SPOT DA JUVENTUDE 2019

Está desvendada a programação do SPOT da Juventude nas Festas do Barreiro 2019. Dez dias com concertos que sentem o pulso às mais interessantes, contemporâneas e diversas manifestações alternativas pelo país.
 
Um trabalho conjunto da OUT.RA, ADAO, Gasoline, Hey Pachuco e da Câmara Municipal do Barreiro.
 
(Foto cortesia da Vera Marmelo)

Programa 

Sexta, 9 de Agosto – B Fachada  |  Pista  |  Cumbadélica

Sábado, 10 de Agosto – Allen Halloween  |  Minguito  |  Teresona | DJ Off Lero 999

Domingo, 11 de Agosto – D’Alva  |  Humana Taranja

Segunda, 12 de Agosto – Filii Nigrantium Infernalium  |  DJ Jó

Terça, 13 de Agosto – DJ Firmeza  |  Otavinho

Quarta, 14 de Agosto – Simply Rockers Sound System

Quinta, 15 de Agosto – Kyra Band |  Strada  |  Clemente

Sexta, 16 de Agosto – Djumbai Jazz  |  Sem Vaidade | Mar & Sol Soundsystem

Sábado, 17 de Agosto – Gasoline na Festa  |  Baleia Baleia Baleia  |  Lunnar Lhamas | Dekko

Domingo, 18 de Agosto – Shaka Lion  |  Espalha Brasas

Sexta, 9 de Agosto

22:00 – 03:00

B Fachada  |  Pista  |  Cumbadélica

Que melhor arranque para as festas que juntar no mesmo palco um dos grandes da nova canção portuguesa, uma das maiores sensações do rock Barreirense dos últimos tempos e uma das parelhas de DJs mais requisitados por festivais e clubes por esse país fora?

B Fachada

Um dos grandes responsáveis por meter toda uma nova geração de malta nova a escrever e cantar em português. Mestre da palavra e da canção, e já com 10 discos no lombo, Fachada traz ao Spot da Juventude o seu show mais festivo, como se quer.

Pista

Com a ginga cada vez mais afinadinha, este trio poderoso do Barreiro vem ao Spot com uma mão cheia de malhas novas mostrar uma vez mais porque é que guitarras podem e devem ser sinónimo de festa. Puxaaaa!

Cumbadélica

Cumbadélica é um projecto iniciado pelo Igor Ribeiro e pela Marie Lopes quando descobriram que partilhavam a mesma paixão por música étnica na pista de dança. Cumbadélica junta culturas e pessoas de diferentes regiões do mundo, criando uma atmosfera densa e um ambiente de ritual, onde o cosmos e a magia se dissolvem com a música. Vai dar certo!

Sábado, 10 de Agosto

22:00 – 03:00

Allen Halloween | Minguito | Teresona | DJ Off Lero 999

No segundo dia das festas sobem ao palco do Spot o grande patrão do rap Tuga, a sensação do Drill made in Barreiro e a realeza do rap português no feminino.

Allen Halloween

Palavras para quê? Cru, honesto directo ao assunto, Allen Halloween é a personificação do apogeu do movimento hip-hop português.

Minguito

Directamente do Azul no Alto do Seixalinho, a estrela do drill em Portugal. No face no case.

Teresona

Não dá pra falar a sério de rap português no feminino sem mencionar a realeza.

Sempre positiva e sem papas na língua, Teresona é rainha.

DJ Off Lero 999

DJ da Baixa da Banheira em promissor inicio de carreira e já no cartaz de muita festa e celebração Hip-Hop um pouco por toda a grande Lisboa.

 

Domingo, 11 de Agosto

22:00 – 01:00

D’Alva  |  Humana Taranja

Domingo na descontra. Com mais ou menos guitarras, a pulsão do indie rock em Portugal continua viva e com gente a fazer cada vez mais e melhor. Esta noite junta dois projectos em fases diferentes de maturidade: uns dão os primeiros passos, o outro já voa confiante pelos palcos de todo o país.

D’Alva

Presença assídua nos palcos alternativos dos grandes festivais nos últimos anos, falar na música feita em Portugal nos últimos tempos sem mencionar o projecto de Alex D’Alva Teixeira e Ben Monteiro tornou-se impossível.

Humana Taranja

Do laboratório da Hey Pachuco! para o palco do Spot, este sexteto de miúdos sweets de cá da terra têm talento e promessa para dar e vender.

 

Segunda, 12 de Agosto

22:00 – 01:00

Filii Nigrantium Infernalium  |  DJ Jó

Em sintonia com o programa do Palco das Marés, duas lendas das sonoridades pesadas nacionais. Má onda qb e impróprio para cardíacos, claro.

Filii Nigrantium Infernalium

Uma verdadeira instituição do heavy-metal português. Com quase três décadas de carreira sustentadas num líder carismático e em diversas gerações de músicos nacionais (gente do Barreiro incluída) Filli é uma banda de culto.

DJ Jó

Músico nos Theriomorphic mas também DJ e promotor, Jó é um especialista quando o peso é a matéria e uma das figuras centrais e mais estimadas do underground metaleiro nacional.

Terça, 13 de Agosto

22:00 – 01:00

DJ Firmeza  |  Otavinho

As tradições musicais africanas revistas e actualizadas pelos descendentes nascidos em Portugal – uma parte fundamental da música Portuguesa cosmopolita do séc. XXI.

 

DJ Firmeza

Foi no Bairro do Mocho que o kuduro angolano que misturou com  o house e Firmeza, com apenas 13 anos, estava lá pra ver e aprender. Em 2019 Firmeza é culto e simplesmente um dos reis dos géneros batida e afro-house em terras lusas e no estrangeiro.

Otavinho

Com apenas 17 anos mas já com muitos quilómetros de concertina nos dedos e uma agenda preenchida pela Grande Lisboa, Cabo Verde e na Europa das comunidades PALOP, Otavinho é do Lavradio e é um dos nomes a ter em conta quando se fala de Cotxi Pó.

