Angélica Salvi – Entrevista

Angélica Salvi é uma harpista espanhola radicada no Porto há alguns anos, que tem erigido um trabalho exploratório no seu instrumento com uma variedade realmente heterogénea de colaboradores musicais e transdisciplinares, ainda que essencialmente focada em trabalho de improvisação. Para além de leccionar no Conservatório de Música local, já realizou trabalho como solista com a Orquestra Sinfónica da Casa da Música ou o celebrado Remix Ensemble.

Das suas colaborações com músicos icónicos como Han Bennink ou Evan Parker, do que lhe conhecemos em palco e de discos, o seu vocabulário vai sempre se adaptando – mantendo a identidade – de acordo com contexto e ideias, a nível de timbragens e efeitos. A ver o seu discurso solista, que já foi apresentado por diversas vezes pela Europa e Estados Unidos.

Tivemos a oportunidade de conversar com ela antes da sua actuação no OUT.FEST 2019, e convidamo-vos a ler o resultado dessa conversa abaixo.

Quando e porque é que te mudaste para Portugal? O que te fez ir para o Porto, especificamente?

Eu estava a morar na Holanda, onde estudava, e recebi um e-mail de uma professora a dizer que precisavam de alguém para dar aulas de harpa no Conservatório de Música do Porto e perguntou se eu tinha disponibilidade. Pensei, por que não? Assim, em Setembro de 2011 mudei-me para o Porto. Entretanto ia e vinha da Holanda uma vez por mês para acabar o mestrado que tinha começado.

Há quanto tempo começaste a tocar harpa?

Desde os meus 11 anos.

E o que é que te levou a apostar neste instrumento em particular?

Foi uma coincidência. Naquela altura, eu tinha começado a estudar piano. Eu fiz as provas para estudar no Conservatório e quando fui aceite escolhi piano como primeira opção e harpa como segunda (por ser o mais parecido). Não havia vagas para piano e fiquei em harpa. Gostei, apesar de na altura não conhecer bem o instrumento.

É o teu instrumento principal, mas houve alguma vez em que decidiste mudar de instrumento, ou houve algum outro que te tivesse cativado?

Eu tinha um piano em casa (a minha mãe estudou e tocava piano) e houve uma altura em que tocava piano e harpa, e para mim os dois instrumentos têm muito em comum. Embora goste muito de outros instrumentos para alem destes dois, nunca decidi explorá-los a sério.

Quando te começaste a interessar pela improvisação? Normalmente não é algo muito ensinado em escolas, especialmente para a harpa… houve algum momento, alguma ideia, artista ou concerto que te tenha despertado o interesse nesta abordagem à música?

Bem, eu sempre estive muito interessada na parte criativa artística em geral. Andei 3 anos nas Belas Artes,  gosto muito de desenhar e sempre gostei de inventar coisas novas. Na minha escola tive um método de ensino muito conservador (ainda bem que depois mudaram um pouco as coisas), portanto tive de procurar e explorar por mim. Procurava algum tipo de liberdade e a única alternativa que eu encontrei naquela altura (que fosse mais alem da música escrita) foi o Jazz. Tive algumas aulas de jazz, conheci uma professora de harpa que dava aulas de jazz na Universidade do Arizona e fui estudar com ela durante ano e meio. Depois continuei os meus estudos na Holanda no Conservatório de Música e na Dutch Impro Academy, onde conheci aos músicos da ICP Orchestra e da Brokken-Fabriek  (Amsterdão), desta forma descobri o mundo do free jazz.  Por tanto a improvisação faz parte do meu percurso já alguns anos.

Falei com o Peter Evans há alguns dias e ele disse-me que tem sempre dificuldade em ensinar às pessoas a forma “correta” de tocar música, e que o método de ensino dele não é tanto mostrar como se “deve” fazer algo, mas sim servir de guia para novas possibilidades musicais. Também tens algumas dessas dúvidas, sobre a melhor forma de ensinar música e harpa? Como é que guias os teus alunos nas suas aprendizagens?

Eu tenho sempre muitas dúvidas… nós, os professores, estamos sempre a aprender coisas novas com os alunos.  Falo sempre com muitos colegas e também com os meus alunos para experimentarmos diferentes métodos e fórmulas. Alguns dos meus alunos são muito jovens, por isso tenho de tentar encontrar um equilíbrio entre o que é a parte criativa e a parte teórica. Por um lado, eles têm de aprender a parte teórica (apesar de que as vezes isso seja um pouco repetitivo e monótono) para conseguir atingir uma certa técnica e posição de modo a dominar minimamente o instrumento. Às vezes é um pouco complicado porque requer muita paciência, consistência e rotina.  É uma espécie de arte marcial.

A procura desse equilíbrio, é que não é nada fácil. Também depende muito das pessoas, da personalidade de cada um, por isso é importante adaptar as aulas a cada aluno e perceber o que cada um gosta ou com o que se sente mais à vontade.

E depois pronto, a partir de aqui sim, concordo com Peter Evans: o professor deve servir como guia para novas possibilidades!

Tens alguns projectos para o futuro próximo que gostarias de divulgar?

Tenho vários projectos a acontecer, estão todos no meu website: www.angelicasalvi.net.

Tu já colaboraste com vários músicos Portugueses, como por exemplo, o Rafael Toral – sentes que haja alguma abordagem à música, particularmente improvisada, que seja única aqui em Portugal? Claro que toda a gente tem a sua personalidade, mas achas que há algo de especial na abordagem desta comunidade em Portugal?

