Estamos muito felizes por anunciar hoje para o Mundo um novo e ambicioso projecto, de nome PARTICULAR UNIVERSAL, que até final de 2023 decorrerá no mágico concelho de Castro Marim, bem no sudeste do país.
Com financiamento do programa Cultura do mecanismo EEA*, e parceiros como o Município de Castro Marim, a norueguesa NyMusikk e as associações lisboetas Teatro do Vestido e Filho Único, desenvolveremos diversas actividades de co-criação artística ligadas aos temas da identidade, da memória e da paisagem sonora na região, sendo de destacar, entre outras, a realização de duas dezenas de residências artísticas dirigidas a criadores portugueses, noruegueses e internacionais para o desenvolvimento e apresentação de obras de artes sonoras e novas músicas, bem como a criação de um arquivo sonoro, de um arquivo comunitário para as “Vozes da Memória” e a produção comunitária de performances teatrais em diálogo com os habitantes e o património imaterial do Concelho.
Já está online o site do projecto, a partir do qual, muito em breve, serão divulgados eventos e oportunidades para artistas de todo o mundo. Visitem-no e vão acompanhando as notícias através dos nossos canais habituais.
João Sarnadas, tcp Coelho Radioactivo, foi o responsável pela abertura do último dia do segundo momento do OUT.FEST 2021, com a apresentação de uma experiência de escuta profunda de música intimamente ligada à do seu trabalho de estreia em nome próprio, dois discos duplos de seu nome “The Hum”. Na SDUB “Os Franceses” pudemos ouvir duas horas de improviso electrónico rico em harmonias e texturas nas condições perfeitas para tal: deitados, de olhos fechados, a absorver o som.
Tivemos também a oportunidade de falar com o artista antes e depois do concerto, e é o resultado compilado dessas entrevistas que vos apresentamos abaixo.
Qual foi o teu primeiro contacto com música de longa duração minimal deste género?
Oláolá. Sempre gostei muito de músicas demoradas, não necessariamente em termos de duração da música mas mais no que toca à sua composição e também à utilização de sons mais contínuos. Nem que seja pelo simples facto de muitas vezes haver algum drama associado a músicas longas desse modo e esse drama ser algo com que eu me relaciono facilmente. Assim de repente os meus primeiros contactos com música de longa duração minimal, diria que aconteceram com artistas não muito duracionais ou minimais, as primeiras músicas que me lembro são a “Back to Schinzo” do Pascal Comelade e a “Stranger Intro” do Bill Frisell (Introdução para um disco da Marianne Faithfull) que eram músicas que ouvia bastante quando era miudo. O Pascal é um dos meus músicos preferidos de sempre, e felizmente tem discos que cheguem para se ouvir sempre coisas novas, só há coisa de uns 5 anos é que descobri os primeiros discos mais experimentais dele. A Stranger Intro é um loop de 30 segundos que eu ouvia em repeat, e que decidi fazer uma versão para este disco, se bem que quando a fiz não sabia necessariamente que ia fazer parte de um disco, só a quis experimentar tocar para ouvir o que poderia ser uma versão com mais de 30 segundos, acabou por ser a D1 M Bombarda Transmission. A nível de coisas mais intelectuais, acho que assim o primeiro músico minimal de longa duração em que colei foi o La Monte Young, depois possivelmente o concerto do Terry Riley com o Don Cherry em Köln. Mas não sei se foram essas as minhas inspirações para fazer este disco, até porque a longa duração foi mais um efeito da maneira como eu toco do que um ponto de partida, obviamente que são artistas de quem gosto portanto acabaram por influenciar as minhas melodias e o meu pensamento mas acho que a música acaba por ser um resultado de um número de influencias muito mais abrangente.
Podias falar um pouco sobre o equipamento que usaste neste álbum? Foi construído pela Inês Castanheira, que gere um workshop de sintetizadores DIY. Foi uma comissão ou foi-te entregue a ti com os 3 osciladores?
Sim, o instrumento que utilizei neste álbum, e que uso agora ao vivo, é um sintetizador simples com 3 osciladores e 3 switches de on/off feito pela Inês Castanheira. Felizmente tenho a sorte de partilhar não só a minha vida como casa com a Inês, o que faz com que tenha facilmente acesso às cenas que ela constrói, este em particular foi um dos primeiros que ela construiu, porque estava na altura a explorar o campo da construção de sintetizadores, e é assim simples precisamente por esse motivo. Começámos a usar este synth e outro num projecto que temos os dois chamado Well, e eventualmente comecei também a usa-lo em peças colectivas da Favela Discos como por exemplo a peça Desilusão Óptica. Foi um bocado com esse background que fui desenvolvendo a abordagem ao material que tenho neste disco, à base do uso deste sintetizador, da mesa de mistura, de loops e outros pedais de efeito.
Gravaste o disco em 2 dias, o que resultou em 8 horas de gravações, em que demoraste 3 anos a reduzir a 2 discos de 2 horas cada. Que métodos de condensação usaste e que desafios encontraste no cutting room?
Bem, na altura quando fiz essa sessão de gravação não estava já com ideia de fazer necessariamente um disco. Como disse em cima, simplesmente sentia que tinha chegado a uma maneira de tocar diferente do que fazia por exemplo com Coelho Radioactivo, e que queria gravar alguma coisa com essa “linguagem”. Na verdade sinto que o The Hum até acaba por ter algumas coisas de Coelho, creio que as melodias acabam por ter algo a ver com esse universo, assim como a utilização de loops que era uma coisa que fazia bastante ao vivo e quando tocava sozinho em casa. Na altura tinha ficado com a mesa do Nuno Loureiro em minha casa porque a tinha usado num concerto de Desilusão Óptica e aproveitei para fazer esses dois dias de gravações, que como disseste resultaram em 8 horas. Na verdade até foi mais de 8 horas, foram cerca de 11 horas, mas eu não costumo contar essas 3 horas extra porque não estavam fixes à partida. Basicamente o grande desafio foi perceber o que é que tinha em mãos, que creio que se dividia em dois problemas, primeiro o de reduzir as músicas de maneira a que tivessem uma duração minimamente aceitável para que fossem mais fáceis de perceber como uma música, e o segundo de perceber o que é que eram aquelas músicas, se eram três discos… se era um… se eram dois… Qual era o percurso / ordem que fazia sentido… Quais eram os modos das músicas etc… Eventualmente consegui simplificar a coisa em dois discos, um mais drone, outro mais ambient, ou um mais atonal, outro mais melódico, ou um mais nocturno outro mais diurno, mas ao longo desses três anos fui agrupando as músicas com conceitos bastante diferentes, que provavelmente não são tão claros mas que me ajudaram a perceber o que eram estas músicas.
Li algures que foste informado pela ‘harmonia única de cada cidade que viveste’, podias falar um bocado sobre isso? Vês algum cruzamento entre a tua música e a arquitectura?