 

Quarta, 14 de Agosto

22:00 – 03:00

Simply Rockers Sound System

Reservamos a véspera de feriado  para a já clássica noite de reggae no Spot da Juventude. Este ano com um spin diferente: gira-discos, microfone e caixas de graves ao bom estilo jamaicano e pela mão de quem sabe.

Simply Rockers Sound System

Um dos poucos sound systems de reggae e derivados a ter conta em conta em Portugal. Este colectivo de verdadeiros aficcionados da cultura musical jamaicana vai tomar conta do Spot das onze às três da matina. Bónus: trazem o seu próprio sistema de som, construido e quitado pelos próprios.

 

Quinta, 15 de Agosto

22:00 – 01:00

Kyra Band |  Strada  |  Clemente

Encontro marcado para sentir o pulso ao jovem talento Hip Hop local.

Kyra Band

Banda de Hip Hop, Rock e Indie proveniente do Barreiro liderada pelo jovem rapper Kira. É uma banda que tem como principal destaque a sua versatilidade nas composições e a sua energia contagiante em palco.

 

Strada

Rap no feminino made in Barreiro. Strada está ainda a começar mas já está aí a fazer um barulho.

 

Selecta Clemente

Reggae, Dancehall, Soca e Hip-Hop. Clemente mistura e navega por diferentes estilos com o gosto e o à vontade de quem sabe.

 

Sexta, 16 de Agosto

22:00 – 03:00

Djumbai Jazz  |  Sem Vaidade | Mar & Sol Soundsystem

Sexta-feira à maneira. Porque é a dançar que se faz a festa e, neste caso, é com danças de todos os continentes que se celebra a diversidade.

Djumbai Jazz

Maio Coopé fundou o Djumbai Jazz em 1999, em Lisboa, como um projeto de pesquisa intencionado a revisitar os ritmos sonâmbulizados da história da Guiné-Bissau. Centrado em sonoridades tradicionais guineenses como o Ngumbé, Brocxa e Djambadon, o repertório da banda traduz também a influência de outras sonoridades da África Ocidental.

 

Sem Vaidade

Grupo de música tradicional de Cabo Verde de mornas e coladeiras.

 

Mar & Sol Soundsystem

Antes, pelo meio e após os concertos, Sebastião Delerue at the controls. DJ e patrão da Mar & Sol, editora que se dedica à re-edição de discos do passado e edição de novos álbuns por compositores e intérpretes de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.

 

Sábado, 17 de Agosto

14:00 – 20:00  /  22:00 – 03:00

Gasoline na Festa  |  Baleia Baleia Baleia | Lunnar Lhamas | Dekko

Segundo sábado das festas é dia de campeonato de skate à tarde e música à noite. Um clássico do Spot: este é o dia da Gasoline na Festa!

Baleia Baleia Baleia

Rock afiado, punk vibrante e pausa stoner com bateria, baixo e voz e palavras mordazes e actuais – para trazer suor à mente e ideias ao corpo.

Lunnar Lhamas

Duo de André Neves e José Veiga, dois artistas barreirenses emergentes que aqui desenvolvem o seu amor pelas paisagens ambient e, ao mesmo tempo, pela propulsão rítmica – num projecto que tem vindo a prometer.

Dekko

A tomar conta do resto da noite, Deejay Dekko a rodar sonoridades de festa até às três.

 

Domingo, 18 de Agosto

22:00 – 01:00

Shaka Lion  |  Espalha Brasas

Porque nem só de música vive o Spot, fechamos com um performance para impressionar e com um DJ que dá gosto ver e ouvir.

Shaka Lion

Fala-se muito hoje em mistura e interculturalidade. Shaka Lion não é apenas um reflexo musical disso. É-o de corpo inteiro sem fronteiras entre o Brasil onde nasceu, o Barreiro onde cresceu e Lisboa, onde se move. Com um talento natural gigantesco para virar músicas e pistas do avesso, Shaka é um dos DJs do momento em Portugal, ponto final. Encerramento em grande!

 

Espalha Brasas

Espetáculo de rua na base do fogo e malabares.

 

9 a 18 de Agosto (excepto 15 e 17)

18:00 – 20:00

Sunsets no Spot da Juventude

Bons vibes sonoros à beira-rio com DJs convidados, todos os dias das Festas no SPOT da Juventude, das 18h-20h.

 

 

Quinta-feira: Sir Richard Bishop ao vivo na Biblioteca Municipal

É já nesta quinta-feira, dia 4, que o Barreiro recebe pela primeira vez o norte-americano Sir Richard Bishop, um dos mais únicos e influentes guitarristas da actualidade, músico que mistura nos seus dedos as músicas de todos os mundos conhecidos, as tradições mais obscuras e os cânones mais universais.

O concerto acontece pelas 22h30 na Biblioteca Municipal do Barreiro, com bilhetes à venda no Posto de Turismo (Estação fluvial) e Vitoriana’s Spot (Avenida Alfredo da Silva). Também aceitamos reservas para o mail info@outra.pt

Até já!

Entrevista a Violeta Azevedo

Violeta Azevedo é uma musica Lisboeta que constroi paisagens sonoras expansivas com a sua flauta processada. Tivemos o prazer de falar com ela antes da sua actuação na terceira Noite da Raposa sobre o seu trabalho a solo e a sua ligação com o seu instrumento, entre outras coisas.

Foto da Violeta Azevedo: Ana Viotti. Fotos do Formanta EMS 01 cortesia Violeta Azevedo.

Integras vários projectos musicais, incluindo Jasmim, haraem e as Savage Ohms. Podes falar-nos sobre como este teu trabalho a solo difere dos restantes projectos e nas abordagens e inspirações por detrás dele? Planeias gravar algum registo a solo no futuro próximo?