Acho que cá em Portugal os artistas tem uma coisa muito fixe. Julgando pelo que vi, parece-me que os músicos que conheci tem todos projectos e colaborações muito diferentes, não fazem uma coisa só ou gostam de um estilo especifico, são muito abertos e dominam áreas muito diferentes que se complementam.  Esta forma abrangente e livre de abordar a arte, permite criar projectos colaborativos muito interessantes.

Tinha a sensação, sobretudo quando morava na Holanda, que nos últimos tempos há uma tendência para a especialização: na educação, nas artes… parece que um artista tem de ter um estilo muito específico predefinido, até com certas regras para conseguir encaixar em algum lado ou ter uma etiqueta (muitas editoras fazem pressão constante aos artistas com este tipo de coisas). Penso que isto é um caminho errado porque o resultado acaba por ficar formatado, globalizado e aborrecido… por isso sinto-me muito feliz neste país, penso que os artistas conservam e protegem muito a sua essência e acreditam mesmo em aquilo que fazem. Esta é a experiência que tive com o circulo de músicos que me adotaram.

Entrevista por: Tiago Franco

 

EM REDE, um festival online para seguir já este fim de semana

Vejam os três dias de EM REDE nos links abaixo!

Dia 1

Dia 2

Dia 3


EM REDE é um festival online que apresenta, ao longo de três dias, quase duas dezenas de concertos de músicos barreirenses cuja principal ocupação é, na sua esmagadora maioria, a criação artística.

É uma mostra da diversidade e riqueza do tecido cultural do Barreiro, com espaço para o jazz, para as canções, para o hip-hop, a electrónica e a experimentação, juntando nomes emergentes a outros já com um percurso consolidado e amplamente reconhecido.

A partir das suas casas, os músicos acederam ao repto da OUT.RA e do Município do Barreiro, parceiros na organização deste festival que dá um sinal à cidade e ao país que a Música não pode parar, que as Artes são, hoje como sempre, uma parte fundamental do nosso quotidiano.

EM REDE será emitido nos dias 1, 2 e 3 no canal youtube do Município do Barreiro, e acessível ao público de forma totalmente gratuita. Consultem abaixo os horários e alinhamentos diários.

Junte-se a nós, e considere apoiar os artistas de que mais gostar, adquirindo os seus discos, músicas e merchandise através dos links que colocamos para os seus canais online.

ALINHAMENTO

Dia 1 Maio

Apresentador: Ricardo Guerreiro
21h30. Tiago Sousa
22h00. Valu
22h30. Nicotine’s Orchestra
23h00. Minguito
23h30. Opus Pistorum
00h00. Van Ayres

Dia 2 Maio

Apresentadora: Joana Pimpista
21h30. Gil
22h00. Beatriz Nunes
22h30. Kyra
23h00. Nada Nada
23h30. San Fona
00h00. Berlau

Dia 3 Maio

Apresentadores: Joana Pimpista & Ricardo Guerreiro
16h30. George Silver
17h00. Catarina dos Santos
17h30. Fast Eddie Nelson
18h00. Jorge Moniz
18h30. Y Basics
19h00. My Noisy Twins

ARTISTAS


TIAGO SOUSA

Compositor e pianista mestre de uma linguagem sonora única e crescente, a sua história já possui vários capítulos e encarnações que passam por uma mão cheia de discos lançados por editoras nacionais e internacionais e muitos belos concertos, onde interpreta temas próprios e de compositores como Debussy, Arvo Part ou Federico Mompou.

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VALU

Autora de canções que evocam o choro e o dedilhar dos cantores de intervenção, Valu nasceu em 77, o ano do punk, e apresenta-nos música de poesia clara e acutilante que combina esse espírito com o de 74.

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NICOTINE’S ORCHESTRA

Um dos projectos a solo de Carlos Ramos, hoje em dia mais dedicado a compor em português e a apresentar-se como Suave. A sua orquestra de um homem só já editou sete discos e contou, ao longo dos tempos, com colaborações de músicos como Marcelo Camelo, Mallu Magalhães, Fred Ferreira, Alex Kassin entre outros. Neste concerto caseiro regressa, em versões despidas, a alguns dos seus temas favoritos.

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MINGUITO

Cidadão ilustre do “Azul”, no Alto do Seixalinho, o jovem Minguito é um pioneiro do “drill” em Portugal, tendo sido alvo da crescente atenção dos media mais especializados e atentos às novas músicas urbanas.

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OPUS PISTORUM

Tirando o seu nome de uma infâme novela de Henry Miller, este projecto do barreirense Helder Menor inspira-se na face mais instável da electrónica e no espírito DIY do punk rock. 

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VAN AYRES

Rafael “Van Ayres” é um artista Independente que mantém uma presença activa no campo cultural das artes cruzando som, artes plásticas, e performance. Fundou juntamente com Rodrigo Soromenho a Maternidade (Colectivo/Promotora de Músicos Independentes) e lançou recentemente o álbum “Final Spirit”.

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GIL

Gil é o nome de palco do Guilherme Firmino, o vocalista, escritor e compositor da banda “Humana Taranja”. Apresenta-se pela primeira vez a solo, com versões acústicas das músicas de sua banda.

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BEATRIZ NUNES

A Beatriz é uma das mais conhecidas figuras da música no Barreiro; é professora na “nossa” Escola de Jazz e, para além dos vários projectos com a comunidade do jazz do país é a actual vocalista dos Madredeus. Preparou-nos uma atuação muito especial em resposta ao desafio que lhe fizemos.

