris, Atenas…

São capitais bastante diferentes, e conhecidas pela sua vida noturna…como é que achas que Lisboa se compara com esses sítios? A cidade tem alguma coisa de único nesse sentido?

Em Lisboa estou mais confortável, então sinto-me mais à vontade para experimentar certas coisas. Normalmente também toco em contextos em que o público está habituado a ouvir de tudo, e essa diversidade é celebrada. Talvez por não termos grande variedade de festas especificas a certos géneros é habitual haver esta convergência. Em Londres, por exemplo, senti o mesmo, mas no UK a história da música electrónica é muito rica e diversa.  Não sei se será uma coisa única, mas sendo uma cidade pequena é fácil conheceres pessoas de cenas diferentes.

Tu estudaste Cinema Documental, não foi?

Eu comecei por estudar Publicidade e Marketing, na Escola Superior de Comunicação Social, mas apercebi-me muito rapidamente que não era isso que queria fazer e depois tirei um curso de Cinema Documental de um ano e estudei Fotografia no Ar.Co e nas Belas Artes.

Sei que tiras fotografias nas noites da mina e do Rabbit Hole. Achas que alguma dessa formação se infiltrou no teu trabalho? Não só na fotografia, mas também na forma como és DJ?

Acho que foi mais ao contrário, foi o clubbing que acabou por se infiltrar na minha fotografia. Foi na noite que o meu interesse por fotografar despertou, porque tive vontade de registar o que estava a acontecer. Agora não sei, no futuro eu adorava também apostar mais numa componente visual nos meus shows, por isso talvez a coisa vire ao contrário, e seja a fotografia a influenciar a minha forma de ser DJ.

Voltando aqui ao Barreiro – Tu nasceste e cresceste lá, e ouvias o festival, o OUT.FEST, do teu quarto, segundo um post teu. Podias falar-me sobre as tuas experiências de OUT.FEST, partindo mesmo dessa escuta no teu quarto?

Sim,  eu vivia muito perto dos Ferroviários, e houve várias edições que aconteceram lá. Então lembro-me de ser mais novo e não conseguir classificar o tipo de música que estava a ouvir, e isso sempre me despertou interesse. Quando comecei a ir foi muito importante perceber que existem outras linguagens e possibilidades…ver pessoas com abordagens muito criativas aos instrumentos, enquanto o público é paciente e receptivo. Descobrir lendas do ambient e do drone com quem possivelmente nunca me iria cruzar, tudo isto em espaços incríveis que o resto do ano passam despercebidos. O tipo de música que ouço em casa quando não estou a preparar um set é muito influenciado pelo que ouço no OUT.FEST.

Tens algum mix especialmente preparado para o OUT.FEST? Com o que podemos contar para o encerramento do festival?

Eu vou tentar manter-me perto de lançamentos mais recentes. Quero que de alguma forma represente o que tenho ouvido e tocado nos meus últimos sets,  dando prioridade a cenas mais experimentais que noutros sítios não funcionariam tão bem. Quero também ir a muitos lugares…mas vamos ver o que acontece!

Entrevista por: Tiago Franco

Angélica Salvi – Entrevista

Angélica Salvi é uma harpista espanhola radicada no Porto há alguns anos, que tem erigido um trabalho exploratório no seu instrumento com uma variedade realmente heterogénea de colaboradores musicais e transdisciplinares, ainda que essencialmente focada em trabalho de improvisação. Para além de leccionar no Conservatório de Música local, já realizou trabalho como solista com a Orquestra Sinfónica da Casa da Música ou o celebrado Remix Ensemble.

Das suas colaborações com músicos icónicos como Han Bennink ou Evan Parker, do que lhe conhecemos em palco e de discos, o seu vocabulário vai sempre se adaptando – mantendo a identidade – de acordo com contexto e ideias, a nível de timbragens e efeitos. A ver o seu discurso solista, que já foi apresentado por diversas vezes pela Europa e Estados Unidos.

Tivemos a oportunidade de conversar com ela antes da sua actuação no OUT.FEST 2019, e convidamo-vos a ler o resultado dessa conversa abaixo.

Quando e porque é que te mudaste para Portugal? O que te fez ir para o Porto, especificamente?

Eu estava a morar na Holanda, onde estudava, e recebi um e-mail de uma professora a dizer que precisavam de alguém para dar aulas de harpa no Conservatório de Música do Porto e perguntou se eu tinha disponibilidade. Pensei, por que não? Assim, em Setembro de 2011 mudei-me para o Porto. Entretanto ia e vinha da Holanda uma vez por mês para acabar o mestrado que tinha começado.

Há quanto tempo começaste a tocar harpa?

Desde os meus 11 anos.

E o que é que te levou a apostar neste instrumento em particular?

Foi uma coincidência. Naquela altura, eu tinha começado a estudar piano. Eu fiz as provas para estudar no Conservatório e quando fui aceite escolhi piano como primeira opção e harpa como segunda (por ser o mais parecido). Não havia vagas para piano e fiquei em harpa. Gostei, apesar de na altura não conhecer bem o instrumento.

É o teu instrumento principal, mas houve alguma vez em que decidiste mudar de instrumento, ou houve algum outro que te tivesse cativado?

Eu tinha um piano em casa (a minha mãe estudou e tocava piano) e houve uma altura em que tocava piano e harpa, e para mim os dois instrumentos têm muito em comum. Embora goste muito de outros instrumentos para alem destes dois, nunca decidi explorá-los a sério.

Quando te começaste a interessar pela improvisação? Normalmente não é algo muito ensinado em escolas, especialmente para a harpa… houve algum momento, alguma ideia, artista ou concerto que te tenha despertado o interesse nesta abordagem à música?

Bem, eu sempre estive muito interessada na parte criativa artística em geral. Andei 3 anos nas Belas Artes,  gosto muito de desenhar e sempre gostei de inventar coisas novas. Na minha escola tive um método de ensino muito conservador (ainda bem que depois mudaram um pouco as coisas), portanto tive de procurar e explorar por mim. Procurava algum tipo de liberdade e a única alternativa que eu encontrei naquela altura (que fosse mais alem da música escrita) foi o Jazz. Tive algumas aulas de jazz, conheci uma professora de harpa que dava aulas de jazz na Universidade do Arizona e fui estudar com ela durante ano e meio. Depois continuei os meus estudos na Holanda no Conservatório de Música e na Dutch Impro Academy, onde conheci aos músicos da ICP Orchestra e da Brokken-Fabriek  (Amsterdão), desta forma descobri o mundo do free jazz.  Por tanto a improvisação faz parte do meu percurso já alguns anos.

Falei com o Peter Evans há alguns dias e ele disse-me que tem sempre dificuldade em ensinar às pessoas a forma “correta” de tocar música, e que o método de ensino dele não é tanto mostrar como se “deve” fazer algo, mas sim servir de guia para novas possibilidades musicais. Também tens algumas dessas dúvidas, sobre a melhor forma de ensinar música e harpa? Como é que guias os teus alunos nas suas aprendizagens?

