Entrevista a Erwan Keravec

Erwan Keravec é um músico francês (Bretanha), cujo instrumento de eleição é a gaita-de-foles. Com ela, atravessa a tradição e abraça a modernidade e a improvisação, interpretando com regularidade os cancioneiros históricos do instrumento, peças escritas para si por diversos compositores contemporâneos, peças suas para teatro e dança ou improvisando com nomes fortes do jazz europeu. Actuou na Igreja da Nossa Senhora do Rosário no Barreiro em Julho de 2019, e depois do seu soundcheck aproveitamos para lhe fazer uma entrevista que agora partilhamos convosco.

Olá Erwan, podes falar-nos um pouco sobre o teu background enquanto músico e como escolheste a gaita de foles como o “teu” instrumento?

Eu cresci com a música tradicional. Os meus pais dançavam ao estilo tradicional da Bretanha, com música tradicional da Bretanha, e quando eu era uma criança os primeiros instrumentos que ouvi foram a gaita de foles e o bombarde, um tipo de oboé. Aprendi a tocar a gaita de foles no seu contexto tradicional, para marchas e danças. Um dia toquei com uma orquestra em Bern com gaitas de foles, tarolas e bombarde, e encontramo-nos com uma big band de jazz. Foi aí que improvisei com a gaita de foles pela primeira vez, e a partir dai decidi focar-me na música improvisada, apesar de o meu background ser mesmo a música tradicional.

Já experimentaste outros instrumentos da família da gaita de foles, de outras tradições musicais? Como os compararias à “tua” versão?

Há dois anos toquei num trio com duas outras gaitas de foles – uma da Algéria, outra do Irão, e a minha. Ao inicio a minha ideia era que iriamos os três tocar solos, e quando estávamos a ensaiar claro que experimentamos as gaitas de foles dos outros, e não foi muito fácil… (risos). A forma de tocar é diferente, embora o sistema de respiração e sopro seja o mesmo, claro, mas o jogo de dedos é totalmente diferente, por isso não é muito fácil tocar outros tipos de gaita de foles…foco-me na da Bretanha exclusivamente.

Tens estado em tour com o teu trio “Revolutionary Birds” (com o Wassim Halal e o Mounir Troudi). Como surgiu esta colaboração?

Os Revolutionary Birds nasceram de um desafio feito por dois festivais, o Irtijal em Beirute e o La Voix est Libre em Paris, e a ideia que os responsáveis desses festivais tiveram foi misturar música do Irão, do Líbano, da Tunísia de da Bretanha. Apesar de não ter começado como uma ideia nossa, após esses festivais nós os três decidimos pegar no projecto e ir em tour com ele. Para mim isto é diferente do que costumo fazer – quando toco a solo, duo ou trio, etc, as coisas partem sempre de ideias minhas, mas esta foi a primeira vez que toquei em algo que partisse de ideias de outros. Ao inicio fiquei um bocado a pensar: “Ok, que tipo de banda é esta?” Trabalhamos muito com a percussão logo desde o início do processo de composição, por isso a estrutura da nossa música é toda baseada na gaita de foles e na percussão, com as vozes a vir depois. Mas não é o que eu costumo fazer – normalmente pego numa ideia e desenvolvo-a do início ao fim, por isso isto é novo para mim.

Como tem sido recebidas as actuações do trio? Os públicos têm gostado?

Sim, em todos os tipos de contextos, até em festivais de rock. Não tocamos rock, mas também não é world music…não toco musica da Bretanha, só a gaita de foles da Bretanha, e o vocalista, o Mounir, também não canta música Tunisina – ele faz um pouco de Mawwal, que é musica improvisada da Tunísia, mas não são músicas inteiras, é um improviso que faz parte da música. Mas pronto, em festivais de música tradicional e de world music a recepção é boa, e em festivais de música nova também, por isso…é estranho. (risos)

Hoje vais trazer-nos o teu projecto “Urban Pipes” – podes explicar-nos o conceito que está por trás desse projecto?

No início este projecto era apenas de estúdio, e na altura não queria tocar esta música em concerto, queria apenas gravar. Tocar a gaita de foles a solo é a forma tradicional de usar o instrumento, e o que me fez lançar este projecto foi querer fazer música nova para a gaita de foles. Por isso peguei na forma tradicional deste instrumento, e depois anos depois, quando comecei a dar concertos, decidi tocar apenas uma peça e mexer-me muito durante a performance, mudar muito… Após lançar o meu segundo disco eu próprio já tinha mudado muito e composto mais e…o “Urban Pipes” é a minha concepção do que é a música de gaita de foles, o que eu consigo fazer com o instrumento.