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KYRA

Artista independente que se expressa através do Hip-Hop, do Rap e do Rock. Em 4 anos apresentou nas plataformas digitais e ao vivo 3 obras: “Apollo 13, Tenebris e Lost files”.

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NADA NADA

O projecto a solo do Cláudio Fernandes, dos ilustres PISTA, que aqui dá uso aos seus sintetizadores e ao seu gosto pela dança, pelo calor e pela praia.

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SAN FONA

Trabalho quase secreto do Bruno Catarino, que é um discreto e talentoso baixista da cena musical do Barreiro nos últimos 20 anos.

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BERLAU

Nome que o Fernando Ramalho utiliza para agrupar as suas experimentações à guitarra, com muito espaço para o silêncio e para diálogos sonoros com alguns dos seus poetas favoritos, e que já mostrou em trabalhos inspirados em Maria Gabriela Llansol, Inês Lourenço ou Ana Hatherly.

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GEORGE SILVER

George Silver é o André Neves, um jovem artista barreirense que se desdobra pela performance, pela música e pela programação de concertos e é um dos rostos mais activos da Associação ADAO.

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CATARINA DOS SANTOS

A Catarina é uma talentosa artista que, após vários anos a estudar e a trabalhar pelos quatro cantos do mundo regressou ao Barreiro para dar aulas na Escola de Jazz e aprofundar a sua música, que mistura pózinhos de Portugal, de África, do Brasil ou de Nova Iorque. Traz-nos temas originais seus escritos em parceria com o percussionista andaluz Luati González.

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FAST EDDIE NELSON

Palavras para quê? É um artista português que não poderia ser mais americano – Fast Eddie Nelson, guitarrista e homem do blues e do rock n’ roll com muitos quilómetros de estrada, com presença assídua em festivais por essa europa fora.

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JORGE MONIZ

Outro dos músicos mais conhecidos do Barreiro, o Jorge é, para além de baterista, músico e professor ligado ao jazz, cada vez mais um interessante compositor para teatro, cinema e dança. 

Traz-nos uma peça que tem vindo a trabalhar nos últimos meses e que vamos ouvir pela primeira vez.

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Y BASICS

Y Basics é o José Bica, artista nascido e criado no Barreiro, com trabalho desenvolvido em desenho de som, captação de ambientes sonoros e sonoplastia para cinema, e um percurso na investigação académica ligada à música. Apresenta-nos uma peça que reflecte o seu interesse crescente pela composição clássica contemporânea.

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MY NOISY TWINS

O Jorge Machado é um compositor, produtor, percussionista e sonoplasta que compõe música para teatro, dança, vídeo-arte, performance e contos infantis, e colabora, como percussionista, com vários grupos, produtores e autores nacionais. Depois de se mudar para o Barreiro há cinco anos, foi pai de dois gémeos barulhentos que dão nome a este seu recente projecto a solo, com um álbum acabado de editar.

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UMA CO-PRODUÇÃO OUT.RA E CMB

BOLSA DE CRIAÇÃO OUT.RA 2020 – Três projectos seleccionados em resposta a tempos excepcionais

A OUT.RA – Associação Cultural tomou a decisão de, a título excepcional, seleccionar três projectos para atribuição da sua Bolsa de Criação Local para 2020, como forma de corresponder à necessidade sentida de apoiar de forma mais significativa a criação e o tecido artístico local face aos dias que se vivem.

A Bolsa é atribuída anualmente, desde 2016, a músicos e artistas de audiovisual residentes no Barreiro e áreas urbanas limítrofes, para a criação e apresentação de trabalhos originais. Para este ano, cada projecto contemplado receberá um apoio à concretização no valor de 1000€, com o compromisso da realização de pelo menos uma apresentação pública (quando tal for possível) do trabalho desenvolvido.

As candidaturas seleccionadas abrangem um espectro vasto da criação sonora e audiovisual: o cruzamento entre experimentação sonora e dança proposto pelo projecto de Sara Zita Correia e Marta Ramos, a instalação vídeo multi-canal de Camila Vale e a composição de três obras-satélite a uma ópera contemporânea de João Quinteiro.

Ao longo dos próximos meses a OUT.RA revelará mais detalhes sobre os projectos seleccionados e a sua evolução.

 

Sara Zita Correia & Marta Ramos


Marta Ramos (n. 1990) é designer gráfica, com formação em Design de Comunicação (ESAD Matosinhos) e em Performance (Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto); Sara Zita Correia (n. 1990) é licenciada em Dança, pela Escola Superior de Dança de Lisboa.

Camila Vale

Nascida em 1993 em Viana do Castelo e residente no Barreiro desde 2017, Camila Vale é realizadora e produtora de cinema, com formação em Artes Plásticas, Cinema (AR.CO Lisboa) e Escrita de Ficção (Universidade Lusófona).

João Quinteiro

Nascido em 1984 em Lisboa e residente de longo termo na Baixa da Banheira, João Quinteiro é licenciado em Composição (Universidade de Aveiro) e possui mestrado em Filosofia pela FCSH da Universidade Nova de Lisboa.

REMAIIN – Explorar as influências de outros continentes na música Europeia no novo projecto da OUT.RA

Em conjunto com outras três associações culturais europeias (SKAŅU MEŽS da Letónia, Wilde Westen da Bélgica, e Kontraklang da Alemanha) acabamos de lançar um novo projecto sob a alçada do programa Europa Criativa: o REMAIIN – Radical European Music and its Intercultural Nature.