Sim, espero gravar ainda este ano. Já tenho algumas coisas gravadas, mas ainda não editei nada nem pus cá fora. Acho que por ser só eu a tocar fico muito free naquilo que quero fazer, uso bastantes pedais, mais do que nos outros projectos (embora nos outros projectos também tenha liberdade para isso), mas também é outro tipo de música. Quanto toco sozinha, isto é o que me sai naturalmente, enquanto que com outras pessoas essa interação leva a resultados diferentes.

Tens dado muitos concertos a solo, ultimamente?

Sim, dei um no Irreal, dei no Lounge, no Desterro, toquei nos anos do Salgado, há dois anos…tenho dado alguns por acaso, tem sido fixe, é bom para evoluir e experimentar coisas diferentes.

Houve algum que se destacasse para ti?

O do Irreal, até agora foi o meu preferido, foi onde eu estava mesmo mais à vontade e onde fiz aquilo que queria do inicio ao fim, sempre em controlo e com imenso gosto de estar a tocar…foi muito fixe. Eu inspiro-me sempre no espaço quando estou a tocar, faço uma peça própria para esse espaço.

Ia justamente perguntar-te isso – quando dás estes concertos a solo já vens com uma ideia do que vais fazer, ou é completamente improvisado?

É meio-meio: tenho uma composição, mas é a base – sei o que usar de efeitos para chegar ao som que quero, mas de resto o que eu toco é muito improvisado com base nisso.

O que te atrai para a flauta transversal enquanto instrumento? Tens algum “heroi” ou “heroina” da flauta de que gostes particularmente?

Hmm…gosto de alguns flautistas, mas acho que o que me inspira mais na flauta é mesmo o som e o que consigo fazer com os efeitos, e também uso a voz, que é muito parecida com a flauta de certa forma, tem uma interação similar com os pedais. Tenho uma heroina que é a Delia Derbyshire, mas ela não toca flauta…mas acho que tem a ver com o som, e as texturas. A flauta é o instrumento que eu domino mais, mais que qualquer outro instrumento, e consigo gerar texturas que me interessam quando a uso, cada vez mais.

Como é que chegaste à flauta? Foi algo que tivesses estudado na escola, ou algo do género?

A minha mãe quis que eu aprendesse um instrumento, e deu-me uma lista. Eu fechei os olhos e apontei para lá e calhou-me a flauta transversal, por isso eu comecei a aprende-la com 9 anos. Era um ensino clássico, que eu odiei, e desisti ai por volta dos 15. Só passado anos, ai aos 20, é que voltei a tocar flauta. Ai já foi a improvisar – tocar mais formalmente também gosto, mas antes nunca tinha experimentado improvisar e fazer música minha, por mim própria, não sabia o que era gostar de tocar flauta, sequer. Só depois.

Trabalhas com o Rui Antunes na Analog-Repair, que faz restauro e reparação de sintetizadores e outro material electronico. Qual foi o instrumento / material mais interessante que já vos foi parar às mãos?

Estivemos a arranjar um synth que compramos, um synth russo que era usado para filmes e que é o melhor synth que eu experimentei até hoje, é incrivel, chamado Formanta EMS 01. É um sintetizador grande, com um teclado de orgão em baixo e em cima uma parte de synth mono, com um filtro parecido com o do Polivoks mas melhor, pode fazer sons parecidos mas também faz mil outras coisas. Foi um amigo nosso que já nos tinha arranjado um Polivoks que nos perguntou se queriamos este quando o encontrou – vinha estragado, como costuma ser o caso, mas tratamos disso. Mas adoro todos os synths analógicos, cada um tem o seu interesse.

OUT.FEST 2019 – Primeiras confirmações

Aí estão as primeiras confirmações para a 16ª edição do OUT.FEST, a decorrer entre 3 e 5 de Outubro em múltiplos locais do Barreiro.

Os primeiros 100 passes globais ao preço especial de 16€ esgotaram num ápice, pelo que podem agora adquirir o vosso passe ao preço de 25€ online via BOL e nos balcões das lojas FNAC, Worten e CTT de todo o país.

Confiram abaixo alguns dos artistas que vão fazer da edição de 2019 mais um momento para a história, e descubram toda a informação sobre o festival em www.outfest.pt.

Sexta-feira há jazz na Biblioteca

É já nesta sexta-feira, dia 21, que a Biblioteca Municipal do Barreiro recebe um quarteto absolutamente abençoado, com músicos de primeira linha internacional a estrear trabalho colaborativo recente em Portugal.
 
Luís Lopes (guitarra), Fred Lonberg-Holm (violoncelo), Ingebrigt Häker Flaten (contrabaixo) e Gabriel Ferrandini (percussão) andam pelo país em concertos e gravações, com o fogo do free-jazz e da livre improvisação a espalhar-se por palcos e estúdios nacionais. Sexta-feira é a nossa vez de sentir a energia no ambiente próximo da biblioteca. A não perder!
 
Os bilhetes podem ser comprados no Posto de Turismo (estação fluvial) e no Vitoriana’s Spot (Av. Alfredo da Silva), ou reservados para o mail habitual info@outra.pt
 
Até já!

Sábado: Joana Guerra em concerto / Julho: Erwan Keravec na Igreja da Nª Srª do Rosário

Mais dois concertos anunciados hoje na bonança de outras músicas até Agosto no Barreiro: já este sábado, dia 15, a violoncelista, cantora, compositora e improvisadora Joana Guerra abrilhanta a inauguração da exposição Barreiro – Cidade dos Arquivos, a decorrer nos estúdios PADA na Baía do Tejo. O concerto é de entrada livre, com início às 18h30.

Dia 18 de Julho, ocasião imensamente especial por ser a primeira vez na história que programamos um concerto na belíssima Igreja da Nª Srª do Rosário, bem no centro da cidade. E que concerto! O bretão Erwan Keravec, mestre da gaita-de-foles escocesa, pára no Barreiro a caminho do FMM de Sines para um solo que promete ficar inscrito na memória.