Eu tenho sempre muitas dúvidas… nós, os professores, estamos sempre a aprender coisas novas com os alunos.  Falo sempre com muitos colegas e também com os meus alunos para experimentarmos diferentes métodos e fórmulas. Alguns dos meus alunos são muito jovens, por isso tenho de tentar encontrar um equilíbrio entre o que é a parte criativa e a parte teórica. Por um lado, eles têm de aprender a parte teórica (apesar de que as vezes isso seja um pouco repetitivo e monótono) para conseguir atingir uma certa técnica e posição de modo a dominar minimamente o instrumento. Às vezes é um pouco complicado porque requer muita paciência, consistência e rotina.  É uma espécie de arte marcial.

A procura desse equilíbrio, é que não é nada fácil. Também depende muito das pessoas, da personalidade de cada um, por isso é importante adaptar as aulas a cada aluno e perceber o que cada um gosta ou com o que se sente mais à vontade.

E depois pronto, a partir de aqui sim, concordo com Peter Evans: o professor deve servir como guia para novas possibilidades!

Tens alguns projectos para o futuro próximo que gostarias de divulgar?

Tenho vários projectos a acontecer, estão todos no meu website: www.angelicasalvi.net.

Tu já colaboraste com vários músicos Portugueses, como por exemplo, o Rafael Toral – sentes que haja alguma abordagem à música, particularmente improvisada, que seja única aqui em Portugal? Claro que toda a gente tem a sua personalidade, mas achas que há algo de especial na abordagem desta comunidade em Portugal?

Acho que cá em Portugal os artistas tem uma coisa muito fixe. Julgando pelo que vi, parece-me que os músicos que conheci tem todos projectos e colaborações muito diferentes, não fazem uma coisa só ou gostam de um estilo especifico, são muito abertos e dominam áreas muito diferentes que se complementam.  Esta forma abrangente e livre de abordar a arte, permite criar projectos colaborativos muito interessantes.

Tinha a sensação, sobretudo quando morava na Holanda, que nos últimos tempos há uma tendência para a especialização: na educação, nas artes… parece que um artista tem de ter um estilo muito específico predefinido, até com certas regras para conseguir encaixar em algum lado ou ter uma etiqueta (muitas editoras fazem pressão constante aos artistas com este tipo de coisas). Penso que isto é um caminho errado porque o resultado acaba por ficar formatado, globalizado e aborrecido… por isso sinto-me muito feliz neste país, penso que os artistas conservam e protegem muito a sua essência e acreditam mesmo em aquilo que fazem. Esta é a experiência que tive com o circulo de músicos que me adotaram.

Entrevista por: Tiago Franco

 

Entrevista a Will Brooks (MC Dälek)

No último OUT.FEST tivemos o prazer e a honra de contar com os nova iorquinos Dälek, grupo de hip hop do mais aventureiro, no seu regresso a Portugal pela primeira vez em mais de uma década. Antes do concerto, falamos com Will Brooks (MC Dälek, o próprio) sobre a abordagem em estúdio do grupo, colaborações passadas e futuras, e os artistas que o inspiram.

Entrevista por Tiago Franco. Fotos por Pedro Roque.

Como foi a tour com os Anguish?

Tem sido incrível, é fenomenal como as coisas se alinharam e como conseguimos dar concertos, porque é difícil juntar toda a gente, todos temos projectos diferentes a acontecer, e por isso não é fácil marcar tours, então quando temos a oportunidade aproveitamos. O primeiro concerto que demos foi no Moers Festival e no dia anterior demos um concerto de Dälek em Austin no Texas, por isso voamos de Austin para Nova York, de lá para a Alemanha para dar esse concerto…Mas teve mesmo que ser, se não passávamos mais um mês sem tocar. Mas foi muito bom, desde o primeiro concerto que…sabíamos que tínhamos algo especial quando gravamos, mas logo no primeiro concerto deu para perceber que isto era mesmo especial em palco. Acho que fizemos oito ou nove actuações até agora e tem ficado melhor e melhor. É um bocado louco, porque logo no primeiro concerto nem ensaiamos, só fizemos aquilo acontecer de alguma forma, depois houve dois concertos em que o Mats [Gustafsson] não conseguiu participar, então arranjamos um substituto recomendado por ele, o Goran [Kajfes], que tocou trompete, ele chegou a conhecer as músicas e connosco a confiar que nos íamos safar de alguma maneira, e foi fenomenal, as coisas funcionaram muito bem. Tem sido um prazer, tocar com músicos deste calibre torna tudo mais fácil – tenho toda a confiança em toda a gente naquele palco e é fixe porque podemos levar as coisas para direções mais fora e mesmo assim sei que vai correr tudo bem. Por isso é fixe, é muito diferente das coisas de Dälek, porque as canções evoluem e mudam. Há momentos centrais nas músicas mas é muito improv, muito aberto, e é um prazer fazer parte disso.

Sei que fizeste o disco com o Hans Joachim Irmler…Como é que o conheceste a ele e à malta da Fire! Orchestra?

O Mats é outro que…já nos conhecemos há mais que uma década, acho que a primeira vez que tocamos juntos foi no Konfrontationen Festival em Nickelsdorf, um festival de free jazz na Austria, e demo-nos logo bem, ele era daqueles tipos com os quais sempre dissemos que queríamos trabalhar, mas os nossos calendários nunca se alinhavam e nunca deu para o fazer. Mas no verão em que gravamos o disco de Anguish conseguimos fazê-lo acontecer: Convidamo-lo para tocar saxofone com Dälek nuns quantos festivais (basicamente tínhamos duas semanas de concertos e uma semana livre no meio), e pensamos, em vez de ir para casa, era melhor irmos para um estúdio e ver o que saia daí. Por isso propusemos-lhe essa ideia e ele adorou, e eu fui imediatamente falar com o Joachim, porque também já queríamos fazer algo com ele outra vez e ele tem um bom estúdio na Alemanha, e ele estava completamente nessa. Depois o Mats sugeriu que trouxéssemos o baterista dele na Fire! Orchestra e foi perfeito, funcionou mesmo mesmo bem, era eu e o Mike de Dälek, os dois gajos da Fire! Orchestra e o Joachim…parece fora, mas correu tudo às mil maravilhas.

Já colaboraste com tantos artistas diferentes ao longo dos anos – o que é que te apela em trabalhar com artistas que as pessoas normalmente não associam ao hip hop?

Nunca quis saber de género, na realidade. Só quero saber da música, se é boa é boa, e ter músicos daquele calibre a sequer considerar trabalhar comigo é uma honra, por isso quando tenho a oportunidade de trabalhar com alguém que respeito agarro-a, porque a vida é limitada, estou a tentar fazer com que conte, ter tantos projectos e fazer tanta música boa quanto consiga, e há uma longa lista de pessoal com o qual ainda quero trabalhar, por isso…

Tens algumas colaborações futuras em mente?

Sim, há algumas coisas no forno das quais não posso falar ainda, e há uma lista de colaborações de sonho, claro. Adorava trabalhar com o Kevin Shields dos My Bloody Valentine, gostava de trabalhar com o Stephen O’Malley, a Björk também esteve sempre na minha lista…no que toca hip hop, gajos como o Ka…há tanta gente, tantos bons artistas por ai…mais uma vez, os géneros não interessam, o que interessa é: “Que tipo de arte é que criaste com outro músico?” Quando se vem de mundos completamente diferentes, encontrar um espaço em comum é o que torna a coisa especial.

Queria perguntar-te sobre os My Bloody Valentine, porque falas deles com frequência – podes contar-nos sobre a primeira vez que os ouviste e o que isso despertou em ti?