Este projecto procura investigar as influências extra-europeias na música experimental, avant-garde e inovadora do passado e do presente através de concertos, palestras e outras apresentações públicas, bem como de divulgação de textos e materiais inéditos dedicados ao tema, o primeiro dos quais será um texto do improvisador, educador e escritor Joe Morris a publicar em breve.

É no contexto deste projecto que anunciamos também a abertura de uma Open Call para propostas musicais inovadoras que lidem com ou incorporem influências extra-europeias no campo da música experimental. O prazo final para a apresentação de propostas é 15 de Abril, devendo as mesmas ser enviadas através de um formulário disponível em https://www.remaiin.eu/, onde estão também disponíveis todas as informações sobre esta Open Call e sobre o projecto em si.

Tours de Föllakzoid e Green Milk From the Planet Orange canceladas

Inevitavelmente, quer os Föllakzoid quer os Green Milk From The Planet Orange viram-se forçados a cancelar as tours europeias nas quais os concertos programados para o Barreiro se inseriam.

Informamos que todos os que adquiriram bilhete podem pedir o reembolso via BOL. A OUT.RA sugere, no entanto, que considerem, caso vos seja possível, abdicar desse reembolso e contribuir para que o peso das várias despesas que já tivemos de assumir para estes espectáculos possa de alguma forma ser mitigado.

Obrigado a todos nesta altura tão difícil para todos e também para todos os agentes culturais que vivem na maior das incertezas face aos próximos meses.

Mantenham-se seguros e em casa.

HERÓIS INDIANOS ROMANOS AFRICANOS à porta fechada, com transmissão pela internet

Após deliberação em conjunto com a Associação NÓS sobre a situação actual, e tendo em consideração as recomendações da Organização Mundial de Saúde, a orientação publicada pela Direcção Geral de Saúde e as decisões já tomadas pelas autoridades locais e nacionais sobre a frequência de espaços públicos, é com tristeza que informamos que o concerto programado para este sábado não irá ter lugar nos moldes anunciados.

O trabalho já desenvolvido pelos músicos ao longo desta última semana de trabalho conjunto não irá no entanto ficar por apresentar, já que iremos proceder à realização do mesmo à porta fechada e transmiti-lo pela internet para todos os interessados à data e hora originalmente marcadas para o concerto (sábado 14 de Março às 17:00). O link para a visualização deste concerto será divulgado no próprio dia aqui no evento e página de Facebook da OUT.RA, pelo que vos recomendamos que estejam atentos ao mesmo – e que aproveitem para, estando em casa, testemunhar na mesma a beleza e a criatividade sem barreiras do trabalho destes músicos únicos.

Bolsa de Criação OUT.RA 2020: Candidaturas Abertas

Estão a partir de hoje abertas as candidaturas à Bolsa de Criação OUT.RA para 2020, dirigida a criadores sonoros residentes no Concelho do Barreiro e áreas urbanas limítrofes (Baixa da Banheira, Vale da Amoreira), com idade máxima de 35 anos.
 
Consultem abaixo todas as informações para candidatura. Esperamos pelos vossos projectos!
 

BOLSA DE CRIAÇÃO LOCAL OUT.RA 2020

Na sequência das Bolsas de Criação atribuídas aos artistas locais Tiago Sousa (2016), José Bica (2017), Hélder Menor, João Antunes e João Pinheiro (2018) e Rafael van Ayres (2019) a OUT.RA – Associação Cultural aceita, a partir deste momento, candidaturas de jovens artistas locais para o desenvolvimento de trabalho artístico relacionado com Música / Som / Artes Sonoras / Multimedia durante o ano de 2020..

Os critérios de selecção a ter em conta são:

  • Residência no Concelho do Barreiro ou áreas urbanas limítrofes (Baixa da Banheira, Vale da Amoreira)
  • Idade entre os 18 e os 35 anos;
  • Formação (superior ou técnica) em áreas artísticas, em particular em Música / Artes Sonoras / Multimédia / Etnomusicologia, etc ou, em alternativa, trabalho relevante desenvolvido em Música / Som que revele a procura de novas soluções e permita antever uma personalidade artística própria;
  • Conhecimento do trabalho desenvolvido pela Associação (OUT.FEST, programação regular, documentação sonora, etc) e adequação das propostas a este trabalho;
  • Qualidade conceptual do projecto criativo, grau de maturidade apresentado para o seu desenvolvimento, razoabilidade dos meios necessários aos espectáculos para sua apresentação.

O trabalho a desenvolver pelo(a) bolseiro(a) deve decorrer entre Abril e Dezembro de 2020, e contemplar pelo menos um momento de apresentação pública.

A bolsa a atribuir tem o valor de 1000€.

As candidaturas devem ser enviadas para o mail info@outra.pt até ao dia 14 de Março, e conter as seguintes informações:

  • Nome, CV e biografia artística
  • Descrição e calendarização da proposta
  • Material necessário para o seu desenvolvimento

Entrevista a Will Brooks (MC Dälek)

No último OUT.FEST tivemos o prazer e a honra de contar com os nova iorquinos Dälek, grupo de hip hop do mais aventureiro, no seu regresso a Portugal pela primeira vez em mais de uma década. Antes do concerto, falamos com Will Brooks (MC Dälek, o próprio) sobre a abordagem em estúdio do grupo, colaborações passadas e futuras, e os artistas que o inspiram.

Entrevista por Tiago Franco. Fotos por Pedro Roque.

Como foi a tour com os Anguish?