Quando iniciei o projecto, queria fazer música sem qualquer referência à música tradicional. É possível a gaita de foles ser o seu próprio instrumento, e não só um instrumento exclusivamente usado em música tradicional? Como seria música nova para este instrumento? Era isso que eu buscava, mas não foi fácil porque foi justamente nessa tradição que eu cresci, por isso a minha forma de imaginar a música é naturalmente influenciada pela música tradicional. Mas agora é diferente, porque já trabalhei muito em música nova, em música contemporânea, o que me permite concepcionar a música de forma diferente, mas em 2007 não era esse o caso… a música tradicional da Bretanha é a música do campo, não da cidade, e quando comecei a explorar esta música nova queria ver o que seria a música urbana para a gaita de foles.

Já actuaste em igrejas?

Sim.

E gostaste da experiência?

Sim, claro!

Então porque?

Porque o som é muito alto, há muita reverberação. O som pode estar em qualquer lado, é possível tê-lo a vir da frente, de trás, as igrejas são óptimas para isso. Eu não gosto muito de tocar na rua porque não há paredes, o som não é reflectido, e numa igreja ele reflecte em todo o lado, por isso…adoro tocar em igrejas.

O que achaste desta igreja [Igreja da Nossa Senhora do Rosário] e do som dela?

Vai estar alto (risos)…vai estar alto. Mas isso é bom! (risos)

ERWAN KERAVEC

Erwan Keravec é um músico francês (Bretanha), cujo instrumento de eleição é a gaita-de-foles escocesa. Com ela, atravessa a tradição e abraça a modernidade e a improvisação, interpretando com regularidade os cancioneiros históricos do instrumento, peças escritas para si por diversos compositores contemporâneos, peças suas para teatro e dança ou improvisando com nomes fortes do jazz europeu.

A solo, é notável a forma como cria um espaço físico e sonoro de imersão total, radicalmente diferente de tudo o que possamos ter experienciado – impressionante, comovente e desafiador.

A caminho do Festival de Músicas do Mundo, em Sines, onde actuará com o seu trio ‘Revolutionary Birds’, pára no Barreiro para a primeira programação da OUT.RA na icónica Igreja da Nossa Senhora do Rosário. Um concerto a não perder.

 

Entrada: Donativo de 4€

Quinta-feira: Erwan Keravec na Igreja da N. Srª do Rosário

Aproximamo-nos a passos largos de duas estreias unidas num único evento imperdível nesta quinta-feira: a vinda ao Barreiro pela primeira vez do musico bretão Erwan Keravec armado da sua gaita-de-foles escocesa para realizar também pela primeira vez um concerto OUT.RA Música na belíssima Igreja da Nª Srª do Rosário no coração da cidade.

As portas da Igreja abrem para vos receber às 21:30, com a entrada a ser feita mediante um donativo de 4€. 

Sábado: Joana Guerra em concerto / Julho: Erwan Keravec na Igreja da Nª Srª do Rosário

Mais dois concertos anunciados hoje na bonança de outras músicas até Agosto no Barreiro: já este sábado, dia 15, a violoncelista, cantora, compositora e improvisadora Joana Guerra abrilhanta a inauguração da exposição Barreiro – Cidade dos Arquivos, a decorrer nos estúdios PADA na Baía do Tejo. O concerto é de entrada livre, com início às 18h30.

Dia 18 de Julho, ocasião imensamente especial por ser a primeira vez na história que programamos um concerto na belíssima Igreja da Nª Srª do Rosário, bem no centro da cidade. E que concerto! O bretão Erwan Keravec, mestre da gaita-de-foles escocesa, pára no Barreiro a caminho do FMM de Sines para um solo que promete ficar inscrito na memória.

Entretanto, não esquecer os concertos já anunciados de Luís Lopes, Fred Lonberg-Holm, Ingebrigt Haker-Flaten e Gabriel Ferrandini, no dia 21, e de Sir Richard Bishop, dia 4 de Julho. Reservas para qualquer um destes dois espectáculos podem ser feitas, como habitualmente, para info@outra.pt.

Até já!