Na realidade só comecei a ouvi-los muito tarde, por volta da altura em que começamos os Dälek. Fui eu o o Oktopus a começar o grupo, acho que foi por volta de 95/96 que começamos a trabalhar juntos, e na altura ele vinha mais do punk, eu vinha mais do hip hop, obviamente, mas ao mesmo tempo ele tinha um gosto bastante variado, gostava de muito shoegaze, cenas alternativas, gostávamos ambos de muito jazz, eu gostava de salsa, ele gostava de metal…por isso ambos tínhamos um espaço musical em comum meio estranho, mas ao mesmo tempo havia muita coisa que nem eu nem ele conhecíamos muito bem. Ele gostava de hip hop old school mas tinha deixado de ouvir hip hop, gostava dos Public Enemy e coisas assim…

Na altura ele era só o engenheiro de som do meu projecto, ainda não tínhamos começado a banda, mas depois das sessões juntávamo-nos e ficávamos só a mostrar música um ao outro. Eu dizia-lhe “Tens que ouvir isto!” e mostrava-lhe o hip hop que estava a sair na altura, em 94/95/96, os discos solo dos Wu Tang, o Nas, as cenas Boom Bap todas, suponho que agora lhe chamam a era dourada do hip hop, mas na altura era só o que estava a acontecer, e ele estava a mostrar-me coisas como os All Natural Lemon And Lime Flavours, que até tinham uma ligação connosco. Andamos na escola com um desses gajos, o Josh Booth, que acabou por chegar a trabalhar também connosco, e foram eles a mostrar os MBV ao Oktopus. Ainda hoje me lembro desse momento, estavamos completamente bêbedos, ele pôs o Loveless a dar e foi como se se acendesse uma luz, fiquei tipo “Isso, mas que é isso? Eu quero fazer isto para o hip hop, como é que fazemos isto?” fez-me logo totalmente sentido, tudo naquele disco soava bem, a forma como as vozes eram um instrumento, como as guitarras faziam aquela parede de som, como o ruido era melódico, mesmo tudo acerca daquele disco era lindo para mim, aquele disco mudou tudo, foi um daqueles momentos em que fiquei tipo…Honestamente, para mim Dälek é só My Bloody Valentine, Public Enemy, KRS-One, talvez um pouco de Faust e de Velvet Underground, sabes, talvez um bocadinho de Rakim…essa é a formula que nos inspirou…

Tocamos num festival que curado pelo Thurston Moore, e a Deb Googe, a baixista dos MBV, tocava na banda dele, por isso tivemos a sorte de estar com ela e eu parecia um puto…e ela foi tão fofa e fixe connosco, disse-nos que curtia o que nós estávamos a fazer e eu disse-lhe que isso para mim era tudo, e depois quando os MBV tocaram em Nova Iorque ela convidou-me para o concerto e pude conhece-los, e fiquei outra vez – e normalmente nem sou esse tipo de pessoa – mas estava 100% em modo fã, pedi-lhes para assinarem os meus discos e tudo isso. Essa é a coisa linda acerca da música, há certas bandas que ressoam contigo, inspiram-te, e eles são definitivamente uma das bandas que acabou por redefinir o que eu achava que queria fazer. O KRS-One foi provavelmente quem começou isso, quando o ouvi percebi que era o que queria fazer da minha vida, os Public Enemy foram outro desses grupos, e sinto que os My Bloody Valentine foram o outro que me fez ficar tipo “Siiim, é isto!” quando os ouvi, sabes? Simplesmente incríveis.

No último disco, a forma como os samples são usados e a forma como a música acaba a soar lembra-me muito das técnicas usadas pelo Kevin Shields no estúdio, a forma como ele trabalha intensivamente para fazer tudo colar de uma forma completamente etérea, mas ao mesmo tempo brutal e in your face. Acho que fazem um ótimo trabalho em incorporar isso sem ser um rip-off

Obrigado. Sabes, é engraçado que sempre nos acusaram de samplar os My Bloody Valentine – Eu nunca samplei os MBV e nunca o irei fazer, há certos discos dos quais me parece errado tirar seja o que for tirando inspiração…não há necessidade de o fazer sequer, descobrimos uma forma de chegar onde queremos sem samplar nada, só criando as nossas próprias coisas.

Já mencionaste que a música contemporânea é muito interessante para ti. E como vês o hip hop contemporâneo?

Bem, acho que há muito hip hop contemporâneo que é inacreditável, apesar da minha definição de hip hop contemporâneo poder ser diferente da tua. As coisas que passam na radio para mim não são hip hop sabes, é pop. Eu até prefiro quando lhe chamam coisas como trap, mais vale que seja a sua própria cena, porque tem muito pouco a ver com a cultura do hip hop. É a sua própria cena e isso não tem mal nenhum. Acho que também há uma certa parte disso que é geracional, sinto que muitas das coisas mais recentes são para pessoal mais novo, sabes. Não é para mim – eu tenho 44 anos, as coisas não são escritas para mim nem deviam ser. E não há nada de errado com isso, não estou a falar mal dessa música, acho que a música pode existir por diferentes razões e isso é perfeitamente ok, mas chamar algo de hip hop….

Acho que há hip hop novo que é incrível, se ouvires o Roc Marciano, já falei do Ka, se ouvires Crimeapple, Brown13, há tanta coisa contemporânea a sair, ainda existe aquele hip hop grimy que eu adoro, há letristas fantásticos agora, há tanta coisa boa a acontecer…Não sei, eu tenho 44 mas odeio quando pessoas da minha idade começam a dizer que “Não há música boa hoje em dia”. Nah, tu é que paraste de ouvir, porque há sempre música boa, é só questão de ir procurá-la. Claro que também há imenso lixo, mas sempre foi assim….

Então fora do hip hop, que outra música contemporânea é que te tem excitado ultimamente?

Estou a tentar pensar, porque às vezes fico num daqueles moods em que ouço montes de cenas antigas…Há meses em que só ouço The Cure ou Joy Division (risos)…Tenho estado numa onda dessas ultimamente…

Adorei os últimos dois discos da Solange, achei que eram discos mesmo incríveis, falando de…suponho que lhe chamarias R&B contemporâneo, mas eu gosto só do que ela tem feito em geral, uma construção musical e letras mesmo boas, é experimental de certa forma, para música pop é bastante fora, o que é fixe…Importas-te que olhe para o meu Spotify para ver o que tenho andado a ouvir? Porque se não tenho uma branca…

Ah, o Sufjan Stevens, tenho ouvido demasiado o Carrie & Lowell, adoro esse disco. O novo dos Tool, já me esquecia disso…a cena louca dos dias de hoje é que há tantos discos a sair, quase um a seguir ao outro a seguir ao outro que é tipo…sobrecarga sensorial (risos). Há muita música boa neste mundo.

Há esta banda chamada Belong, não sei se os conheces, são meio shoegazy…Black Marble, ando obcecado com esse gajo, as cenas deles são incríveis. Falando de hip hop, o meu mano House Shoes e a label dele, Street Corner Music, ele tem lançado uns três ou quatro álbuns por ano, e tudo o que ele tem lançado é incrivelmente bom. É principalmente hip hop instrumental, mas há coisas incríveis lá.