Tem sido incrível, é fenomenal como as coisas se alinharam e como conseguimos dar concertos, porque é difícil juntar toda a gente, todos temos projectos diferentes a acontecer, e por isso não é fácil marcar tours, então quando temos a oportunidade aproveitamos. O primeiro concerto que demos foi no Moers Festival e no dia anterior demos um concerto de Dälek em Austin no Texas, por isso voamos de Austin para Nova York, de lá para a Alemanha para dar esse concerto…Mas teve mesmo que ser, se não passávamos mais um mês sem tocar. Mas foi muito bom, desde o primeiro concerto que…sabíamos que tínhamos algo especial quando gravamos, mas logo no primeiro concerto deu para perceber que isto era mesmo especial em palco. Acho que fizemos oito ou nove actuações até agora e tem ficado melhor e melhor. É um bocado louco, porque logo no primeiro concerto nem ensaiamos, só fizemos aquilo acontecer de alguma forma, depois houve dois concertos em que o Mats [Gustafsson] não conseguiu participar, então arranjamos um substituto recomendado por ele, o Goran [Kajfes], que tocou trompete, ele chegou a conhecer as músicas e connosco a confiar que nos íamos safar de alguma maneira, e foi fenomenal, as coisas funcionaram muito bem. Tem sido um prazer, tocar com músicos deste calibre torna tudo mais fácil – tenho toda a confiança em toda a gente naquele palco e é fixe porque podemos levar as coisas para direções mais fora e mesmo assim sei que vai correr tudo bem. Por isso é fixe, é muito diferente das coisas de Dälek, porque as canções evoluem e mudam. Há momentos centrais nas músicas mas é muito improv, muito aberto, e é um prazer fazer parte disso.

Sei que fizeste o disco com o Hans Joachim Irmler…Como é que o conheceste a ele e à malta da Fire! Orchestra?

O Mats é outro que…já nos conhecemos há mais que uma década, acho que a primeira vez que tocamos juntos foi no Konfrontationen Festival em Nickelsdorf, um festival de free jazz na Austria, e demo-nos logo bem, ele era daqueles tipos com os quais sempre dissemos que queríamos trabalhar, mas os nossos calendários nunca se alinhavam e nunca deu para o fazer. Mas no verão em que gravamos o disco de Anguish conseguimos fazê-lo acontecer: Convidamo-lo para tocar saxofone com Dälek nuns quantos festivais (basicamente tínhamos duas semanas de concertos e uma semana livre no meio), e pensamos, em vez de ir para casa, era melhor irmos para um estúdio e ver o que saia daí. Por isso propusemos-lhe essa ideia e ele adorou, e eu fui imediatamente falar com o Joachim, porque também já queríamos fazer algo com ele outra vez e ele tem um bom estúdio na Alemanha, e ele estava completamente nessa. Depois o Mats sugeriu que trouxéssemos o baterista dele na Fire! Orchestra e foi perfeito, funcionou mesmo mesmo bem, era eu e o Mike de Dälek, os dois gajos da Fire! Orchestra e o Joachim…parece fora, mas correu tudo às mil maravilhas.

Já colaboraste com tantos artistas diferentes ao longo dos anos – o que é que te apela em trabalhar com artistas que as pessoas normalmente não associam ao hip hop?

Nunca quis saber de género, na realidade. Só quero saber da música, se é boa é boa, e ter músicos daquele calibre a sequer considerar trabalhar comigo é uma honra, por isso quando tenho a oportunidade de trabalhar com alguém que respeito agarro-a, porque a vida é limitada, estou a tentar fazer com que conte, ter tantos projectos e fazer tanta música boa quanto consiga, e há uma longa lista de pessoal com o qual ainda quero trabalhar, por isso…

Tens algumas colaborações futuras em mente?

Sim, há algumas coisas no forno das quais não posso falar ainda, e há uma lista de colaborações de sonho, claro. Adorava trabalhar com o Kevin Shields dos My Bloody Valentine, gostava de trabalhar com o Stephen O’Malley, a Björk também esteve sempre na minha lista…no que toca hip hop, gajos como o Ka…há tanta gente, tantos bons artistas por ai…mais uma vez, os géneros não interessam, o que interessa é: “Que tipo de arte é que criaste com outro músico?” Quando se vem de mundos completamente diferentes, encontrar um espaço em comum é o que torna a coisa especial.

Queria perguntar-te sobre os My Bloody Valentine, porque falas deles com frequência – podes contar-nos sobre a primeira vez que os ouviste e o que isso despertou em ti?

Na realidade só comecei a ouvi-los muito tarde, por volta da altura em que começamos os Dälek. Fui eu o o Oktopus a começar o grupo, acho que foi por volta de 95/96 que começamos a trabalhar juntos, e na altura ele vinha mais do punk, eu vinha mais do hip hop, obviamente, mas ao mesmo tempo ele tinha um gosto bastante variado, gostava de muito shoegaze, cenas alternativas, gostávamos ambos de muito jazz, eu gostava de salsa, ele gostava de metal…por isso ambos tínhamos um espaço musical em comum meio estranho, mas ao mesmo tempo havia muita coisa que nem eu nem ele conhecíamos muito bem. Ele gostava de hip hop old school mas tinha deixado de ouvir hip hop, gostava dos Public Enemy e coisas assim…