Isso na verdade, apesar de ser inspirado em coisas que eu sinto em relação ao disco, ao processo e ao que eu andava a pensar na altura em que fiz o disco, é um bocado Mumbo-Jumbo de Press. Fico sempre um pouco na dúvida entre conceptualizar ou não a música que faço, normalmente não crio coisas previamente definidas por um conceito, a única coisa que me interessa na altura da gravação é a minha intuição, e se estou a gostar da música que estou a fazer. No entanto por outro lado, o pensamento do som é uma coisa que me interessa, e que acabo por fazer no meu dia a dia por vários motivos, seja simplesmente por ler coisas sobre música e som, seja por comunicar sobre o que faço a solo ou colectivamente com as pessoas com quem trabalho no dia a dia, como por exemplo com o resto da malta da Favela Discos quando desenvolvemos peças colectivas: obviamente que precisamos de verbalizar sobre o que queremos fazer, e eventualmente queiras conceptualizar ou não o que fazes acabas sempre por ter alguns pensamentos sobre o que é aquilo que estás a fazer. Nesse sentido uma coisa que me interessa, por exemplo, é a relação entre a ambiguidade e a audição profunda. Da mesma maneira que com uma audição profunda consegues descobrir melodias, ritmos, tons, etc na paisagem sonora de uma cidade, também consegues ir percebendo novas camadas sonoras no tipo de música que eu faço, por entre as melodias mais óbvias consegues perceber outras melodias, assim como as consegues distinguir no meio da massa sonora e do ruído. Nesse sentido acho que a relação com a paisagem sonora da cidade acaba por ser essa, a de descobrir alguma lógica musical no meio da massa sonora a que estamos expostos, entre carros, ventoinhas e turbinas, aquelas cenas barulhentas de ar condicionado, e todas as coisas que fazem o chão sonoro que por vezes nem nos apercebemos que está lá.
O fenómeno global do ’The Hum’, com relatos de pessoas quase perseguidas por frequências ultra baixas em zonas residenciais ou industriais, é considerado um som desagradável, que causa insónias e dores de cabeça. São os últimos efeitos que iria descrever ao ouvir o teu disco. O disco tenta redimir este tipo de som e pô-lo num contexto diferente?
Bem, em primeiro lugar obrigado pelo elogio. Agora, em relação ao fenómeno do The Hum, creio que ele é desagradável também porque é um som intruso, indesejado e permanente, mas não sei se num concerto de música experimental esse som não seria aceitável (risos). A minha ideia não é bem redimir o fenómeno, simplesmente acho que adoptei o nome assim como um termo mais abrangente, como disse em cima acho que o meu The Hum fala mais do som das cidades que não nós é perceptível imediatamente. O fenómeno do The Hum também não é audível por todas as pessoas, aparentemente parece haver pessoas que são mais sensíveis a esses “Hums” e outras que não são tanto. Ou seja não me interessou falar de um som violento que persegue as pessoas mas simplesmente de um som que só ouvimos quando despertamos para a sua existência ou algo assim. Interessa-me a ideia, mas não me interessa tanto a text-book definition do conceito, e como em relação à música, dos principais motivos pelo qual escolhi o nome foi por intuição, gostei da mística da ideia e pareceu-me um nome fixe. Para além disso também aproveitei este tema e título para uma banda desenhada, que foi editada pel’ O Panda Gordo em 2016 ou 2017, e na altura achei que seria fixe ligar as duas coisas por trabalharem um pouco a mesma ideia de maneiras muito diferentes.
Como achas que o disco e a música muda quando tocas ao vivo? Fizeste alguns ajustes para o concerto do OUT.FEST?
Bem eu na verdade não estou mesmo a tocar as músicas do disco, o que eu estou a fazer é utilizar os mesmos meios e técnicas para criar novas músicas. O disco foi criado em improvisação, que é o que faço ao vivo, sendo que ultimamente já tenho levado alguns loops iniciais gravados para não ser tão boring. Durante os ensaios ainda tentei replicar algumas das músicas dos discos, mas não gostei do resultado, por estar muito preocupado em tentar fazer que a música soasse igual ao disco acabava por fazer uma cópia foleira da música do disco, que nem soava 100% igual ao disco, nem era uma música tão interessante como as do disco. Portanto achei melhor simplesmente usar as técnicas que usei no disco para criar algo novo, que não é o que está no disco mas que de certa maneira faz parte daquilo que é o disco. Para o OUT.FEST a única coisa que fiz de especial foi escolher uma série de loops à partida para usar, mas a preparação do concerto foi toda muito caótica porque foi a primeira vez que usei a cenografia e foi assim tudo mesmo em cima da hora. Acho que assim o maior ajuste que fiz para o concerto foi mesmo a existência da cenografia da “cidade” ou como lhe quiserem chamar, era algo que eu já queria fazer desde o início e que ainda não tinha feito, e fiquei bastante contente com o resultado.
Já passaram quase dois meses, e estamos já nesta fase totalmente focados no OUT.FEST 2022 – 18ª edição do festival que está, portanto, prestes a entrar na maioridade -, mas lançámos esta semana um mini-documentário que recorda o que foi a segunda metade da edição de 2021 realizada em Outubro.
Com realização do Mário Jerónimo Negrão a partir de entrevistas, imagens e sons recolhidos pela equipa do festival e diversos colaboradores e amigos – a quem agradecemos -, é uma forma de celebrar e relembrar seis dias de escuta intensa, de reencontros muito aguardados e de novas e duradouras descobertas.
Na semana anterior ao momento de Outubro do OUT.FEST 2021, tivemos a oportunidade de conversar com Vasco Alves – gaiteiro de bancada d’Os Belenenses, membro de VA AA LR e investigador heróico da materialidade do som e da natureza dos fenómenos acústicos, que tem tido um percurso discreto mas sempre fascinante recorrendo a várias fontes e metodologias que passam pelo uso de rádios quitados, gravadores de fita, processamento de sinal, técnicas de síntese e – em tempos mais ou menos recentes – a gaita de foles.
Podes falar-me um pouco sobre o teu percurso com a gaita de fole? Como é que começaste a tocar e como é que a tua relação com o instrumento se desenvolveu ao longo do tempo?
Comecei a aprender a gaita de fole em 2014 no Centro Galego de Lisboa, e nos primeiros anos tive uma aprendizagem tradicional, mas sempre tive a vontade de usar o instrumento de uma forma talvez menos convencional, mais exploratória, mais próxima dos temas que me interessam, e isso foi algo que eu só consegui começar a fazer alguns anos após ter começado a tocar. Acho que foi há cerca de três anos e tal, talvez em 2018: comecei a preparar algumas peças que apesar de também incluírem algum material electrónico, trabalham fenômenos acústicos e a psicoacústica acima de tudo. Tento explorar sempre algum tipo de efeito nesse campo.
E o que é que te levou especificamente a este instrumento? Porque em 2014 já fazias música, certo?