Entretanto, não esquecer os concertos já anunciados de Luís Lopes, Fred Lonberg-Holm, Ingebrigt Haker-Flaten e Gabriel Ferrandini, no dia 21, e de Sir Richard Bishop, dia 4 de Julho. Reservas para qualquer um destes dois espectáculos podem ser feitas, como habitualmente, para info@outra.pt.

Até já!

OUT.FEST 2019: Datas anunciadas (e bilhetes à venda)

Está lançada a 16ª edição do OUT.FEST – Festival Internacional de Música Exploratória do Barreiro, a decorrer entre dias 3 e 5 de Outubro, como habitualmente em vários espaços da cidade (com novas salas em estreia prometida!), com particular destaque para o centro do Barreiro.

Enquanto não anunciamos os primeiros nomes, podem desde já adquirir o passe global de acesso a todos os dias do festival ao preço especialíssimo de 16€ e em quantidade limitada – 100 passes – aqui.

Marquem na agenda estes três dias de descoberta.

Lançamento da Cidade Som

Está a partir de hoje disponível para o mundo o site Cidade Som, local que agrega todos os sons recolhidos pela OUT.RA nos vários projectos de documentação sonora do Barreiro que tem vindo a desenvolver desde 2012.

Mata da Machada, antiga Zona Industrial, Avenida da Praia ou Alburrica são algumas das zonas que se podem lá escutar, tal como sons do imaginário colectivo como a sirene das oficinas da EMEF, o sino da Igreja de Nª Srª do Rosário, a Quinta do Braamcamp ou os mercados municipais e ainda sons “escondidos” nas estruturas que sustentam a rede de Água Pública do Concelho, entre muitos outros.

Sigam a Cidade Som também no Facebook e estejam a par dos novos Sons que iremos disponibilizando.

Boas escutas!

Entrevista a Ernesto González (Bear Bones, Lay Low)

Falamos com o Ernesto González (Bear Bones, Lay Low e outros projectos) antes do seu concerto na ADAO sobre a sua tour Portuguesa, as cenas musicais Belga e Venezuelana e muito mais. Leiam tudo abaixo:

Foto cortesia do Pedro Roque – Eyes of Madness

Olá Ernesto, estás em tour em Portugal já há algum tempo, como tem sido a tua experiência por cá até agora?

Sim, tenho estado em bastantes sítios desde o norte até aqui ao Barreiro, e tem sido bastante especial na verdade…eu não sabia bem o que esperar, mas tem mesmo excedido as minhas expectativas – tenho tocado em todo o tipo de espaços todas as noites, conhecido pessoas mesmo maravilhosas e mágicas, e os concertos tem sido constantemente bons, mesmo eu sendo bastante crítico do meu próprio trabalho…não sei, esta tour tem sido tipo: “Isto é fixe, não estou a fazer tantas asneiras, ou então estou a enganar-me da maneira certa…” e o pessoal tem gostado da música todas as noites, apesar da ideia que eu tinha dos públicos em Portugal serem mais reservados. Pelo menos em muitos dos sítios onde toco, como só sou eu a tocar, as pessoas chegam, estão meio silenciosas ao inicio e depois dependendo da situação podem começar a entrar mais na coisa e começar a dançar. Mas é engraçado, pensava sempre que não estavam a gostar muito, mas depois no fim era tudo bastante bem recebido. Por isso sim, isto tem sido uma tour memorável, graças à Ya Ya Yeah Music.

A tua música parece profundamente orgânica apesar de usares instrumentos electrónicos. Podes falar-nos um pouco sobre a história, inspiração e influências de Bear Bones, Lay Low?

Comecei este projecto talvez há 11 anos, ou até mais, tinha 16 anos…as primeiras gravações que fiz foram lançadas com este nome. Isto era suposto ser só um projecto de noise – quando tinha 16 anos gravei muita coisa sozinho inspirado pelo underground do noise e da música psicadélica que estava a acontecer no inicio de 2000, principalmente coisas dos Estados Unidos e da Europa. Foi quando cheguei à Europa, à Bélgica, desde a Venezuela que entrei mesmo nesta música underground, notei que toda a gente estava a fazer a sua própria cena e isso inspirou-me, e comecei a explorar várias coisas diferentes, um era uma espécie de projecto de folk psicadélico, o outro era suposto ser mais noise com guitarras…e Bear Bones era mesmo um projecto de harsh noise com coisas simples, e era o projecto de que eu gostava menos, na realidade (risos). Mas como era a única coisa que conseguia fazer ao vivo, acabei por começar a tocar com esse nome, e tudo o que andava a fazer na altura acabou por se fundir no que faço agora, no projecto Bear Bones, Lay Low.

Então o projecto continuou a evoluir – quanto mais ouço diferentes tipos de música mais eles me influenciam, e acabo por aplicar o que aprendi de outros discos e músicos no meu som. Um evento importante foi quando um amigo meu apareceu com um Korg MS-10, um sintetizador analógico, e isso mudou mesmo a minha vida – eu não sou um viciado em sintetizadores mas adoro-os, esses sons electrónicos…isso foi o ponto de viragem, e comecei a desenvolver mais a minha música em vez de ficar só no noise e no drone, que era o que fazia com as cenas de Bear Bones até ai 2009 e 2010, e comecei a fazer musica mais parecida com, tipo, música cósmica…ouvia coisas como Cluster, os primeiros discos de Tangerine Dream, toda essa música alemã, o Conrad Schnitzler deixou-me parvo, ainda me deixa parvo hoje em dia, é um dos artistas que eu mais admiro.