Na altura ele era só o engenheiro de som do meu projecto, ainda não tínhamos começado a banda, mas depois das sessões juntávamo-nos e ficávamos só a mostrar música um ao outro. Eu dizia-lhe “Tens que ouvir isto!” e mostrava-lhe o hip hop que estava a sair na altura, em 94/95/96, os discos solo dos Wu Tang, o Nas, as cenas Boom Bap todas, suponho que agora lhe chamam a era dourada do hip hop, mas na altura era só o que estava a acontecer, e ele estava a mostrar-me coisas como os All Natural Lemon And Lime Flavours, que até tinham uma ligação connosco. Andamos na escola com um desses gajos, o Josh Booth, que acabou por chegar a trabalhar também connosco, e foram eles a mostrar os MBV ao Oktopus. Ainda hoje me lembro desse momento, estavamos completamente bêbedos, ele pôs o Loveless a dar e foi como se se acendesse uma luz, fiquei tipo “Isso, mas que é isso? Eu quero fazer isto para o hip hop, como é que fazemos isto?” fez-me logo totalmente sentido, tudo naquele disco soava bem, a forma como as vozes eram um instrumento, como as guitarras faziam aquela parede de som, como o ruido era melódico, mesmo tudo acerca daquele disco era lindo para mim, aquele disco mudou tudo, foi um daqueles momentos em que fiquei tipo…Honestamente, para mim Dälek é só My Bloody Valentine, Public Enemy, KRS-One, talvez um pouco de Faust e de Velvet Underground, sabes, talvez um bocadinho de Rakim…essa é a formula que nos inspirou…

Tocamos num festival que curado pelo Thurston Moore, e a Deb Googe, a baixista dos MBV, tocava na banda dele, por isso tivemos a sorte de estar com ela e eu parecia um puto…e ela foi tão fofa e fixe connosco, disse-nos que curtia o que nós estávamos a fazer e eu disse-lhe que isso para mim era tudo, e depois quando os MBV tocaram em Nova Iorque ela convidou-me para o concerto e pude conhece-los, e fiquei outra vez – e normalmente nem sou esse tipo de pessoa – mas estava 100% em modo fã, pedi-lhes para assinarem os meus discos e tudo isso. Essa é a coisa linda acerca da música, há certas bandas que ressoam contigo, inspiram-te, e eles são definitivamente uma das bandas que acabou por redefinir o que eu achava que queria fazer. O KRS-One foi provavelmente quem começou isso, quando o ouvi percebi que era o que queria fazer da minha vida, os Public Enemy foram outro desses grupos, e sinto que os My Bloody Valentine foram o outro que me fez ficar tipo “Siiim, é isto!” quando os ouvi, sabes? Simplesmente incríveis.

No último disco, a forma como os samples são usados e a forma como a música acaba a soar lembra-me muito das técnicas usadas pelo Kevin Shields no estúdio, a forma como ele trabalha intensivamente para fazer tudo colar de uma forma completamente etérea, mas ao mesmo tempo brutal e in your face. Acho que fazem um ótimo trabalho em incorporar isso sem ser um rip-off

Obrigado. Sabes, é engraçado que sempre nos acusaram de samplar os My Bloody Valentine – Eu nunca samplei os MBV e nunca o irei fazer, há certos discos dos quais me parece errado tirar seja o que for tirando inspiração…não há necessidade de o fazer sequer, descobrimos uma forma de chegar onde queremos sem samplar nada, só criando as nossas próprias coisas.

Já mencionaste que a música contemporânea é muito interessante para ti. E como vês o hip hop contemporâneo?

Bem, acho que há muito hip hop contemporâneo que é inacreditável, apesar da minha definição de hip hop contemporâneo poder ser diferente da tua. As coisas que passam na radio para mim não são hip hop sabes, é pop. Eu até prefiro quando lhe chamam coisas como trap, mais vale que seja a sua própria cena, porque tem muito pouco a ver com a cultura do hip hop. É a sua própria cena e isso não tem mal nenhum. Acho que também há uma certa parte disso que é geracional, sinto que muitas das coisas mais recentes são para pessoal mais novo, sabes. Não é para mim – eu tenho 44 anos, as coisas não são escritas para mim nem deviam ser. E não há nada de errado com isso, não estou a falar mal dessa música, acho que a música pode existir por diferentes razões e isso é perfeitamente ok, mas chamar algo de hip hop….

Acho que há hip hop novo que é incrível, se ouvires o Roc Marciano, já falei do Ka, se ouvires Crimeapple, Brown13, há tanta coisa contemporânea a sair, ainda existe aquele hip hop grimy que eu adoro, há letristas fantásticos agora, há tanta coisa boa a acontecer…Não sei, eu tenho 44 mas odeio quando pessoas da minha idade começam a dizer que “Não há música boa hoje em dia”. Nah, tu é que paraste de ouvir, porque há sempre música boa, é só questão de ir procurá-la. Claro que também há imenso lixo, mas sempre foi assim….

Então fora do hip hop, que outra música contemporânea é que te tem excitado ultimamente?

Estou a tentar pensar, porque às vezes fico num daqueles moods em que ouço montes de cenas antigas…Há meses em que só ouço The Cure ou Joy Division (risos)…Tenho estado numa onda dessas ultimamente…

Adorei os últimos dois discos da Solange, achei que eram discos mesmo incríveis, falando de…suponho que lhe chamarias R&B contemporâneo, mas eu gosto só do que ela tem feito em geral, uma construção musical e letras mesmo boas, é experimental de certa forma, para música pop é bastante fora, o que é fixe…Importas-te que olhe para o meu Spotify para ver o que tenho andado a ouvir? Porque se não tenho uma branca…

Ah, o Sufjan Stevens, tenho ouvido demasiado o Carrie & Lowell, adoro esse disco. O novo dos Tool, já me esquecia disso…a cena louca dos dias de hoje é que há tantos discos a sair, quase um a seguir ao outro a seguir ao outro que é tipo…sobrecarga sensorial (risos). Há muita música boa neste mundo.