Hmm…Iron & Wine…Midnight Owl…

Não pareces restringir-te de todo na música que ouves, quer seja mais ou menos pesada…

Nah meu, eu só gosto de música, se for boa é boa…Ah, os Space Echo são outros. Os Suuns…também são fantásticos…Ya, há montes de coisas.

Voltando aos clássicos de que falaste, qual foi o primeiro disco ou música de hip hop que te fez pensar fora da caixa, e ver as possibilidades do hip hop e da música em geral?

Provavelmente os Ultramagnetic MCs, porque foram os primeiros a ter uma produção mais fora. Acho que o Premier…é enganador, porque ouves a produção dele e ele faz-te achar que é simples, mas depois reparas que ele escolheu as peças mais simples que encaixam perfeitamente juntas, e isso é muito difícil de fazer…sinto que se tentares fazer um beat do Premier vais falhar, ele tem um ouvido para o que funciona, e apesar de ser muito minimal é surpreendentemente complexo a nível de estrutura, e acho que há algo de lindo nisso. É como se ele fosse completamente o nosso oposto, nós fazemos coisas em camadas densas, mas tenho tanto respeito pelo que ele faz no lado mais minimal do hip hop…é estranho, ele é o nosso oposto, mas mesmo assim é uma influencia, eu estudo o que ele faz porque para mim é lindo, é fantástico.

E claro, os Bomb Squad, a produção deles…a noção de layering no hip hop vem da Bomb Squad, se ouvires o “It Takes a Nation of Millions” ou o “Fear of a Black Planet”…

Sim, os Public Enemy estavam muito a frente…

Os Shocklees, a Bomb Squad em geral estava noutro planeta, mesmo, eram incríveis.

Falando sobre o vosso último disco [Endangered Philosophies], que filosofias é que vês em perigo hoje em dia?

Sabes, honestamente…sinto que qualquer tipo de pensamento está em perigo hoje em dia (risos). Nem sequer estava a tentar ir muito fundo no que toca a coisas especificas…sinto que o intelecto em geral está em perigo atualmente, todo o clima actual da sociedade faz parecer que se tiveres algum tipo de inteligência és uma espécie em vias de extinção…pelo menos é como me sinto agora.

O que é que achas que o vosso próximo disco vai abordar, isso é algo que tenhas considerado?

Não sei meu, é uma boa pergunta. Temos este concerto, depois um festival em Minneapolis, talvez alguns concertos no México, mas depois vamos voltar ao estúdio para montar o próximo disco a sério. Temos algumas peças em que temos trabalhado, mas quando trabalho num álbum gosto de o fazer como um todo, tentar ver como todas as peças encaixam e em que direção vamos, e o que vamos fazer a seguir. Para ser honesto contigo ainda não sei, não tenho a certeza…porque sempre tentei que os nossos discos fossem actuais mas sem estarem presos ao tempo deles, sabes, quero que seja sobre o agora mas não quero que se consiga logo dizer “Ah, este disco é desta altura”. É uma linha ténue em que quero tocar no que está a acontecer agora, não só no mundo mas também na minha vida, mas também pô-lo num contexto em que seja mais universal, intemporal, por isso não sei, não tenho bem a certeza para onde vou. Tenho algumas ideias, mas ainda tenho que as trabalhar. Sei que não vai ser um disco muito feliz…(risos)

Parece que as pessoas mais infelizes são de certa forma as menos loucas neste momento. Claro que é uma generalização estranha de ser fazer, mas parece que tanto do que é considerado lógico está completamente invertido hoje em dia…

Vivemos numa época interessante, é a melhor forma de pôr a coisa…Não sei, acho que não tenho nenhumas respostas, não sei para onde isto vai. Mas posso dizer que sou uma pessoa muito curiosa, por isso quero ver onde isto vai dar, seja bom ou mau. Não estou 100% convencido de nenhuma das direções, não acho que seja necessariamente tudo terrível…mas não sei, vamos ver o que acontece (risos).

Uma última pergunta já que falaste dos Cure, qual é o teu disco favorito deles? O que é que achas-

Fascination Street…Boys Don’t Cry…um desses dois. Quer dizer, adoro os hits todos deles, claro, mas o Fascination Street é um discaço.

Eles são outra daquelas bandas que parecem nunca se deixar prender por nenhum género…

Não, eles só seguiam em frente, é fantástico…qual era a música? Aquela dos dias, tu sabes do que estou a falar.

“In Between Days.”

Ya, essa música soa tão feliz, e eu fico tipo “Yo, isto não é nada The Cure”, e no entanto é totalmente The Cure, sabes? É incrível que a música vá totalmente contra tudo o que eles normalmente fazem e no entanto continua a soar a eles, e mesmo sendo uma música feliz acaba por soar meio melancólica…o que é fantástico, sabes?

Sim, as letras disso são qualquer coisa tipo “Ontem senti-me tão velho, senti que queria morrer”.

(risos)

Aquilo que se costuma dizer sobre os The Fall é meio redutor mas ao mesmo tempo é muito verdade e aplica-se a várias bandas: “Sempre diferentes, sempre iguais”. E pessoalmente acho que é o pico da criatividade artística quando fazes algo que faz com que as pessoas pensem “Yep, isto é deles”, como os The Cure e vocês conseguem fazer.

Fogo meu, quando me pões na mesma frase que os Cure e os Fall…obrigado! Nem sei se merecemos ser mencionados em conjunto, mas agradeço, porque isso são pesos pesados, mesmo. Mas sim, tudo o que tentamos fazer é a melhor música possível. É engraçado, ontem – esta é a primeira vez que estamos em Portugal nos últimos 10, 12 anos, qualquer coisa assim – e um puto veio ter connosco ontem dizer “Hey, já estou à espera há 12 anos para vos ver, não estava a espera que ainda tivessem essa energia toda”, e eu respondi-lhe “Pois, nem eu…” (risos).

Mas ainda tenho, ainda tenho essa fome e adoro todos os concertos, adoro actuar, fazer esta música, e o dia em que eu não goste disto é o dia em que deixo de o fazer, é a minha promessa, e o dia em que sinta que um disco não é bom o suficiente não o lanço, não o vou fazer só por fazer. Sei que já fazemos isto há muito tempo, especialmente o que eu e o Oktopus construímos juntos…antes da nossa pausa, quando voltei, disse-lhe “Hey, não vou lançar lixo, não vou fazer nada que deturpe o que fizemos no passado”. Sinto que a minha missão é pelo menos tentar fazer mais e melhor, e se conseguir continuar fazê-lo, vou fazê-lo.  Como disse, desde que esteja a sentir-me bem em palco e feliz com o que estou a fazer…porque isto é o que eu conheço, não conheço outra vida, vou estar cá enquanto me quiserem por cá, sabes? Mesmo a sério.

Muito obrigado.

Entrevista a Violeta Azevedo

Violeta Azevedo é uma musica Lisboeta que constroi paisagens sonoras expansivas com a sua flauta processada. Tivemos o prazer de falar com ela antes da sua actuação na terceira Noite da Raposa sobre o seu trabalho a solo e a sua ligação com o seu instrumento, entre outras coisas.

Foto da Violeta Azevedo: Ana Viotti. Fotos do Formanta EMS 01 cortesia Violeta Azevedo.