Sim, já tocava há bastante tempo…eu tive duas experiências que foram algo surpreendentes, tanto que quando ocorreram eu nem pensava que fosse um dia aprender um instrumento. Uma foi um concerto do Paul Dunmall em Londres – ele está mais associado até ao jazz e ao improv como saxofonista, mas tem uma coleção pessoal de gaitas de fole de todo o mundo. Eu e um amigo convidamo-lo para um concerto que estávamos a organizar quando eu vivia lá, e ele teve uma actuação onde tocou com várias gaitas de fole ao longo da performance, e houve ali momentos incríveis, que eu não esperava, mesmo a nível material do som…quando a gaita era amplificada, se fechasses os olhos imaginavas que era um concerto de laptop, de música de computador…bem, havia elementos bastante surpreendentes, e depois quando voltei para Portugal, em 2014, acabei por ver um ou dois concertos em que o instrumento também era utilizado, já fora deste contexto, mas na altura decidi ir aprendê-lo, de uma forma um bocado espontânea. E pronto, gostei e continuei e neste momento é possivelmente o instrumento com que estou a trabalhar mais, apesar de também explorar temáticas parecidas às da gaita quando trabalho com electrónica.
Continuando nesse tópico, quando é que ganhaste o interesse em música eletroacústica? Houve algum momento específico no qual encontraste essa música e achaste que era por aí que ia seguir o teu percurso musical?
Não sei se consigo definir um momento em particular, penso que provavelmente também terá muito a ver com as coisas que fui ouvindo na adolescência, e que me levaram a ter algum interesse em explorar, e em seguir pelo lado mais exploratório da música, ou menos convencional, por assim dizer. Também nos anos da universidade, se não me engano, aprendi a fazer uns microfones de contacto e outras pequenas coisas (acho que até as primeiras gravações que fiz foi com esse material, ainda de uma forma muito naïve e muito intuitiva), e pronto, as coisas foram acontecendo, fui continuando a interessar-me também pela construção de instrumentos, pela exploração de materiais, e a coisa foi evoluindo por aí. Obviamente que as coisas em que estou interessado hoje em dia não são necessariamente as que estava interessado na altura, mas tem sido uma evolução, tem passado por várias fases, mas penso que há algo que as une.
Qual era então a música que ouvias na adolescência, que te levou para esses lados?
Bem… assim numa fase muito inicial da adolescência ouvia imenso Sonic Youth (e toda a cena musical em que se inseriam), possivelmente foi assim uma das primeiras vezes que vi instrumentos a serem utilizados de forma menos convencional. E agora voltando à pergunta de há bocado, realmente houve uma altura, quando descobri o trabalho do Christian Marclay, em que vi uma exposição dele e depois cheguei a ver alguns concertos e a ouvir algumas gravações, e penso que isso foi um momento que me marcou de alguma forma, também pela utilização do material que ele fazia, e pelo próprio som que era gerado pelas coisas que ele construía, os processos que ele explorava e que as peças dele tinham, foram tudo coisas que na altura me influenciaram bastante. Pouco depois descubro o Alvin Lucier, grande mestre. Há muitas outras coisas que também me têm vindo a influenciar, como o trabalho do Rafael Toral, o do Sei Miguel… Mas pronto, depois torna-se difícil enumerar influências especificas, tem sido muitas as coisas que me têm influenciado.
A relação que eu vejo entre todos esses músicos passa um bocado pelo que o Eddie Prévost diz e tenta ensinar, que é a ver um instrumento como algo para tocar “fora da caixa”, que é preciso ser um bocado exploratório e improvisador com os instrumentos. No teu website vi o rádio que tu tocaste, e pareceu-me familiar – estavas no workshop do Eddie Prévost [no OUT.FEST 2015]?
Sim, eu também costumava levar esse rádio para as workshops que ele organizava em Londres, que eram um encontro semanal de improvisação – todas as sextas-feiras à noite na cave de uma igreja, em que toda a gente podia aparecer e juntar-se, e durante uns dois anos eu ia lá com regularidade, e foi por isso que eu participei também no workshop no Barreiro, que vocês organizaram.
E o que é que essas workshops te ensinaram? Como é que te ajudaram a desenvolver o teu trabalho?
Acho que essas workshops na altura tiveram bastante impacto em mim, mas eu hoje em dia não me sinto assim tão próximo ou tão interessado naquilo que a improvisação livre é, que é basicamente naquilo em que o Eddie Prévost se foca. Os workshops na altura foram uma coisa incrível, não só a nível pessoal como a nível social, havia uma dinâmica que para mim era uma novidade e era bastante entusiasmante, a forma como as workshops decorriam e como as pessoas iam tocando… havia pequenas regras, mas havia muita abertura e muita fluidez e nunca ninguém dizia o que devias ou não fazer, e isso durante um tempo fascinou-me bastante. Entretanto acho que foi perdendo um pouco…não sei se me tornei menos naïve em relação a essa ideia, se me fui simplesmente interessando talvez mais por outros lados, por outras coisas…no entanto, também experienciei momentos incríveis lá, de músicos mesmo muito bons, e acho que a certa altura, na fase final do tempo em que frequentei essas workshops, ia lá mais para ver uma ou duas pessoas (o Seymour Wright por exemplo) cujo trabalho me interessava e fascinava, e os 5 ou 10 minutos que os ouvia a tocar valiam as horas que estava por lá…
Dizias-me então que os teus interesses começaram a mudar – consegues dizer qual é a parte da música que te interessa mais neste momento?
Bem, em relação à improvisação livre: eu penso que não é esse o ponto central do que me interessa mais hoje em dia. O meu trabalho, quer electrónico quer acústico sempre envolveu, materialmente, muita volatilidade e por isso a improvisação continua a ser algo muito importante para mim, mas gosto de trabalhar sobre alguns temas, sejam eles coisas que na realidade tenham vindo do trabalho com algum instrumento (no sentido mais lato), da “vida” que essa volatilidade e instabilidade possam gerar, mas também temas espaciais, da ligação do instrumento com o espaço, e tentar de alguma forma criar trabalho que se encaixe neste contexto. A improvisação é obviamente algo que está sempre presente, por que eu tenho estruturas, mas não tenho definido exactamente aquilo que vou fazer, há espaço para eu poder reagir às coisas da forma que me pareça mais acertada no momento. A própria gaita de fole, sendo um instrumento tão bruto, tão primitivo de certa forma, e se calhar as próprias limitações do instrumento, penso que são uma boa ferramenta para explorar este tipo de ideias, porque de certa forma eu acho que essa simplicidade e crueza depois permitem que também as outras coisas tenham alguma proeminência, e alguma importância, que sejam ouvidas e que sejam perceptíveis, e a gaita acaba por ser um pouco o trigger para esses eventos….