Eventualmente comecei a tocar com outro amigo meu chamado Mike, criamos uma banda juntos chamada Tav Exotic, e começamos a tocar coisas mais…vamos dizer música de dança, coisas electrónicas mas com ritmo, e eu também comecei a integrar isso com Bear Bones, por isso agora é um misto de musica electrónica cósmica e repetitiva com ritmos pesados e um som meio maximalista, tentar fazer sons que são mesmo gigantescos…inspiro-me muito nos Skullflower e Sunroof, essas bandas ainda me inspiram hoje em dia…Tudo isto evoluiu de aprender com outros discos, ouvir muita coisa, gosto sempre de descobrir musica nova…não sinto que tenha algo de particularmente original, só pego em coisas daqui e dali e faço uma colagem.

Ao longo dos anos tens feito parte de vários projectos, incluindo Silvester Anfang, Steenkiste / Hellvet e mais recentemente Tav Exotic (com o Weird Dust) e lançaste splits com vários artistas. O que procuras nestas colaborações e como é que o processo criativo difere da tua música a solo?

Suponho que quando começo a colaborar com outras pessoas que isso de alguma forma começa de uma ideia que tivemos juntos. Com os Tav Exotic, o Mik também tem muitas influências de música cósmica, temos gostos muito similares, mas a abordagem era suposto ser um pouco menos…barulhenta, queríamos fazer mais coisas com beats… Mas agora que penso nisso, nestas colaborações e projectos acaba tudo a ser o que sai naturalmente – quando o Mike e eu tocamos fazemos este tipo de coisa, música electrónica sequenciada e repetitiva, estás a ver? Quando toco com os meus amigos do Jooklo Duo, a Virginia e o David (temos um projecto de electrónica abstracta chamado YADER), o que fazemos são improvisações electrónicas, por isso vejo isto mais em termos de ficar a conhecer as pessoas, é como uma conversa que consigo ter com algumas pessoas. Tu não usas a mesma linguagem com toda a gente, não falas com os teus avós da mesma forma que falas com os teus amigos, e é a mesma coisa nestas colaborações, é um dialogo e um processo de ficar a conhecer pessoas, e o que sai é uma extensão natural desta comunicação, por isso embora possam haver ideias precisas sobre um som, tudo aquilo em que me tenho envolvido tem sido sempre bastante orgânico, digamos assim…

Estou sempre a tentar fazer música com outras pessoas e acho que a melhor forma de o fazer é quando são só duas pessoas, talvez três…quer dizer, nos Silvester Anfang éramos tantos que mais para o fim, por volta de 2012 (eu juntei-me à banda em 2006) começou a ser difícil – éramos sempre entre seis e oito, nove pessoas, e ao fim de algum tempo toda a gente começou a afastar-se, enquanto que se forem só duas pessoas dá para se fazerem coisas maravilhosas, é como um bom casal…(risos)

É difícil gerir uma banda grande, especialmente porque há sempre alguém que tem que tomar as rédeas, e nem toda a gente está ok com esse tipo de organização. Mas é um espelho de como a sociedade funciona, pode-se desenhar um paralelo ai, há algumas pessoas que querem tomar a iniciativa de criar uma estrutura, outras pessoas estão lá para questionar essa estrutura, outros podem ter uma função mais de apoio, e toda a gente encontra o seu próprio lugar para fazer as coisas funcionar, mas quando não sabes o teu lugar e começas a criticar o das outras pessoas é quando as coisas começam a ficas disfuncionais e acabam por se desmoronar. O que aprendi nessa banda é que muito importante saberes o teu lugar, às vezes és o líder, outras vezes estás mais atrás, tens que aprender onde ficas.

Há alguns artistas específicos com os quais gostavas de colaborar?

Deixa ver… Fogo, claro que adorava fazer uma jam com o Matthew Bower, eu adoro-o, isso seria incrível, só tocar guitarra com aquele gajo. Hmm…a maior parte das pessoas com quem estou ansioso por colaborar são amigos, tirando esses heróis que sempre tive, como o Matthew Bower, o Ben Chasny dos Six Organs of Admittance…fico mais excitado ao conhecer novas pessoas com as quais posso criar uma amizade e fazer música. Recentemente conheci umas pessoas com as quais estou bastante interessado em começar algo, como uma banda do Reino Unido chamada Guttersnipe, não sei se já ouviste falar deles, mas são uma cena mesmo freak rock, rock maluco, um duo meio tipo Arab on Radar mas mais dementes, e a guitarrista tornou-se uma grande amiga minha e começamos a colaborar e a fazer música juntos. É difícil pensar nisto assim de repente…talvez tocar com os Black Witchery também fosse fixe (risos). Eu estou sempre aberto a fazer música com pessoal, só juntarmo-nos e tocar, e se a coisa funcionar…isso é que me deixa excitado.

Já vives em Bruxelas na Bélgica há vários anos: podes falar-nos da cena músical da cidade (e do país) e como ela te recebeu? Há algumas bandas ou músicos que queiras recomendar?

A cena tem mudado desde que me mudei para lá – sinto que em Bruxelas o underground hoje em dia cresceu, pelo menos o tipo de música pela qual me interesso e o tipo de sítios a que vou…em grande parte devido à enorme quantidade de Franceses que vieram viver em Bruxelas e que dão muita vida ao underground lá, sinto que se não fossem eles…ainda está lá a velha guarda que tem feito coisas desde sempre no underground experimental, no underground da música livre – gosto de lhe chamar isso porque é só uma área aberta para todos os tipos de música onde o estilo não é muito importante, mas sim a iniciativa de fazer música pelos teus próprios meios.

Por isso sim, no underground da música livre não há assim tantas associações e organizações genuinamente belgas a fazer coisas acontecer, mas felizmente há todo este pessoal estrangeiro a vir fazer coisas, abrir espaços…mas também há tantas coisas que ainda não conheço em Bruxelas, mesmo passados 15 anos lá, a cidade está cheia de surpresas e isso é uma coisa muito fixe sobre a Bélgica – não parece assim tão divertida à superfície, parece um sitio cinzentão, mas se fores procurar encontras todo o tipo de coisas incríveis a acontecer….