Integras vários projectos musicais, incluindo Jasmim, haraem e as Savage Ohms. Podes falar-nos sobre como este teu trabalho a solo difere dos restantes projectos e nas abordagens e inspirações por detrás dele? Planeias gravar algum registo a solo no futuro próximo?

Sim, espero gravar ainda este ano. Já tenho algumas coisas gravadas, mas ainda não editei nada nem pus cá fora. Acho que por ser só eu a tocar fico muito free naquilo que quero fazer, uso bastantes pedais, mais do que nos outros projectos (embora nos outros projectos também tenha liberdade para isso), mas também é outro tipo de música. Quanto toco sozinha, isto é o que me sai naturalmente, enquanto que com outras pessoas essa interação leva a resultados diferentes.

Tens dado muitos concertos a solo, ultimamente?

Sim, dei um no Irreal, dei no Lounge, no Desterro, toquei nos anos do Salgado, há dois anos…tenho dado alguns por acaso, tem sido fixe, é bom para evoluir e experimentar coisas diferentes.

Houve algum que se destacasse para ti?

O do Irreal, até agora foi o meu preferido, foi onde eu estava mesmo mais à vontade e onde fiz aquilo que queria do inicio ao fim, sempre em controlo e com imenso gosto de estar a tocar…foi muito fixe. Eu inspiro-me sempre no espaço quando estou a tocar, faço uma peça própria para esse espaço.

Ia justamente perguntar-te isso – quando dás estes concertos a solo já vens com uma ideia do que vais fazer, ou é completamente improvisado?

É meio-meio: tenho uma composição, mas é a base – sei o que usar de efeitos para chegar ao som que quero, mas de resto o que eu toco é muito improvisado com base nisso.

O que te atrai para a flauta transversal enquanto instrumento? Tens algum “heroi” ou “heroina” da flauta de que gostes particularmente?

Hmm…gosto de alguns flautistas, mas acho que o que me inspira mais na flauta é mesmo o som e o que consigo fazer com os efeitos, e também uso a voz, que é muito parecida com a flauta de certa forma, tem uma interação similar com os pedais. Tenho uma heroina que é a Delia Derbyshire, mas ela não toca flauta…mas acho que tem a ver com o som, e as texturas. A flauta é o instrumento que eu domino mais, mais que qualquer outro instrumento, e consigo gerar texturas que me interessam quando a uso, cada vez mais.

Como é que chegaste à flauta? Foi algo que tivesses estudado na escola, ou algo do género?

A minha mãe quis que eu aprendesse um instrumento, e deu-me uma lista. Eu fechei os olhos e apontei para lá e calhou-me a flauta transversal, por isso eu comecei a aprende-la com 9 anos. Era um ensino clássico, que eu odiei, e desisti ai por volta dos 15. Só passado anos, ai aos 20, é que voltei a tocar flauta. Ai já foi a improvisar – tocar mais formalmente também gosto, mas antes nunca tinha experimentado improvisar e fazer música minha, por mim própria, não sabia o que era gostar de tocar flauta, sequer. Só depois.

Trabalhas com o Rui Antunes na Analog-Repair, que faz restauro e reparação de sintetizadores e outro material electronico. Qual foi o instrumento / material mais interessante que já vos foi parar às mãos?

Estivemos a arranjar um synth que compramos, um synth russo que era usado para filmes e que é o melhor synth que eu experimentei até hoje, é incrivel, chamado Formanta EMS 01. É um sintetizador grande, com um teclado de orgão em baixo e em cima uma parte de synth mono, com um filtro parecido com o do Polivoks mas melhor, pode fazer sons parecidos mas também faz mil outras coisas. Foi um amigo nosso que já nos tinha arranjado um Polivoks que nos perguntou se queriamos este quando o encontrou – vinha estragado, como costuma ser o caso, mas tratamos disso. Mas adoro todos os synths analógicos, cada um tem o seu interesse.

Entrevista a Ernesto González (Bear Bones, Lay Low)

Falamos com o Ernesto González (Bear Bones, Lay Low e outros projectos) antes do seu concerto na ADAO sobre a sua tour Portuguesa, as cenas musicais Belga e Venezuelana e muito mais. Leiam tudo abaixo:

Foto cortesia do Pedro Roque – Eyes of Madness

Olá Ernesto, estás em tour em Portugal já há algum tempo, como tem sido a tua experiência por cá até agora?

Sim, tenho estado em bastantes sítios desde o norte até aqui ao Barreiro, e tem sido bastante especial na verdade…eu não sabia bem o que esperar, mas tem mesmo excedido as minhas expectativas – tenho tocado em todo o tipo de espaços todas as noites, conhecido pessoas mesmo maravilhosas e mágicas, e os concertos tem sido constantemente bons, mesmo eu sendo bastante crítico do meu próprio trabalho…não sei, esta tour tem sido tipo: “Isto é fixe, não estou a fazer tantas asneiras, ou então estou a enganar-me da maneira certa…” e o pessoal tem gostado da música todas as noites, apesar da ideia que eu tinha dos públicos em Portugal serem mais reservados. Pelo menos em muitos dos sítios onde toco, como só sou eu a tocar, as pessoas chegam, estão meio silenciosas ao inicio e depois dependendo da situação podem começar a entrar mais na coisa e começar a dançar. Mas é engraçado, pensava sempre que não estavam a gostar muito, mas depois no fim era tudo bastante bem recebido. Por isso sim, isto tem sido uma tour memorável, graças à Ya Ya Yeah Music.

A tua música parece profundamente orgânica apesar de usares instrumentos electrónicos. Podes falar-nos um pouco sobre a história, inspiração e influências de Bear Bones, Lay Low?

Comecei este projecto talvez há 11 anos, ou até mais, tinha 16 anos…as primeiras gravações que fiz foram lançadas com este nome. Isto era suposto ser só um projecto de noise – quando tinha 16 anos gravei muita coisa sozinho inspirado pelo underground do noise e da música psicadélica que estava a acontecer no inicio de 2000, principalmente coisas dos Estados Unidos e da Europa. Foi quando cheguei à Europa, à Bélgica, desde a Venezuela que entrei mesmo nesta música underground, notei que toda a gente estava a fazer a sua própria cena e isso inspirou-me, e comecei a explorar várias coisas diferentes, um era uma espécie de projecto de folk psicadélico, o outro era suposto ser mais noise com guitarras…e Bear Bones era mesmo um projecto de harsh noise com coisas simples, e era o projecto de que eu gostava menos, na realidade (risos). Mas como era a única coisa que conseguia fazer ao vivo, acabei por começar a tocar com esse nome, e tudo o que andava a fazer na altura acabou por se fundir no que faço agora, no projecto Bear Bones, Lay Low.

Então o projecto continuou a evoluir – quanto mais ouço diferentes tipos de música mais eles me influenciam, e acabo por aplicar o que aprendi de outros discos e músicos no meu som. Um evento importante foi quando um amigo meu apareceu com um Korg MS-10, um sintetizador analógico, e isso mudou mesmo a minha vida – eu não sou um viciado em sintetizadores mas adoro-os, esses sons electrónicos…isso foi o ponto de viragem, e comecei a desenvolver mais a minha música em vez de ficar só no noise e no drone, que era o que fazia com as cenas de Bear Bones até ai 2009 e 2010, e comecei a fazer musica mais parecida com, tipo, música cósmica…ouvia coisas como Cluster, os primeiros discos de Tangerine Dream, toda essa música alemã, o Conrad Schnitzler deixou-me parvo, ainda me deixa parvo hoje em dia, é um dos artistas que eu mais admiro.