Isso leva-me a outra pergunta – eu noto na tua música, especialmente o teu trabalho mais recente, que há uma certa dualidade, entre o folclore, coisas bastante primordiais, com um ângulo mais tecnológico e mais maquinal. Não sei se é algo com que concordes…
Não é certamente algo intencional. As ferramentas que uso tendem muitas vezes a definir aquilo que eu faço. Apareceu-me a gaita de foles, e também outro tipo de coisas que tenho usado, e a perspectiva é mais do género, “Com este instrumento o que posso fazer, o que é que o instrumento me dá, como é que o consigo aplicar no que me interessa fazer sonoramente?” No concerto que vou apresentar no OUT.FEST o computador está a gerar simplesmente uma frequência, uma onda dente-de-serra (sawtooth) e tem um som muito parecido ao da gaita de fole, acaba por ser quase um segundo tocador, que depois gera o tal confronto de frequências…é um pouco difícil de definir, mas como já referi interessa-me a exploração de instabilidades no processo e nos mecanismos que vou construindo, eu tento fazer também um pouco isso na gaita de foles. Mas como disse não é uma decisão consciente, gosto de trabalhar com a crueza, interessa-me alguma secura nas coisas, nos materiais, e pronto, a partir daí parto para a construção musical, para desenvolver o trabalho que faço, mas na realidade para mim são tudo coisas que se encaixam mentalmente no mesmo sítio: estar a usar a gaita de foles ou o sintetizador ou um circuito construído ou um rádio, a finalidade para mim é a mesma, não há nenhum conceito por detrás disso.
Usas mesmo os instrumentos porque gostas do som…
Sim, e porque me interessa a própria crueza e a brutalidade de coisas como o ruído branco, do som da gaita de foles, que também é algo bastante simples, interesso-me a simplicidade no trabalho electrónico, mesmo muito… digamos que a ideia de economia, de fazer muito com pouco é algo que me interessa bastante e que eu tento ao máximo procurar nos processos e nas coisas que crio.
Queria perguntar-te sobre o trabalho que vais apresentar no OUT.FEST, o “Gaita Contra Computador”, que é um título que traz uma ideia de oposição, de combate quase…Tu mencionaste que há um tom do computador que é muito parecido com o da gaita de fole, podes falar-nos um pouco mais sobre esse trabalho?
O “Gaita Contra Computador” é o título de um CD que eu editei no ano passado, e sim, o trabalho assenta na criação de algumas peças que são relativamente curtas, algumas das quais influenciaram o nome do disco e envolvem a gaita usada sem amplificação num espaço, enquanto que o computador está a gerar uma frequência programada por mim que gera tons que se assemelham muito ao tom da gaita, e a ideia é que quando as frequências se cruzam no espaço criam-se determinados efeitos acústicos (batimentos, por exemplo)…A minha intenção é dar a ideia de que há um novo som a certa altura, a união entre os dois sons na qual a dado ponto deixas de conseguir perceber o que é o quê… Mas fundamentalmente interessa-me saber como os sons se cruzam no espaço, é como se tivesse basicamente uma outra pessoa ali a tocar comigo, mas quando exploras frequências muito, muito próximas e te moves no espaço, há pequenos efeitos que se geram, neste caso no espaço acústico, na sala do concerto.
Depois também vou possivelmente apresentar algumas peças acústicas, sem a utilização do computador, em que exploro a gaita de fole, os seus limites físicos, tento puxar assim a palheta para registos de som que não são propriamente os registos aos quais é suposto o instrumento chegar, à procura de falhas, e a explorar essas falhas e essa instabilidade. Depois há outra peça que envolve acrescentar um tubo à gaita de foles e apontar essa frequência para uns jarros que vão estar no chão, e explorar a frequência de ressonância dos jarros – quando aproximas o som da gaita dos jarros há uma nova frequência que surge, e é uma peça focada nessa interação…e é à volta destas ideias que vai ser o meu concerto – são peças que se assemelham de alguma forma ao que está no disco mas que estão em constante evolução, cada vez que as apresento ou ensaio elas vão sofrendo ajustes e vão mudando ao longo do tempo.
Até porque o próprio espaço influencia a forma como as peças soam – lembro-me por exemplo de termos tido por cá oErwan Keravec, que estava muito satisfeito com a reverberação e amplificação natural da igreja na qual tocou…Como tem sido a tua experiência a tocar em diferentes espaços, também sentes que tem um grande impacto na forma como tocas?
Claro, tem sempre bastante, não só nas peças acústicas mas também naquelas em que uso o computador… a ressonância do espaço é algo que favorece um pouco as peças, digo eu, um espaço muito seco possivelmente não funcionaria tão bem…possivelmente teria que pensar noutras coisas, mas sim, a acústica do espaço é algo bastante importante, que eu tenho que ter em conta sempre que estou a tocar, e neste caso já fui à biblioteca [Municipal do Barreiro] ver e experimentar tocar lá e isso acaba por informar um pouco aquilo que vou apresentar…
Estavas a falar há pouco de intensidade, e como isso te interessa muito. Eu queria perguntar-te sobre o “Estrada Longa” – eu estive a ouvi-lo há alguns dias e senti que tivesse algo próximo do motorik, não tanto na vertente rítmica do krautrock, mas como uma certa propulsão e transe, não de forma intensa mas a transmitir movimento, a deslocação de bicicleta…Que foi o que inspirou o “Estrada Longa”, a tua viagem de na N2 de bicicleta no meio da pandemia, certo? Podias falar um pouco sobre a tua viagem, e como isso influenciou o disco?
Sim, foi isso. Eu fiz a viagem sozinho de bicicleta, e quando o fiz não tinha planeado criar nada a partir daí, simplesmente comecei a andar e a ver imensos nomes de terras aos quais achava piada, e decidi no primeiro dia começar a gravar o nome dos sítios por onde ia passando. Quase todos, aqueles que me ia lembrando, mas também não fazia isso constantemente: primeiro passava uns quantos, gravava no telemóvel, depois ia andando e gravava outros, e cheguei ao final da viagem e tinha quase 150 nomes de terras, de Trás-os-Montes ao Algarve.
Na altura passei algum tempo a pensar como é que iria usar aquele material. As gravações foram feitas no telemóvel e muitas vezes a pedalar, e apesar de achar que tinham algum interesse não consegui propriamente encaixá-las, e pronto, achei que só com o material cru não teria tanto interesse (apesar de também me interessar esse aspecto). O que acabei por fazer foi pegar num par de sintetizadores que tinha em casa e que costumo usar, que basicamente permitem criar uma espécie de padrões com imensa instabilidade e volatilidade envolvida na forma como os sintetizadores estão ligados, há um aspecto cíclico da coisa, mas não linear de alguma forma, e eu pensei que se calhar as duas coisas se pudessem unir, e então criei outros padrões, para cada dia de viagem, e regravei os nomes das terras por onde passei a cada dia.
E foi assim que surgiu o disco – foi como falaste, há aquele aspecto cíclico dos sintetizadores, e procurei também passar alguma monotonia, interessou-me essa ideia dos dias longos, das estradas que nunca mais acabam, mas ao mesmo tempo estão em constante mutação…mas pronto, foi uma peça que surgiu e que teve aquele resultado final, o tal disco. Não sei bem se faz sentido dar-lhe seguimento ou não, mas esse trabalho ficou concluído ali, naquela peça, que às vezes penso que podia ter sido bastante mais longa: em vez de ter 50 minutos devia ter 4 horas, mas ficou assim…
A última pergunta se calhar é um bocadinho parva, mas: como é que foste tornar-te gaiteiro dos Belenenses?