Posso sempre recomendar a Orphan Fairytale, é uma artista incrível de Antuérpia. Ela não anda a tocar assim tanto ultimamente mas ainda faz música, e toda a gente devia espreitar os discos dela porque são mesmo lindos e únicos, ela é um dos nomes grandes e importantes no underground Belga e vai sempre ser mencionada. Tipo, até estive na Peakaboo Records em Lisboa e eles tinham um disco dela. Também há uns Franceses a viver lá não sei há quanto tempo, mas são amigos meus, um deles é o Loto Retina e é assim um geniozinho, tem tipo 24, 25 anos mas é muito avançado, faz música digital abstracta maluca mas com imensa alma e com skills, e há um amigo dele, um Francês chamado Apulati Bien, ele faz música electrónica esquisita inspirada pelos primórdios do Jungle e do hip-hop do sul nos Estados Unidos, mas misturado com umas vibes malucas à Asmus Tietchens…a lista continua, a namorada do gajo, a Victoria, é uma artista sonora incrivel, faz umas peças de rádio mesmo fixes, e há outros gajos que tem uma label chamada Third Type Tapes, eles lançam beats e noise e organizam estas festas loucas, andam agora a trabalhar num sound system para poder viajar de um lado para o outro e se tudo correr bem também vou poder viajar com eles…em Gent há o Kohn, que também é uma figura importante na música electrónica Belga, o tipo já faz tanta coisa diferente…eu podia continuar, as coisas vão surgindo, mas deviam investigar, ficavam surpreendidos com a quantidade de coisas que acontecem lá.

A situação aqui em Portugal parece-me parecida, se não estiveres por cá não tens noção da quantidade de coisas que cá existem.

Sim, esta tour foi fantástica, esta é a ultima noite, mas uma coisa que me aborreceu um bocadinho foi não poder partilhar o palco com mais artistas Portugueses. Só no Porto – toquei lá duas vezes, um show a solo e um em colaboração com um percussionista, o João Pais Filipe e o Julius Gabriel, um saxofonista alemão que lá vive (nota do editor: os dois formam o duo Paisiel), e até gravamos esse concerto, a ideia é lança-lo se tudo correr bem, mas tirando essa noite e hoje não pude ver mais nenhuns artistas Portugueses, e sei que há muitos…Por isso sim, estou ansioso por ver o Ricardo (Martins) tocar bateria. E espero que a próxima vez que cá venha possa explorar mais, porque parece uma cena musical muito interessante, não só na música experimental como no que toca aos DJs…

É a primeira vez que venho cá a sério, estive cá há 5 anos em tour com Tav Exotic, a Orphan Fairytale e mais algumas pessoas, fizemos uma tour em que eramos 6 ou 7 pessoas num autocarro péssimo a vir directos da Bélgica, viemos cá e demos alguns concertos nas Caldas, no Porto, Lisboa, e mais alguns sitios….quando viajas com tanta gente parece que estás numa matilha sabes, estás numa família, mas agora que estou a viajar sozinho consigo perceber e aprender mais sobre o país. Espero conseguir ir ainda mais fundo para a próxima.

 

Como era a cena musical Venezuelana antes de te ires embora? Mantens-te em contacto com outros músicos por lá? Como é que te sentes em relação à situação actual do país?

Bem, eu sai bastante jovem, aos 15, por isso nessa altura não estava em nenhum tipo de cena, tinha uma bandinha e tocávamos na escola, em festas, coisas assim. Não estive muito envolvido quando lá estava mas depois quando me mudei para a Bélgica e comecei a lanças coisas de Bear Bones e a por música no MySpace descobri um tipo chamado Álvaro Partidas que fazia música noise, harsh noise, lá na Venezuela, e contactei-o logo. Eu tinha 16 anos e ele tinha ai uns 30 na altura por isso quando nos encontramos ele ficou logo tipo “meu, tu és um puto, mas que raio”, porque falávamos online e nos conhecemos quando eu costumava voltar muito à Venezuela no verão (infelizmente já não volto lá há 5 anos). Mas desde o momento em que nos conhecemos começamos a dar concertos juntos, e os mais memoráveis foram numa espécie de galeria de arte chamada “Organización Nelsón Garrido”. Esse gajo, o Nelsón Garrido, era um fotografo e tinha imensas fotos mesmo sangrentas de orgãos e coisa do género, acho que muito material dele foi usado por bandas de grindcore, mas o sitio era maravilhoso e era o único sitio onde podíamos tocar música noise e as pessoas gostavam, porque sempre que tocávamos em bares as pessoas ficavam mesmo zangadas e começavam a gritar “isto não é música, isto é poluição”…Lembro-me de tocar em bares de desporto e as pessoas ficavam sempre com um ar de “o que raio se está a passar aqui”, mas chateadas, para eles não era música…

Mas sim, essas foram as minhas únicas experiências com a cena musical na Venezuela. O Álvaro ainda lá está, falamos recentemente mas já não o fazíamos há anos…espero que ele venha à Europa e que possamos fazer uma tour juntos, ele tem lá outra banda, um trio noise com guitarras….mas sabes, a situação na Venezuela agora está tão incerta, caótica e catastrófica que não há mesmo tempo para este tipo de coisas, as pessoas estão ocupadas com a sua sobrevivência, ou então estão a sair do país. Já todos os meus amigos da minha terra saíram – eu fui o primeiro em 2003, mas a partir dai todos os anos sai mais alguém, e mais alguém, e no ano passado já tinham saído todos, acho que não tenho nenhum amigo de infância ainda a viver lá. Tenho lá família, a minha avó, os meus pais, por isso tenho mantido o contacto, mas já não vou lá há cinco anos…Acho que está na hora de voltar, sabes? Deixa ver o que acontece com toda a loucura que se está a passar por lá.

Quais são os próximos passos para Bear Bones, Lay Low? Tens música nova a caminho?