Eventualmente comecei a tocar com outro amigo meu chamado Mike, criamos uma banda juntos chamada Tav Exotic, e começamos a tocar coisas mais…vamos dizer música de dança, coisas electrónicas mas com ritmo, e eu também comecei a integrar isso com Bear Bones, por isso agora é um misto de musica electrónica cósmica e repetitiva com ritmos pesados e um som meio maximalista, tentar fazer sons que são mesmo gigantescos…inspiro-me muito nos Skullflower e Sunroof, essas bandas ainda me inspiram hoje em dia…Tudo isto evoluiu de aprender com outros discos, ouvir muita coisa, gosto sempre de descobrir musica nova…não sinto que tenha algo de particularmente original, só pego em coisas daqui e dali e faço uma colagem.

Ao longo dos anos tens feito parte de vários projectos, incluindo Silvester Anfang, Steenkiste / Hellvet e mais recentemente Tav Exotic (com o Weird Dust) e lançaste splits com vários artistas. O que procuras nestas colaborações e como é que o processo criativo difere da tua música a solo?

Suponho que quando começo a colaborar com outras pessoas que isso de alguma forma começa de uma ideia que tivemos juntos. Com os Tav Exotic, o Mik também tem muitas influências de música cósmica, temos gostos muito similares, mas a abordagem era suposto ser um pouco menos…barulhenta, queríamos fazer mais coisas com beats… Mas agora que penso nisso, nestas colaborações e projectos acaba tudo a ser o que sai naturalmente – quando o Mike e eu tocamos fazemos este tipo de coisa, música electrónica sequenciada e repetitiva, estás a ver? Quando toco com os meus amigos do Jooklo Duo, a Virginia e o David (temos um projecto de electrónica abstracta chamado YADER), o que fazemos são improvisações electrónicas, por isso vejo isto mais em termos de ficar a conhecer as pessoas, é como uma conversa que consigo ter com algumas pessoas. Tu não usas a mesma linguagem com toda a gente, não falas com os teus avós da mesma forma que falas com os teus amigos, e é a mesma coisa nestas colaborações, é um dialogo e um processo de ficar a conhecer pessoas, e o que sai é uma extensão natural desta comunicação, por isso embora possam haver ideias precisas sobre um som, tudo aquilo em que me tenho envolvido tem sido sempre bastante orgânico, digamos assim…

Estou sempre a tentar fazer música com outras pessoas e acho que a melhor forma de o fazer é quando são só duas pessoas, talvez três…quer dizer, nos Silvester Anfang éramos tantos que mais para o fim, por volta de 2012 (eu juntei-me à banda em 2006) começou a ser difícil – éramos sempre entre seis e oito, nove pessoas, e ao fim de algum tempo toda a gente começou a afastar-se, enquanto que se forem só duas pessoas dá para se fazerem coisas maravilhosas, é como um bom casal…(risos)

É difícil gerir uma banda grande, especialmente porque há sempre alguém que tem que tomar as rédeas, e nem toda a gente está ok com esse tipo de organização. Mas é um espelho de como a sociedade funciona, pode-se desenhar um paralelo ai, há algumas pessoas que querem tomar a iniciativa de criar uma estrutura, outras pessoas estão lá para questionar essa estrutura, outros podem ter uma função mais de apoio, e toda a gente encontra o seu próprio lugar para fazer as coisas funcionar, mas quando não sabes o teu lugar e começas a criticar o das outras pessoas é quando as coisas começam a ficas disfuncionais e acabam por se desmoronar. O que aprendi nessa banda é que muito importante saberes o teu lugar, às vezes és o líder, outras vezes estás mais atrás, tens que aprender onde ficas.

Há alguns artistas específicos com os quais gostavas de colaborar?

Deixa ver… Fogo, claro que adorava fazer uma jam com o Matthew Bower, eu adoro-o, isso seria incrível, só tocar guitarra com aquele gajo. Hmm…a maior parte das pessoas com quem estou ansioso por colaborar são amigos, tirando esses heróis que sempre tive, como o Matthew Bower, o Ben Chasny dos Six Organs of Admittance…fico mais excitado ao conhecer novas pessoas com as quais posso criar uma amizade e fazer música. Recentemente conheci umas pessoas com as quais estou bastante interessado em começar algo, como uma banda do Reino Unido chamada Guttersnipe, não sei se já ouviste falar deles, mas são uma cena mesmo freak rock, rock maluco, um duo meio tipo Arab on Radar mas mais dementes, e a guitarrista tornou-se uma grande amiga minha e começamos a colaborar e a fazer música juntos. É difícil pensar nisto assim de repente…talvez tocar com os Black Witchery também fosse fixe (risos). Eu estou sempre aberto a fazer música com pessoal, só juntarmo-nos e tocar, e se a coisa funcionar…isso é que me deixa excitado.

Já vives em Bruxelas na Bélgica há vários anos: podes falar-nos da cena músical da cidade (e do país) e como ela te recebeu? Há algumas bandas ou músicos que queiras recomendar?

A cena tem mudado desde que me mudei para lá – sinto que em Bruxelas o underground hoje em dia cresceu, pelo menos o tipo de música pela qual me interesso e o tipo de sítios a que vou…em grande parte devido à enorme quantidade de Franceses que vieram viver em Bruxelas e que dão muita vida ao underground lá, sinto que se não fossem eles…ainda está lá a velha guarda que tem feito coisas desde sempre no underground experimental, no underground da música livre – gosto de lhe chamar isso porque é só uma área aberta para todos os tipos de música onde o estilo não é muito importante, mas sim a iniciativa de fazer música pelos teus próprios meios.

Por isso sim, no underground da música livre não há assim tantas associações e organizações genuinamente belgas a fazer coisas acontecer, mas felizmente há todo este pessoal estrangeiro a vir fazer coisas, abrir espaços…mas também há tantas coisas que ainda não conheço em Bruxelas, mesmo passados 15 anos lá, a cidade está cheia de surpresas e isso é uma coisa muito fixe sobre a Bélgica – não parece assim tão divertida à superfície, parece um sitio cinzentão, mas se fores procurar encontras todo o tipo de coisas incríveis a acontecer….

Posso sempre recomendar a Orphan Fairytale, é uma artista incrível de Antuérpia. Ela não anda a tocar assim tanto ultimamente mas ainda faz música, e toda a gente devia espreitar os discos dela porque são mesmo lindos e únicos, ela é um dos nomes grandes e importantes no underground Belga e vai sempre ser mencionada. Tipo, até estive na Peakaboo Records em Lisboa e eles tinham um disco dela. Também há uns Franceses a viver lá não sei há quanto tempo, mas são amigos meus, um deles é o Loto Retina e é assim um geniozinho, tem tipo 24, 25 anos mas é muito avançado, faz música digital abstracta maluca mas com imensa alma e com skills, e há um amigo dele, um Francês chamado Apulati Bien, ele faz música electrónica esquisita inspirada pelos primórdios do Jungle e do hip-hop do sul nos Estados Unidos, mas misturado com umas vibes malucas à Asmus Tietchens…a lista continua, a namorada do gajo, a Victoria, é uma artista sonora incrivel, faz umas peças de rádio mesmo fixes, e há outros gajos que tem uma label chamada Third Type Tapes, eles lançam beats e noise e organizam estas festas loucas, andam agora a trabalhar num sound system para poder viajar de um lado para o outro e se tudo correr bem também vou poder viajar com eles…em Gent há o Kohn, que também é uma figura importante na música electrónica Belga, o tipo já faz tanta coisa diferente…eu podia continuar, as coisas vão surgindo, mas deviam investigar, ficavam surpreendidos com a quantidade de coisas que acontecem lá.