(risos) A minha ligação ao Belenenses é familiar, o meu avô e bisavô eram ali de Belém, sou sócio desde que nasci, etc…O clube desceu para a última divisão recentemente, por causa dos conflitos com a B-SAD, e no primeiro jogo da sexta divisão eu decidi levar a gaita. Já tinha falado com alguns amigos que estavam ligados à claque, e comecei a tocar o hino do clube, começou toda a gente a cantar no estádio, e ao fim do dia já estavam vídeos no YouTube a ligar aquele momento a uma antiga tradição dos anos vinte, os quinze minutos à Belenenses – supostamente o clube naquela época fez uma série de remontadas em jogos muito importantes, onde viravam os jogos nos últimos 15 minutos, incluindo um específico contra o Benfica que ficou muito célebre. E assim durante muitos anos os sócios faziam imenso barulho nos últimos quinze minutos, já ouvi dizer que com apitos e panelas, e alguém fez essa colagem à tradição, por isso agora nos jogos, nos últimos 15 minutos, toco o hino e mais algumas músicas da claque (a Fúria Azul) na gaita de fole, e tornou-se num acontecimento nos jogos. Agora sinto assim aquela responsabilidade à qual não posso falhar, e todos os domingos estou lá com a gaita de fole, já somos dois gaiteiros na verdade…e pronto, a ligação da gaita ao Belenenses é essa.
Isso é muito fixe. Tu próprio não sabias dessa tradição, não é?
Sabia, o meu avô contou-me em criança, mas a tradição não era com a gaita, sabes, antigamente diz que se fazia muito barulho na bancada ou que se tocava um apito três vezes, mas entretanto aquilo morreu completamente, há livros dos anos 60 de gente ligada ao clube que dizia que os jogadores já não sabiam o que eram os 15 minutos à Belenenses…isto nos anos 60, e eu nos anos 90 ainda ouvi alguns apitos, mas era uma coisa praticamente esquecida, e agora voltou a ter algum significado, é engraçado.
Entrevista por Tiago Franco e Diogo Carneiro. Fotos por Pedro Roque (a primeira) e Nuno Bernardo (as restantes).
Depois de um OUT.FEST longo e intenso, regressamos à programação regular com música novíssima e cósmica do duo Soroastra (de Afonso Simões e do espanhol Borja Caro), numa das primeiras apresentações do seu magnífico disco “Olimpíadas de Pensamentos Acelerados“, e com o sempre único César Burago em solo de pequena percussão, finalmente de regresso ao Barreiro gorada esta apresentação originalmente planeada para a primavera de 2020.
Os concertos acontecem no Auditório da Biblioteca Municipal do Barreiro, no sábado 13 de novembro, a partir das 21h30. Os bilhetes, aos preços habituais, já podem ser comprados via outra.bol.pt
Analisadas as candidaturas à Bolsa de Criação OUT.RA para 2021, este ano superlativas em quantidade e qualidade, a OUT.RA decidiu seleccionar dois projectos de criação e apresentação.
André Neves [aka George Silver], músico barreirense com um percurso artístico em crescente ascensão, trabalhará um novo álbum (o seu segundo longa-duração) que contará com uma selecção diversa de convidados.
Vera Marques [aka Puçanga], artista multidisciplinar residente no Seixal (recorde-se que o âmbito geográfico da Bolsa foi alargado a alguns dos concelhos limítrofes ao Barreiro), desenvolverá um projecto de investigação e criação “vocalgráfica” através da realização de diversos círculos de vozes, que culminará também no lançamento de um registo discográfico.
A Bolsa de Criação Local é atribuída anualmente, desde 2016, a músicos e artistas de audiovisual residentes no Barreiro e áreas urbanas limítrofes, para a criação e apresentação de trabalhos originais. Para este ano, cada projecto contemplado receberá um apoio à concretização no valor de 1000€, com o compromisso da realização de pelo menos uma apresentação pública do trabalho desenvolvido.
Ao longo dos próximos meses a OUT.RA revelará mais detalhes sobre os projectos seleccionados e a sua evolução.
Enquanto aguardamos o regresso, nas condições possíveis, dos espectáculos ao vivo, temos desenvolvido muito trabalho de bastidores. E uma das novidades que temos andado ansiosos por partilhar é o novo lançamento dos AMM, a lendária instituição britânica da improvisação livre, cujo concerto em 2015 no Museu Industrial da Baía do Tejo, no âmbito da edição desse ano do OUT.FEST, vê agora a luz do dia através da editora Matchless, ela mesma um selo fundamental na compreensão histórica da música improvisada no planeta.
“INDÚSTRIA”, nome decidido pelo percussionista Edwin Prevost em homenagem à história do local do concerto, está já à venda através do site da Matchless. A edição é enriquecida por fotografias da Vera Marmelo e por vários textos, um deles escrito pelo co-director do OUT.FEST Rui Pedro Dâmaso.
Aproveitem para agarrar um pedaço da história dos AMM, da música improvisada e, claro, do Barreiro.
A série de concertos Kontraklang – o parceiro alemão do projecto REMAIIN, do qual a OUT.RA faz parte – foca-se na música para filmes do compositor Teiji Ito na sua primeira actividade promovida no contexto deste projecto. O filme da palestra/performance intitulada “The Cosmic Music of Teiji Ito”, criada por Michiko Ogawa e Manuel Pessoa de Lima, será publicado online no dia 15 de Março.
Os inovadores filmes experimentais de Maya Deren e Marie Menken gozam de um merecido estatuto de culto entre os conhecedores de cinema. Ainda assim a música desses filmes é essencialmente desconhecida pelo público em geral, apesar de ser um componente essencial dos mesmos. Originalmente concebida como um concerto no qual as obras de Teiji Ito seriam apresentadas pela primeira vez ao vivo em Berlim em conjunto com os filmes respectivos, esta palestra/performance será agora apresentada pelos seus autores, Michiko Ogawa e Manuel Pessoa de Lima, na forma de um filme disponibilizado online gratuitamente. Nele, os dois artistas interlaçam vários aspectos do trabalho de Ito, Deren e Menken com notas biográficas e detalhes de fundo sobre a criação destes filmes e da sua música, bem como a sua influência na arte experimental do meio do século XX para criar uma colagem associativa.
Os principais pontos de referência desta obra são quatro filmes e as suas bandas-sonoras (da autoria de Teiji Ito): “Meshes of the Afternoon” e “The Very Eye of Night” de Maya Deren, bem como “Dwightiana” e “Bagatelle for WIllard Maas” de Marie Menken. A música destes filmes foi originalmente concebida por Ito na forma de “pautas auditivas”: o compositor gravou todos os instrumentos por si só em fita, tendo depois sobreposto as gravações para criar a peça final, em vez de criar uma partitura e gravar um conjunto a tocar a mesma. Ito reuniu influencias musicais de vários géneros, práticas e estilos, incluindo o gagaku japonês, a guitarra do flamenco, a música folk dos Andes e a música clássica ocidental. Estas bandas-sonoras foram transcritas de ouvido como parte da investigação de Michiko Ogawa, tornando-as pela primeira vez acessíveis a uma exploração artística mais profunda.