Sempre, mas sou muito lento a gravar e tenho dado muitos concertos…mas estou sempre a gravar, e quando acabo alguma coisa mando-a ao pessoal que me pede…mas acho que assim que voltar a casa tenho mesmo que acabar um split com o Black Zone Myth Chant, de França. Ele é um amigo meu, já nos conhecemos desde que ele tocava musica psicadélica de guitarra enquanto High Wolf, e finalmente vamos fazer um split juntos depois destes anos todos. Também tenho um EP ai a vir com uma música de para ai 15 minutos, mais um remix que alguém vai fazer, para uma nova editora de uns gajos em Offenbach que fazem festas chamadas Hotel International, chamada Ok Spirit.

Também tenho que acabar coisas de Tav Exotic quando voltar a casa, mas logo três dias depois vou em tour com os Jooklo Duo (tens que ir espreitar as coisas deles, eles são incríveis) e depois vamos fazer uma residência em Roterdão, num estúdio de sintetizadores louco que têm por lá…também tenho uma banda nova chamada Carcass Identity, que é mais techno, e vamos começar a dar concertos.

Por isso sim, ando sempre a fazer coisas, mas não tenho pressa de lançar discos ou fazer seja o que for, acho que as coisas saem quando têm que sair. Não vejo grande sentido, nos dias que correm, de ter esta pressão de “vais em tour, tens que ter um disco”  – já não estamos nos 60s, se quiser partilhar música posso po-la online de graça e chega às pessoas mais depressa, por isso os discos para mim têm que ser algo que vá durar… esse é o verdadeiro propósito dos discos, não algo para vender, mas algo que deixas para trás…os discos, especialmente o vinil, se se molharem ou ficarem bolorentos ainda ficam meio utilizáveis, só desaparecem com um desastre natural, mas a informação digital parece mais frágil e que pode desaparecer assim do nada…apesar de precisarmos de todos esses formatos. Mas sim, não tenho pressa, estou a fazer as coisas dia a dia.

 

 

Entrevista a Ricardo Martins

Tivemos a oportunidade de falar com o Ricardo Martins antes do seu concerto na ADAO no passado dia 9 de Fevereiro de 2019 sobre o seu primeiro trabalho a solo, “Furacão”, bem como o seu percurso passado e futuro na música Portuguesa e internacional.

(foto cortesia da Vera Marmelo)

O “Furacão” é a tua estreia a solo, e as músicas que o integram foram lançadas uma a uma ao longo de um ano na editora londrina Jeff. Como foi este processo, e o que te levou a esta aventura depois de tantos anos de música?

Na verdade isto começou em 2014, a partir de umas experiências que viviam muito de improvisação e que curiosamente começaram aqui no Barreiro, num concerto que dei por cá (nota do editor: no OUT.FEST 2019). Depois ficou-me assim o bichinho de fazer alguma coisa a solo, mas com tantas bandas e tanta coisa a acontecer foi difícil concretizar. Quando voltei de Barcelona (onde vivi uns anos) comecei a tocar outra vez com malta de cá, estava sempre a fazer musica e queria sempre a produzir, e às vezes o pessoal não conseguia ter a mesma disponibilidade de tempo, por isso eu dava por mim e ficava muitas horas no estúdio sem estar a partilhar esse momento de fazer música com outra pessoa, que é mais ou menos o que eu faço, mais do que tocar – nunca tive muito aquela onda de ir tocar sozinho e praticar, preferia ensaiar com pessoal todas as semanas. E então comecei a pensar em fazer uma coisa a solo, mas ao mesmo tempo tinha a certeza que não conseguia ter a disciplina para fazer um disco – acho que ainda estaria a acaba-lo agora se não tivesse arranjado essa forma de me “enganar”: fiz uma música por mês, lancei-as, e no final do ano tinha um 12 polegadas – foi mais ou menos isso o que aconteceu. O disco depois demorou um bocadinho mais a sair, mas foi por aí. E acabei por descobrir outras coisas nesta lógica de música a solo de que gosto e que até se calhar me mostrou que eu consigo fazer coisas a solo com uma disciplina que eu pensava que não era capaz de ter.

Como é que surgiu essa tua ligação com a Jeff?

O pessoal da Jeff é pessoal amigo, eles tinham este projecto e eu toquei nalguns concertos que eles organizavam em Londres, e quando surgiu esta ideia eles curtiram e quiseram estar envolvidos – não só com a edição mas também com os textos que vinham com as músicas todos os meses. Ganhámos ali equipa também, que era o que eu também queria, não me sentir isolado – apesar de ser uma cena a solo queria trabalhar sempre com outras pessoas.

Já levas uns bons 15 anos a fazer música de forma pública em Portugal – pensavas há 15 anos estar neste ponto? Imaginavas um panorama a nível nacional diferente do que agora temos?

Pá, eu acho que não imaginava nada… (risos) Para mim era um bocado aquela altura em que tu queres fazer música, queres aprender, queres fazer mais, uma coisa que sempre me aconteceu for nunca estar contente com nada, e querer fazer mais bandas diferentes, explorar novas linguagens… Foi um bocadinho isso, não havia objectivo nenhum, mas sabia que da forma que estava a sentir música na altura que não iria conseguir deixar de fazer música para fazer outra coisa qualquer. Mas também sempre achei que ia ter um bocadinho a lógica de ter dois planos paralelos a funcionar, porque também sinto ao mesmo tempo que não consigo fazer só música, entro demasiado na minha cabeça…. mas descobri também o design gráfico, fazer coisas com imagem, e acho que assim tenho duas coisas que vão equilibrando a balança.

Fazes ou fizeste parte de muitos e grandes nomes da música Portuguesa: Lobster, Adorno, I Had Plans, Cangarra, Jibóia, Pop Dell’Arte, Papaya, Bruxas / Cobras… Ao longo desse teu percurso, que momentos te marcaram particularmente (concertos, gravações, momentos na estrada, etc)?