A situação aqui em Portugal parece-me parecida, se não estiveres por cá não tens noção da quantidade de coisas que cá existem.

Sim, esta tour foi fantástica, esta é a ultima noite, mas uma coisa que me aborreceu um bocadinho foi não poder partilhar o palco com mais artistas Portugueses. Só no Porto – toquei lá duas vezes, um show a solo e um em colaboração com um percussionista, o João Pais Filipe e o Julius Gabriel, um saxofonista alemão que lá vive (nota do editor: os dois formam o duo Paisiel), e até gravamos esse concerto, a ideia é lança-lo se tudo correr bem, mas tirando essa noite e hoje não pude ver mais nenhuns artistas Portugueses, e sei que há muitos…Por isso sim, estou ansioso por ver o Ricardo (Martins) tocar bateria. E espero que a próxima vez que cá venha possa explorar mais, porque parece uma cena musical muito interessante, não só na música experimental como no que toca aos DJs…

É a primeira vez que venho cá a sério, estive cá há 5 anos em tour com Tav Exotic, a Orphan Fairytale e mais algumas pessoas, fizemos uma tour em que eramos 6 ou 7 pessoas num autocarro péssimo a vir directos da Bélgica, viemos cá e demos alguns concertos nas Caldas, no Porto, Lisboa, e mais alguns sitios….quando viajas com tanta gente parece que estás numa matilha sabes, estás numa família, mas agora que estou a viajar sozinho consigo perceber e aprender mais sobre o país. Espero conseguir ir ainda mais fundo para a próxima.

 

Como era a cena musical Venezuelana antes de te ires embora? Mantens-te em contacto com outros músicos por lá? Como é que te sentes em relação à situação actual do país?

Bem, eu sai bastante jovem, aos 15, por isso nessa altura não estava em nenhum tipo de cena, tinha uma bandinha e tocávamos na escola, em festas, coisas assim. Não estive muito envolvido quando lá estava mas depois quando me mudei para a Bélgica e comecei a lanças coisas de Bear Bones e a por música no MySpace descobri um tipo chamado Álvaro Partidas que fazia música noise, harsh noise, lá na Venezuela, e contactei-o logo. Eu tinha 16 anos e ele tinha ai uns 30 na altura por isso quando nos encontramos ele ficou logo tipo “meu, tu és um puto, mas que raio”, porque falávamos online e nos conhecemos quando eu costumava voltar muito à Venezuela no verão (infelizmente já não volto lá há 5 anos). Mas desde o momento em que nos conhecemos começamos a dar concertos juntos, e os mais memoráveis foram numa espécie de galeria de arte chamada “Organización Nelsón Garrido”. Esse gajo, o Nelsón Garrido, era um fotografo e tinha imensas fotos mesmo sangrentas de orgãos e coisa do género, acho que muito material dele foi usado por bandas de grindcore, mas o sitio era maravilhoso e era o único sitio onde podíamos tocar música noise e as pessoas gostavam, porque sempre que tocávamos em bares as pessoas ficavam mesmo zangadas e começavam a gritar “isto não é música, isto é poluição”…Lembro-me de tocar em bares de desporto e as pessoas ficavam sempre com um ar de “o que raio se está a passar aqui”, mas chateadas, para eles não era música…

Mas sim, essas foram as minhas únicas experiências com a cena musical na Venezuela. O Álvaro ainda lá está, falamos recentemente mas já não o fazíamos há anos…espero que ele venha à Europa e que possamos fazer uma tour juntos, ele tem lá outra banda, um trio noise com guitarras….mas sabes, a situação na Venezuela agora está tão incerta, caótica e catastrófica que não há mesmo tempo para este tipo de coisas, as pessoas estão ocupadas com a sua sobrevivência, ou então estão a sair do país. Já todos os meus amigos da minha terra saíram – eu fui o primeiro em 2003, mas a partir dai todos os anos sai mais alguém, e mais alguém, e no ano passado já tinham saído todos, acho que não tenho nenhum amigo de infância ainda a viver lá. Tenho lá família, a minha avó, os meus pais, por isso tenho mantido o contacto, mas já não vou lá há cinco anos…Acho que está na hora de voltar, sabes? Deixa ver o que acontece com toda a loucura que se está a passar por lá.

Quais são os próximos passos para Bear Bones, Lay Low? Tens música nova a caminho?

Sempre, mas sou muito lento a gravar e tenho dado muitos concertos…mas estou sempre a gravar, e quando acabo alguma coisa mando-a ao pessoal que me pede…mas acho que assim que voltar a casa tenho mesmo que acabar um split com o Black Zone Myth Chant, de França. Ele é um amigo meu, já nos conhecemos desde que ele tocava musica psicadélica de guitarra enquanto High Wolf, e finalmente vamos fazer um split juntos depois destes anos todos. Também tenho um EP ai a vir com uma música de para ai 15 minutos, mais um remix que alguém vai fazer, para uma nova editora de uns gajos em Offenbach que fazem festas chamadas Hotel International, chamada Ok Spirit.

Também tenho que acabar coisas de Tav Exotic quando voltar a casa, mas logo três dias depois vou em tour com os Jooklo Duo (tens que ir espreitar as coisas deles, eles são incríveis) e depois vamos fazer uma residência em Roterdão, num estúdio de sintetizadores louco que têm por lá…também tenho uma banda nova chamada Carcass Identity, que é mais techno, e vamos começar a dar concertos.

Por isso sim, ando sempre a fazer coisas, mas não tenho pressa de lançar discos ou fazer seja o que for, acho que as coisas saem quando têm que sair. Não vejo grande sentido, nos dias que correm, de ter esta pressão de “vais em tour, tens que ter um disco”  – já não estamos nos 60s, se quiser partilhar música posso po-la online de graça e chega às pessoas mais depressa, por isso os discos para mim têm que ser algo que vá durar… esse é o verdadeiro propósito dos discos, não algo para vender, mas algo que deixas para trás…os discos, especialmente o vinil, se se molharem ou ficarem bolorentos ainda ficam meio utilizáveis, só desaparecem com um desastre natural, mas a informação digital parece mais frágil e que pode desaparecer assim do nada…apesar de precisarmos de todos esses formatos. Mas sim, não tenho pressa, estou a fazer as coisas dia a dia.

 

 

Entrevista a Ricardo Martins

Tivemos a oportunidade de falar com o Ricardo Martins antes do seu concerto na ADAO no passado dia 9 de Fevereiro de 2019 sobre o seu primeiro trabalho a solo, “Furacão”, bem como o seu percurso passado e futuro na música Portuguesa e internacional.