O filme “The Cosmic Music of Teiji Ito” deverá ser lançado pelo site da Kontraklang e nas suas redes sociais no dia 15 de Março de 2021, sendo depois disponibilizada online gratuitamente.
Esta apresentação artística faz parte do projecto REMAIIN, uma iniciativa de dois anos que junta quatro festivais Europeus (no qual o OUT.FEST se inclui) com um interesse na investigação das influencias culturais da música de origem não-Europeia na música experimental, avant-garde e inovadora do passado e do presente. Este projecto é co-financiado pelo programa “Europa Criativa” da União Europeia.
Erwan Keravec é um músico francês (Bretanha), cujo instrumento de eleição é a gaita-de-foles. Com ela, atravessa a tradição e abraça a modernidade e a improvisação, interpretando com regularidade os cancioneiros históricos do instrumento, peças escritas para si por diversos compositores contemporâneos, peças suas para teatro e dança ou improvisando com nomes fortes do jazz europeu. Actuou na Igreja da Nossa Senhora do Rosário no Barreiro em Julho de 2019, e depois do seu soundcheck aproveitamos para lhe fazer uma entrevista que agora partilhamos convosco.
Olá Erwan, podes falar-nos um pouco sobre o teu background enquanto músico e como escolheste a gaita de foles como o “teu” instrumento?
Eu cresci com a música tradicional. Os meus pais dançavam ao estilo tradicional da Bretanha, com música tradicional da Bretanha, e quando eu era uma criança os primeiros instrumentos que ouvi foram a gaita de foles e o bombarde, um tipo de oboé. Aprendi a tocar a gaita de foles no seu contexto tradicional, para marchas e danças. Um dia toquei com uma orquestra em Bern com gaitas de foles, tarolas e bombarde, e encontramo-nos com uma big band de jazz. Foi aí que improvisei com a gaita de foles pela primeira vez, e a partir dai decidi focar-me na música improvisada, apesar de o meu background ser mesmo a música tradicional.
Já experimentaste outros instrumentos da família da gaita de foles, de outras tradições musicais? Como os compararias à “tua” versão?
Há dois anos toquei num trio com duas outras gaitas de foles – uma da Algéria, outra do Irão, e a minha. Ao inicio a minha ideia era que iriamos os três tocar solos, e quando estávamos a ensaiar claro que experimentamos as gaitas de foles dos outros, e não foi muito fácil… (risos). A forma de tocar é diferente, embora o sistema de respiração e sopro seja o mesmo, claro, mas o jogo de dedos é totalmente diferente, por isso não é muito fácil tocar outros tipos de gaita de foles…foco-me na da Bretanha exclusivamente.
Tens estado em tour com o teu trio “Revolutionary Birds” (com o Wassim Halal e o Mounir Troudi). Como surgiu esta colaboração?
Os Revolutionary Birds nasceram de um desafio feito por dois festivais, o Irtijal em Beirute e o La Voix est Libre em Paris, e a ideia que os responsáveis desses festivais tiveram foi misturar música do Irão, do Líbano, da Tunísia de da Bretanha. Apesar de não ter começado como uma ideia nossa, após esses festivais nós os três decidimos pegar no projecto e ir em tour com ele. Para mim isto é diferente do que costumo fazer – quando toco a solo, duo ou trio, etc, as coisas partem sempre de ideias minhas, mas esta foi a primeira vez que toquei em algo que partisse de ideias de outros. Ao inicio fiquei um bocado a pensar: “Ok, que tipo de banda é esta?” Trabalhamos muito com a percussão logo desde o início do processo de composição, por isso a estrutura da nossa música é toda baseada na gaita de foles e na percussão, com as vozes a vir depois. Mas não é o que eu costumo fazer – normalmente pego numa ideia e desenvolvo-a do início ao fim, por isso isto é novo para mim.
Como tem sido recebidas as actuações do trio? Os públicos têm gostado?
Sim, em todos os tipos de contextos, até em festivais de rock. Não tocamos rock, mas também não é world music…não toco musica da Bretanha, só a gaita de foles da Bretanha, e o vocalista, o Mounir, também não canta música Tunisina – ele faz um pouco de Mawwal, que é musica improvisada da Tunísia, mas não são músicas inteiras, é um improviso que faz parte da música. Mas pronto, em festivais de música tradicional e de world music a recepção é boa, e em festivais de música nova também, por isso…é estranho. (risos)
Hoje vais trazer-nos o teu projecto “Urban Pipes” – podes explicar-nos o conceito que está por trás desse projecto?
No início este projecto era apenas de estúdio, e na altura não queria tocar esta música em concerto, queria apenas gravar. Tocar a gaita de foles a solo é a forma tradicional de usar o instrumento, e o que me fez lançar este projecto foi querer fazer música nova para a gaita de foles. Por isso peguei na forma tradicional deste instrumento, e depois anos depois, quando comecei a dar concertos, decidi tocar apenas uma peça e mexer-me muito durante a performance, mudar muito… Após lançar o meu segundo disco eu próprio já tinha mudado muito e composto mais e…o “Urban Pipes” é a minha concepção do que é a música de gaita de foles, o que eu consigo fazer com o instrumento.
Quando iniciei o projecto, queria fazer música sem qualquer referência à música tradicional. É possível a gaita de foles ser o seu próprio instrumento, e não só um instrumento exclusivamente usado em música tradicional? Como seria música nova para este instrumento? Era isso que eu buscava, mas não foi fácil porque foi justamente nessa tradição que eu cresci, por isso a minha forma de imaginar a música é naturalmente influenciada pela música tradicional. Mas agora é diferente, porque já trabalhei muito em música nova, em música contemporânea, o que me permite concepcionar a música de forma diferente, mas em 2007 não era esse o caso… a música tradicional da Bretanha é a música do campo, não da cidade, e quando comecei a explorar esta música nova queria ver o que seria a música urbana para a gaita de foles.
Já actuaste em igrejas?
Sim.
E gostaste da experiência?
Sim, claro!
Então porque?
Porque o som é muito alto, há muita reverberação. O som pode estar em qualquer lado, é possível tê-lo a vir da frente, de trás, as igrejas são óptimas para isso. Eu não gosto muito de tocar na rua porque não há paredes, o som não é reflectido, e numa igreja ele reflecte em todo o lado, por isso…adoro tocar em igrejas.
O que achaste desta igreja [Igreja da Nossa Senhora do Rosário] e do som dela?
Vai estar alto (risos)…vai estar alto. Mas isso é bom! (risos)
A OUT.RA – Associação Cultural aceita, a partir deste momento, candidaturas de jovens artistas locais para o desenvolvimento de trabalho artístico relacionado com Música / Som / Artes Sonoras / Multimedia durante o ano de 2021. Desta vez, decidimos fazer o alargamento geográfico dos critérios de selecção: assim, artistas residentes nos Concelhos vizinhos da Moita e Seixal passam a poder também candidatar-se a este apoio, no valor de 1000€.