Há montes de momentos – acima de tudo só faço música com pessoal de quem eu gosto, amigos, ou pessoal cujo trabalho admiro e os quais desafio para fazer qualquer coisa – começa tudo por aí. As tours marcaram-me muito e acho que me ensinaram muita coisa, havia uma altura que fazíamos duas, três por ano, e isso foi um ritmo brutal… mas é difícil particularizar um momento ou uma fase…acho que o início em qualquer projecto é super bonito porque estás a começar e a descobrir coisas, tens aquela inocência, fazes montes de coisas mal…às vezes tenho saudade de fazer aquelas coisas mal, de estar à procura e ver que não é por ali, tudo isso.

O que se segue para ti, musicalmente falando? Tencionas fazer mais música a solo no futuro próximo?

Há um sete polegadas a sair agora, para aí em Maio, e a lógica é ser o oposto do Furacão: o Furacão era bateria e ideofones, não usava tudo aquilo que estou a usar agora – pitch shifters, delays, modulares, synths… agora tenho essa vontade de embarcar um bocadinho por aí. Isso é o que vem agora – já está composto, só falta gravar. Também estou a escrever uma peça para oito baterias, que vai acontecer num festival em Junho. Trabalhar nessa lógica de escrever para oito pessoas era uma coisa que eu também já queria fazer há muito tempo, e espero que venham mais projectos desses, que é uma cena que me dá muita pica. E queria fazer mais projectos a solo, experimentar coisas com que não estou muito confortável… acho que a lógica de trabalhar a solo é um bocado essa, para mim trabalhar a solo é um pânico, enquanto quando eu estou a tocar em banda sinto-me à vontade, estás lá atrás, estás protegido de alguma forma. Tocar a solo não, é um terror, nos dias anteriores não dormes…tenho o pacote completo. Mas por outro lado, depois quando as coisas acabam sentes que ultrapassaste alguma coisa ou conquistaste algo que é só teu, e embora eu nunca queira deixar de tocar em banda, tenho essa vontade de fazer mais coisas e coisas diferentes. Eu estava a falar com um amigo meu com quem toquei em Barcelona e ele disse-me uma coisa que eu acho que é assim uma caricatura, mas que é: pior que tocar a solo e ensaiar a solo, só tocar com gente e ensaiar com gente, e embora eu não ponha as coisas nessa lógica sinto que embora tocar com gente seja assim um monstro, porque tens montes de coisas para perceber e aprender, é uma partilha que exige de ti, tocar a solo é um monstro diferente, és mais tu na tua cabeça. É uma luta fixe, é uma luta na mesma.

Falaste da utilização de sintetizadores no teu próximo disco – como é que os integras as eles e outras fontes sonoras no teu trabalho como baterista?

Eu estou sempre a tocar bateria, posso é tocar outras coisas ao mesmo tempo. Isto começou muito por usar uma SP404, um sampler que eu usava para entrar num mundo sonoro diferente enquanto tocava, soltar um sub-grave interessante, ou o que fosse, e isso também fez-me pensar doutra forma, fez-me tocar mais e experimentar com teclas. Acho que está mesmo na altura de tentar fazer isso mais e mais, e os concertos a solo também servem para isso, para experimentar coisas, acaba por ser um laboratório. Estou mais interessado em passar por essa experiência do que propriamente entregar uma coisa super polida e acabadinha. Tenho tido essa vontade de explorar, e há uma coisa que convém referir – eu comecei a fazer música para teatro há dois, três anos, e primeiro começava muito pela bateria, mas depois a certa altura comecei a produzir música gravada que depois era disparada, e essa já tem muitos sintetizadores, e arranjos para outros instrumentos que não a bateria, e por isso estava muito na onda de explorar isso na minha música a solo.

 

Bolsa de Criação OUT.RA 2019: o projecto vencedor

Atribuída pelo segundo ano em regime de candidatura aberta, a Bolsa de Criação da OUT.RA – Associação Cultural a criadores barreirenses apoiará, este ano, a produção e apresentação de um novo álbum do músico Van Ayres.
 

Rafael “Van” Ayres, nascido em 1994 em Lisboa e residente no Barreiro desde 2017, é um artista multifacetado que aborda com profundidade a relação entre Som, Corpo e Performance.

O trabalho que desenvolverá será materializado num documento discográfico auto-editado, com apresentação pública no final do corrente ano, em local a definir.

Fiquem atentos!

De Maio a Julho: novos concertos confirmados no Barreiro

Novidades fresquinhas com o anúncio de mais três noites de celebração musical (a juntar aos concertos já confirmados) para os próximos meses pelo Barreiro.

Em Maio, e após a Noite da Raposa #3, voltamos a juntar um lote excelso de produtores electrónicos para um regresso ao belíssimo espaço A4 (lembram-se dos concertos de encerramento do OUT.FEST 2018?), desta vez com um apelo descarado à dança e os comandos entregues em exclusivo a artistas barreirenses – Shaka LionKikko b2b George Silver e mais talentos fresh: Há Festa no AQuatro.

Junho, que começa com Lonker See e Lunnar Lhamas, ganha agora uma noite com quatro nomes de talento incrível do jazz aventureiro internacional: aos lusos Luís Lopes e Gabriel Ferrandini, juntam-se o norte-americano Fred Lonberg-Holm e o norueguês Ingrebrigt Haker Flaten para uma noite de fogo na Biblioteca Municipal. 

Em Julho, ocasião solene por recebermos a estreia barreirense da lenda Sir Richard Bishop, guitarrista, compositor, co-fundador dos mitos Sun City Girls e da editora Sublime Frequencies, músico único e inimitável que carrega nas suas composições e improvisações todas as músicas de todos os mundos conhecidos e desconhecidos.

Bilhetes para todos os concertos podem ser reservados desde já para o mail info@outra.pt, ou adquiridos em breve nos sítios habituais.