Há esta banda chamada Belong, não sei se os conheces, são meio shoegazy…Black Marble, ando obcecado com esse gajo, as cenas deles são incríveis. Falando de hip hop, o meu mano House Shoes e a label dele, Street Corner Music, ele tem lançado uns três ou quatro álbuns por ano, e tudo o que ele tem lançado é incrivelmente bom. É principalmente hip hop instrumental, mas há coisas incríveis lá.

Hmm…Iron & Wine…Midnight Owl…

Não pareces restringir-te de todo na música que ouves, quer seja mais ou menos pesada…

Nah meu, eu só gosto de música, se for boa é boa…Ah, os Space Echo são outros. Os Suuns…também são fantásticos…Ya, há montes de coisas.

Voltando aos clássicos de que falaste, qual foi o primeiro disco ou música de hip hop que te fez pensar fora da caixa, e ver as possibilidades do hip hop e da música em geral?

Provavelmente os Ultramagnetic MCs, porque foram os primeiros a ter uma produção mais fora. Acho que o Premier…é enganador, porque ouves a produção dele e ele faz-te achar que é simples, mas depois reparas que ele escolheu as peças mais simples que encaixam perfeitamente juntas, e isso é muito difícil de fazer…sinto que se tentares fazer um beat do Premier vais falhar, ele tem um ouvido para o que funciona, e apesar de ser muito minimal é surpreendentemente complexo a nível de estrutura, e acho que há algo de lindo nisso. É como se ele fosse completamente o nosso oposto, nós fazemos coisas em camadas densas, mas tenho tanto respeito pelo que ele faz no lado mais minimal do hip hop…é estranho, ele é o nosso oposto, mas mesmo assim é uma influencia, eu estudo o que ele faz porque para mim é lindo, é fantástico.

E claro, os Bomb Squad, a produção deles…a noção de layering no hip hop vem da Bomb Squad, se ouvires o “It Takes a Nation of Millions” ou o “Fear of a Black Planet”…

Sim, os Public Enemy estavam muito a frente…

Os Shocklees, a Bomb Squad em geral estava noutro planeta, mesmo, eram incríveis.

Falando sobre o vosso último disco [Endangered Philosophies], que filosofias é que vês em perigo hoje em dia?

Sabes, honestamente…sinto que qualquer tipo de pensamento está em perigo hoje em dia (risos). Nem sequer estava a tentar ir muito fundo no que toca a coisas especificas…sinto que o intelecto em geral está em perigo atualmente, todo o clima actual da sociedade faz parecer que se tiveres algum tipo de inteligência és uma espécie em vias de extinção…pelo menos é como me sinto agora.

O que é que achas que o vosso próximo disco vai abordar, isso é algo que tenhas considerado?

Não sei meu, é uma boa pergunta. Temos este concerto, depois um festival em Minneapolis, talvez alguns concertos no México, mas depois vamos voltar ao estúdio para montar o próximo disco a sério. Temos algumas peças em que temos trabalhado, mas quando trabalho num álbum gosto de o fazer como um todo, tentar ver como todas as peças encaixam e em que direção vamos, e o que vamos fazer a seguir. Para ser honesto contigo ainda não sei, não tenho a certeza…porque sempre tentei que os nossos discos fossem actuais mas sem estarem presos ao tempo deles, sabes, quero que seja sobre o agora mas não quero que se consiga logo dizer “Ah, este disco é desta altura”. É uma linha ténue em que quero tocar no que está a acontecer agora, não só no mundo mas também na minha vida, mas também pô-lo num contexto em que seja mais universal, intemporal, por isso não sei, não tenho bem a certeza para onde vou. Tenho algumas ideias, mas ainda tenho que as trabalhar. Sei que não vai ser um disco muito feliz…(risos)

Parece que as pessoas mais infelizes são de certa forma as menos loucas neste momento. Claro que é uma generalização estranha de ser fazer, mas parece que tanto do que é considerado lógico está completamente invertido hoje em dia…

Vivemos numa época interessante, é a melhor forma de pôr a coisa…Não sei, acho que não tenho nenhumas respostas, não sei para onde isto vai. Mas posso dizer que sou uma pessoa muito curiosa, por isso quero ver onde isto vai dar, seja bom ou mau. Não estou 100% convencido de nenhuma das direções, não acho que seja necessariamente tudo terrível…mas não sei, vamos ver o que acontece (risos).

Uma última pergunta já que falaste dos Cure, qual é o teu disco favorito deles? O que é que achas-

Fascination Street…Boys Don’t Cry…um desses dois. Quer dizer, adoro os hits todos deles, claro, mas o Fascination Street é um discaço.

Eles são outra daquelas bandas que parecem nunca se deixar prender por nenhum género…

Não, eles só seguiam em frente, é fantástico…qual era a música? Aquela dos dias, tu sabes do que estou a falar.

“In Between Days.”

Ya, essa música soa tão feliz, e eu fico tipo “Yo, isto não é nada The Cure”, e no entanto é totalmente The Cure, sabes? É incrível que a música vá totalmente contra tudo o que eles normalmente fazem e no entanto continua a soar a eles, e mesmo sendo uma música feliz acaba por soar meio melancólica…o que é fantástico, sabes?

Sim, as letras disso são qualquer coisa tipo “Ontem senti-me tão velho, senti que queria morrer”.