A Bolsa de Criação OUT.RA já apoiou, desde 2015, artistas como Tiago Sousa, Van Ayres ou Camila Vale.
Consultem abaixo todas as informações para a candidatura, que tem como data-limite o dia 31 de Janeiro de 2021. Esperamos pelos vossos projectos!
OPEN CALL
BOLSA DE CRIAÇÃO LOCAL OUT.RA 2021
Os critérios de selecção a ter em conta são:
Residência no Concelho do Barreiro, Moita ou Seixal
Idade entre os 18 e os 35 anos;
Formação (superior ou técnica) em áreas artísticas, em particular em Música / Artes Sonoras / Multimédia / Etnomusicologia, etc ou, em alternativa, trabalho relevante desenvolvido em Música / Som que revele a procura de novas soluções e permita antever uma personalidade artística própria;
Conhecimento do trabalho desenvolvido pela Associação (OUT.FEST, programação regular, documentação sonora, etc) e adequação das propostas a este trabalho;
Qualidade conceptual do projecto criativo, grau de maturidade apresentado para o seu desenvolvimento, razoabilidade dos meios necessários aos espectáculos para sua apresentação.
O trabalho a desenvolver pelo(a) bolseiro(a) deve decorrer entre Março e Dezembro de 2021, e contemplar pelo menos um momento de apresentação pública.
A bolsa a atribuir tem o valor de 1000€.
As candidaturas devem ser enviadas para o mail info@outra.pt até ao dia 31 de Janeiro, e conter as seguintes informações:
Clothilde é o alter-ego musical de Sofia Mestre, colorista, fotógrafa, desenhadora e não só, que se encontrou enquanto música na viragem para os 40. Trabalha a partir da herança de pós-minimalistas, improvisadoras e compositoras de mente aberta, como Pauline Oliveros, Maryanne Amacher, Daphne Oram, Eliane Radigue ou Delia Derbyshire, para criar a partir de bases electrónicas modulares – tecnologia feita pelo seu companheiro Zé, aka HOBO -, novas paisagens e realidades emocionais e estéticas. Em Outubro de 2018, durante a edição do OUT.FEST desse ano, onde testemunhamos uma bela actuação da artista na Escola de Jazz do Barreiro, o Alexandre Ribeiro e o Vasco Completo tiveram a oportunidade de ter uma curta conversa com os dois – Clothilde e HOBO – sobre o sistema electrónico único que usam e as suas origens, bem como o despertar de Clothilde para a criação músical.
Quando é que começaste a construir este tipo de máquinas?
HOBO: Comecei a pensar nisto aí há uns seis, sete anos. Na altura andava a fazer umas máquinas em cartão (sempre usei os materiais que tinha à mão para fazer coisas) e no meio das buscas de materiais para usar fui a casa do meu pai, que foi rádio montador na Guiné durante a guerra do ultramar, e ele tinha lá uma breadboard e mais uns chips e outras coisinhas que me disse para levar. Eu pus aquilo no saco e ficou numa gaveta durante para aí um ano, até depois tropeçar numa coisa qualquer que me lembrou que tinha aquilo por casa. Depois comecei a construir coisas, primeiro um amplificador numa caixa de Scotch-Brite, uma coisa muito básica, e fui expandindo a partir dai. Comecei a pensar, “Ok, quero que o som saia para algum lado, por isso preciso de um amplificador”. Foi o passo número um. Passo número dois: “temos de fazer uns osciladores, vamos a isso”. A partir dai foi sempre a crescer, continuei a pesquisar, ver o que já foi feito e o que conseguia fazer de diferente. Hoje com a internet consegues dar passos gigantes com as coisas – dantes era muito mais complicado, a informação estava só em livros, mas agora fazes uma buscazinha, fica mais ou menos explicito o que tens que fazer, e depois a partir do que já está feito é andar para trás, explorar a ficha técnica do chip, e partir dai para criar as tuas próprias coisas. O processo tem sido um bocado assim, autodidata e sem grandes pretensiosismos, fazer a coisa porque me dá prazer.
No caso específico destas máquinas que a “maquinista” usa, podes explicar-nos melhor como funcionam?
CLOTHILDE: São muitas…
H: Não as trouxemos todas…estão ali umas dez, mais uns teclados, e no total já devemos ter umas 20…a ideia é que cada uma das maquinas possa ser usada independentemente e produzir som, quase como um sistema modular, mas não completamente, porque no modular tens que levar a tralha toda atrás e aqui se quiser levar só uma máquina posso mete-la debaixo do braço e leva-la comigo, e fazer o output do sinal ou diretamente por jack ou então com um jack banana para poder mandar o som para outro lado qualquer. Queria que fosse sempre muito versátil, para poder tocar tanto com uma, ou com duas, ou com tudo….
C: Foi curioso porque só agora é que podemos tocar juntos – dantes não tínhamos máquinas suficientes para tocar os dois. Eu toco sozinha muito fruto disso – ele tem um projeto com um amigo em que também usa estas máquinas e se tocássemos os dois ao mesmo tempo íamos “desfazer-nos” um ao outro, porque para conseguir certos sons é necessário que elas estejam ligadas entre si, para modular, filtrar, whatever. Mas agora já conseguimos, e o próximo passo é começarmos também a ter um projecto e a tocar juntos.
Como começou esta tua atividade enquanto música?
C: Eu sempre adorei música, mas nunca pretendi fazer música, nunca desejei isto – propuseram-me, porque sabiam que eu tocava com ele [HOBO], e aconteceu. Nós temos uma casa no Meco com amigos, para descansar, e ele levava as máquinas e ficávamos ali a brincar, mas sem pretensão qualquer de chegar a vir a tocar um dia…
Sou amiga da Sonja da Labareda, por quem eu lancei o álbum, há muitíssimos anos e ela conhece-me muito bem – melhor que eu própria pelos vistos – e desafiou-me a fazer alguma coisa, e eu fiquei tipo “tás doida…eu?” Nunca foi algo que tivesse desejado antes sequer, mas acabei por ficar a pensar que não podia ficar a vida toda a pensar nisso e foi assim…
Lançaste recentemente o teu primeiro LP, o “Twitcher”…o teu percurso tem alguma coisa a ver com a música?
C: Nada.
Podes falar um pouco sobre isso?
C: Eu sou fanática por música, sempre fui, desde pequenina – quando a minha mãe punha alguma coisa que eu não gostava a dar eu desatava a chorar. Isto é verdade! Mas eu nunca trabalhei em música.
O meu avô era o baterista de uma banda fabulosa de jazz nos anos vinte, a minha mãe esforçou-se imenso para eu estudar música (ela queria estudar música quando era mais nova e ele não deixou porque ela era menina), o meu tio toca tudo…isto está lá, afinal.