(foto cortesia da Vera Marmelo)

O “Furacão” é a tua estreia a solo, e as músicas que o integram foram lançadas uma a uma ao longo de um ano na editora londrina Jeff. Como foi este processo, e o que te levou a esta aventura depois de tantos anos de música?

Na verdade isto começou em 2014, a partir de umas experiências que viviam muito de improvisação e que curiosamente começaram aqui no Barreiro, num concerto que dei por cá (nota do editor: no OUT.FEST 2019). Depois ficou-me assim o bichinho de fazer alguma coisa a solo, mas com tantas bandas e tanta coisa a acontecer foi difícil concretizar. Quando voltei de Barcelona (onde vivi uns anos) comecei a tocar outra vez com malta de cá, estava sempre a fazer musica e queria sempre a produzir, e às vezes o pessoal não conseguia ter a mesma disponibilidade de tempo, por isso eu dava por mim e ficava muitas horas no estúdio sem estar a partilhar esse momento de fazer música com outra pessoa, que é mais ou menos o que eu faço, mais do que tocar – nunca tive muito aquela onda de ir tocar sozinho e praticar, preferia ensaiar com pessoal todas as semanas. E então comecei a pensar em fazer uma coisa a solo, mas ao mesmo tempo tinha a certeza que não conseguia ter a disciplina para fazer um disco – acho que ainda estaria a acaba-lo agora se não tivesse arranjado essa forma de me “enganar”: fiz uma música por mês, lancei-as, e no final do ano tinha um 12 polegadas – foi mais ou menos isso o que aconteceu. O disco depois demorou um bocadinho mais a sair, mas foi por aí. E acabei por descobrir outras coisas nesta lógica de música a solo de que gosto e que até se calhar me mostrou que eu consigo fazer coisas a solo com uma disciplina que eu pensava que não era capaz de ter.

Como é que surgiu essa tua ligação com a Jeff?

O pessoal da Jeff é pessoal amigo, eles tinham este projecto e eu toquei nalguns concertos que eles organizavam em Londres, e quando surgiu esta ideia eles curtiram e quiseram estar envolvidos – não só com a edição mas também com os textos que vinham com as músicas todos os meses. Ganhámos ali equipa também, que era o que eu também queria, não me sentir isolado – apesar de ser uma cena a solo queria trabalhar sempre com outras pessoas.

Já levas uns bons 15 anos a fazer música de forma pública em Portugal – pensavas há 15 anos estar neste ponto? Imaginavas um panorama a nível nacional diferente do que agora temos?

Pá, eu acho que não imaginava nada… (risos) Para mim era um bocado aquela altura em que tu queres fazer música, queres aprender, queres fazer mais, uma coisa que sempre me aconteceu for nunca estar contente com nada, e querer fazer mais bandas diferentes, explorar novas linguagens… Foi um bocadinho isso, não havia objectivo nenhum, mas sabia que da forma que estava a sentir música na altura que não iria conseguir deixar de fazer música para fazer outra coisa qualquer. Mas também sempre achei que ia ter um bocadinho a lógica de ter dois planos paralelos a funcionar, porque também sinto ao mesmo tempo que não consigo fazer só música, entro demasiado na minha cabeça…. mas descobri também o design gráfico, fazer coisas com imagem, e acho que assim tenho duas coisas que vão equilibrando a balança.

Fazes ou fizeste parte de muitos e grandes nomes da música Portuguesa: Lobster, Adorno, I Had Plans, Cangarra, Jibóia, Pop Dell’Arte, Papaya, Bruxas / Cobras… Ao longo desse teu percurso, que momentos te marcaram particularmente (concertos, gravações, momentos na estrada, etc)?

Há montes de momentos – acima de tudo só faço música com pessoal de quem eu gosto, amigos, ou pessoal cujo trabalho admiro e os quais desafio para fazer qualquer coisa – começa tudo por aí. As tours marcaram-me muito e acho que me ensinaram muita coisa, havia uma altura que fazíamos duas, três por ano, e isso foi um ritmo brutal… mas é difícil particularizar um momento ou uma fase…acho que o início em qualquer projecto é super bonito porque estás a começar e a descobrir coisas, tens aquela inocência, fazes montes de coisas mal…às vezes tenho saudade de fazer aquelas coisas mal, de estar à procura e ver que não é por ali, tudo isso.

O que se segue para ti, musicalmente falando? Tencionas fazer mais música a solo no futuro próximo?

Há um sete polegadas a sair agora, para aí em Maio, e a lógica é ser o oposto do Furacão: o Furacão era bateria e ideofones, não usava tudo aquilo que estou a usar agora – pitch shifters, delays, modulares, synths… agora tenho essa vontade de embarcar um bocadinho por aí. Isso é o que vem agora – já está composto, só falta gravar. Também estou a escrever uma peça para oito baterias, que vai acontecer num festival em Junho. Trabalhar nessa lógica de escrever para oito pessoas era uma coisa que eu também já queria fazer há muito tempo, e espero que venham mais projectos desses, que é uma cena que me dá muita pica. E queria fazer mais projectos a solo, experimentar coisas com que não estou muito confortável… acho que a lógica de trabalhar a solo é um bocado essa, para mim trabalhar a solo é um pânico, enquanto quando eu estou a tocar em banda sinto-me à vontade, estás lá atrás, estás protegido de alguma forma. Tocar a solo não, é um terror, nos dias anteriores não dormes…tenho o pacote completo. Mas por outro lado, depois quando as coisas acabam sentes que ultrapassaste alguma coisa ou conquistaste algo que é só teu, e embora eu nunca queira deixar de tocar em banda, tenho essa vontade de fazer mais coisas e coisas diferentes. Eu estava a falar com um amigo meu com quem toquei em Barcelona e ele disse-me uma coisa que eu acho que é assim uma caricatura, mas que é: pior que tocar a solo e ensaiar a solo, só tocar com gente e ensaiar com gente, e embora eu não ponha as coisas nessa lógica sinto que embora tocar com gente seja assim um monstro, porque tens montes de coisas para perceber e aprender, é uma partilha que exige de ti, tocar a solo é um monstro diferente, és mais tu na tua cabeça. É uma luta fixe, é uma luta na mesma.

Falaste da utilização de sintetizadores no teu próximo disco – como é que os integras as eles e outras fontes sonoras no teu trabalho como baterista?

Eu estou sempre a tocar bateria, posso é tocar outras coisas ao mesmo tempo. Isto começou muito por usar uma SP404, um sampler que eu usava para entrar num mundo sonoro diferente enquanto tocava, soltar um sub-grave interessante, ou o que fosse, e isso também fez-me pensar doutra forma, fez-me tocar mais e experimentar com teclas. Acho que está mesmo na altura de tentar fazer isso mais e mais, e os concertos a solo também servem para isso, para experimentar coisas, acaba por ser um laboratório. Estou mais interessado em passar por essa experiência do que propriamente entregar uma coisa super polida e acabadinha. Tenho tido essa vontade de explorar, e há uma coisa que convém referir – eu comecei a fazer música para teatro há dois, três anos, e primeiro começava muito pela bateria, mas depois a certa altura comecei a produzir música gravada que depois era disparada, e essa já tem muitos sintetizadores, e arranjos para outros instrumentos que não a bateria, e por isso estava muito na onda de explorar isso na minha música a solo.