(risos)

Aquilo que se costuma dizer sobre os The Fall é meio redutor mas ao mesmo tempo é muito verdade e aplica-se a várias bandas: “Sempre diferentes, sempre iguais”. E pessoalmente acho que é o pico da criatividade artística quando fazes algo que faz com que as pessoas pensem “Yep, isto é deles”, como os The Cure e vocês conseguem fazer.

Fogo meu, quando me pões na mesma frase que os Cure e os Fall…obrigado! Nem sei se merecemos ser mencionados em conjunto, mas agradeço, porque isso são pesos pesados, mesmo. Mas sim, tudo o que tentamos fazer é a melhor música possível. É engraçado, ontem – esta é a primeira vez que estamos em Portugal nos últimos 10, 12 anos, qualquer coisa assim – e um puto veio ter connosco ontem dizer “Hey, já estou à espera há 12 anos para vos ver, não estava a espera que ainda tivessem essa energia toda”, e eu respondi-lhe “Pois, nem eu…” (risos).

Mas ainda tenho, ainda tenho essa fome e adoro todos os concertos, adoro actuar, fazer esta música, e o dia em que eu não goste disto é o dia em que deixo de o fazer, é a minha promessa, e o dia em que sinta que um disco não é bom o suficiente não o lanço, não o vou fazer só por fazer. Sei que já fazemos isto há muito tempo, especialmente o que eu e o Oktopus construímos juntos…antes da nossa pausa, quando voltei, disse-lhe “Hey, não vou lançar lixo, não vou fazer nada que deturpe o que fizemos no passado”. Sinto que a minha missão é pelo menos tentar fazer mais e melhor, e se conseguir continuar fazê-lo, vou fazê-lo.  Como disse, desde que esteja a sentir-me bem em palco e feliz com o que estou a fazer…porque isto é o que eu conheço, não conheço outra vida, vou estar cá enquanto me quiserem por cá, sabes? Mesmo a sério.

Muito obrigado.

A OUT.RA faz 11 anos, mas quem oferece as prendas somos nós

Foto por: Vera Marmelo
 
Hoje a OUT.RA completa 11 anos, mas quem dá as prendas somos nós! Confiram abaixo:

Mas não vamos ficar por aqui. Fiquem atentos às próximas semanas.

 

Ver eventos

Yann Gourdon na Biblioteca Municipal do Barreiro

A programação regular OUT.RA para 2020 arranca já na próxima semana com um concerto de YANN GOURDON no dia 17 (Sexta), na Biblioteca Municipal do Barreiro.

Compositor e artista sonoro francês, Yann Gourdon tem como instrumento de eleição a sanfona (aka hurdy-gurdy), a qual transportou das suas raízes populares para o domínio das atmosferas mais densas e hipnóticas através da ressonância própria do instrumento, com uma abordagem informada pela música tradicional de Auvergne aliada ao minimalismo que deixa uma marca inegável no seu trabalho com o trio FRANCE e como parte do colectivo francês La Nòvia, mas que brilha particularmente no seu trabalho a solo, jogando com as propriedades acústicas dos espaços onde se apresenta.

Os bilhetes podem ser reservados enviando um e-mail para o endereço do costume: info@outra.pt.

Até já!

2020 já mexe: FÖLLAKZOID em Abril no Barreiro

O próximo ano já mexe aqui pelo escritório da OUT.RA, com noites que se avizinham inesquecíveis a serem programadas para os primeiros meses de 2020.

Uma delas será no dia 2 de Abril, com o enormíssimo prazer que será acolher o início da tour europeia dos inigualáveis chilenos FÖLLAKZOID na ADAO, para a primeira apresentação por terras lusas do seu novíssimo, brilhante e hipnotizante albúm “I”, o quarto na discografia da banda, depois de terem tocado em Portugal, pela última vez, há já quatro anos. Nem vos passa pela cabeça o quão especial será – finalmente – termos esta banda no Barreiro. 

A primeira parte estará a cargo de um outro falante de castelhano, o espanhol ANTI S, fazedor de algumas das mais ruidosas canções da Península Ibérica com nada mais que uma guitarra e voz.

Podem desde já adquirir bilhetes (7€ público em geral / 3,5€ sub-25) para este concerto via BOL e lojas associadas (Fnac, Worten, CTT, etc).

Comprar bilhete

OUT.RA na FOME

No próximo sábado, dia 14, é lançado o IV número da revista FOME, um projecto de particular interesse alicerçado em dois conceitos primordiais – galeria em papel e underground acessível, num modelo de publicação que opera como veículo à exposição de trabalhos artísticos originais, sem excluir a matéria textual e a reflexão.

Para o seu IV número, desafiaram a OUT.RA a contar parte da sua história num suporte visual, e após aceitarmos o repto participamos com quatro páginas de colagens que mostram o nosso lado mais informal, alicerçado nas relações humanas e na vivência quotidiana dos espaços do Barreiro.

O lançamento tem lugar em Setúbal, na belíssima Casa da Avenida, e deixamos o convite a todos para aparecer e adquirir um exemplar.

Mais informações aqui.

Entretanto, relembramos que estão à venda no Posto de Turismo do Barreiro e na Locomotiva os bilhetes para a nossa última programação do ano – e que programação: os portuenses 10 000 Russos descem ao Barreiro para um concerto de apresentação do seu maravilhoso álbum “Kompromat”, acabado de editar e de rodar por mais de 50 concertos em terras europeias e americanas. A primeira parte está a cargo do Miguel Abras, a animação sonora é do Xamã Roque. Marquem o dia 20 de Dezembro no calendário!

Mais sobre o concerto aqui.