Eu trabalhei muitos anos em publicidade e cinema, fui colorista, gosto de desenhar, fotografar, agora estou a montar um projeto com amigas que ainda estamos a ver o que é que vai dar…Mas isto… Fiz o “Birdwatching”, que foi para isso que a Sonja me desafiou, para uma compilação, foi ai que eu disse “epá…olha, vou dedicar-me e ver, prometo que não te vou deixar ficar mal, nem que eu me mate”, que eu sou um bocadinho exigente comigo própria, demasiado até. E depois ela veio-me com a história do álbum, e eu ai fiquei um bocado “afinal já não é só uma…” mas já tinha passado a barreira, já tinha tocado a primeira vez no Damas… Não tive meio termo, fiz o “Birdwatching”, toco a primeira vez no Damas, a segunda no Lounge, a terceira no Walk&Talk dos Açores, depois na ZDB, eu já só dizia “Poça, já só falta o Maria Matos” (risos) Não sei o que aconteceu, eu não estava a espera, mas eu sei que tenho ouvido, sei que as coisas estão aqui. Eu não conto os tempos, eu sinto, é uma vida inteira a ouvir música e com muita paixão, eu acho que é isso. Fiz o álbum (fizemos o lançamento a 25 de Maio) e estranhamente saiu bem! Eu fiquei muito contente, não sabia o que ia sair…
Como foi a receção?
C: Está a ser uma loucura, eu não tenho vida para ser artista…(risos) não tenho tempo…Só o mês passado dei três concertos, no Festival Exquisito no dia 13, no dia 15 estava em Santiago de Compostela no WOS, no dia 22 foi no Porto no Passos Manuel. Essa última foi uma noite organizada pela Fungo, em que o Zé tocou com o Marco (o Citizen:Kane), porque não dava para tocarmos os dois, mais o Nuno Patrício e o Nicolai que são DJs da Fungo, tocamos todos, e agora estou aqui. E já tenho várias coisas para responder, entretanto…até para 2020, e eu fico muito nervosa com estas coisas, não sei se estarei viva sequer (risos). Mas é um projecto super interessante mesmo, é uma peça de teatro e acho que tem tudo a ver com a minha cabeça.
Parte do impressionante colectivo mina, participante nas festas Rabbit Hole e já de há tempo parte da Rádio Quântica, Viegas é um artista e DJ barreirense que fez parte da noite de encerramento do OUT.FEST 2019 no espaço A4. Antes do festival tivemos a oportunidade de conversar com ele sobre o seu percurso artistico, e a sua actividade nos colectivos que integra numa entrevista que agora divulgamos.
Como e quando descobriste o techno e a música eletrónica de club?
Em 2014 passei uns meses fora de Portugal, em Barcelona, e a forma que encontrei de criar relações (com a cidade e conhecer pessoas) foi a sair à noite. O River Dealer do Burial tinha sido lançado há pouco tempo e esse EP foi também uma porta de entrada para a electrónica, principalmente para a cena musical do UK, e foi uma porta de entrada para outras coisas.
Que clubes e noites mais frequentavas, depois desse período formativo? Se calhar mais aqui no Barreiro e em Lisboa?
No Barreiro as minhas noites eram mais na rua…mas em Lisboa o Lux, e algumas festas da Rabbit Hole e noites Príncipe.
Antes de irmos ao teu coletivo, queria perguntar-te rapidamente sobre as Rabbit Holes – porque eram festas que apesar de serem associadas à música de dança eram muito variadas, cheguei até a ver um amigo que fazia música drone a atuar numa. Achas que essa mistura de estilos de música diferente que influenciou a tua forma de ser DJ?
Sim, de certa forma. Na Rabbit Hole havia lugar para todo o tipo de expressões artísticas, tudo cabia numa noite. Esse ecletismo que havia na programação talvez me tenha influenciado, sim. Ter crescido no subúrbio também teve um grande impacto na minha percepção de música eletrónica e nos meus interesses. Comecei a ouvir Kuduro e Kizomba muito antes de Techno ou House ou qualquer outro estilo…então ultimamente tem sido mais um trabalho de perceber como misturas as várias referências que tenho em algo que se adequa ao momento em que estou a tocar.
Falando agora sobre a mina, como é que ela surgiu e como é que te juntaste a ela?
A mina surgiu de um juntar de forças entre a Rabbit Hole e a Rádio Quântica (outro projeto a que acabei por me juntar pouco tempo depois de ter começado a colaborar com a Rabbit Hole). Na altura faltava em Lisboa uma noite de música eletrónica onde houvesse espaço para experimentares com a tua identidade e sexualidade…onde as regras fossem…subentendidas, mais baseadas no respeito entre as pessoas e não aquelas regras que estão associadas a espaços mais institucionalizados. o Pedro Marum, que foi uma das pessoas que fundou a Rabbit Hole, e que também se juntou à Rádio Quântica mais ou menos na mesma altura que eu, teve a ideia de criar estas noites com a Violet e com o Photonz, que são os fundadores da Rádio Quântica, e como eu estava a colaborar com os dois projetos fui convidado a ajudar.
Quanto à Rádio Quântica, tu ainda tens o programa de rádio “Mercúrio”?
Bem entretanto mudou para rave3000, e ultimamente não tenho feito com tanta frequência, mas sim.
Como é que diferem as playlists que fazes para a rádio do que passas na pista de dança? Quais são as diferenças e as semelhanças, o que tentas trazer para um e para o outro?
Se calhar começando pelas semelhanças: acaba por vir tudo do mesmo sitio, os critérios são semelhantes, eu tento ser inclusivo e ter sempre o meu foco mais afastado do centro. Com o programa não tenho tantas preocupações, se a música é dançável ou como vai ser recebida, porque acho que é um espaço muito mais experimental e com muito menos expectativas da parte de quem ouve. E também tento sempre dividir o slot com outra pessoa, por isso varia também de quem convido. Na rádio para mim o mais importante é dar oportunidade a outras pessoas de terem acesso a esta plataforma, tenho a certeza que se não existisse Rádio Quântica teria sido tudo muito mais complicado para mim.
Tu já tocaste lá fora várias vezes, em Berlim por exemplo…
Sim…neste último ano tive a oportunidade de tocar em várias capitais Europeias, Londres, Paris, Atenas…
São capitais bastante diferentes, e conhecidas pela sua vida noturna…como é que achas que Lisboa se compara com esses sítios? A cidade tem alguma coisa de único nesse sentido?
Em Lisboa estou mais confortável, então sinto-me mais à vontade para experimentar certas coisas. Normalmente também toco em contextos em que o público está habituado a ouvir de tudo, e essa diversidade é celebrada. Talvez por não termos grande variedade de festas especificas a certos géneros é habitual haver esta convergência. Em Londres, por exemplo, senti o mesmo, mas no UK a história da música electrónica é muito rica e diversa. Não sei se será uma coisa única, mas sendo uma cidade pequena é fácil conheceres pessoas de cenas diferentes.
Tu estudaste Cinema Documental, não foi?
Eu comecei por estudar Publicidade e Marketing, na Escola Superior de Comunicação Social, mas apercebi-me muito rapidamente que não era isso que queria fazer e depois tirei um curso de Cinema Documental de um ano e estudei Fotografia no Ar.Co e nas Belas Artes.
Sei que tiras fotografias nas noites da mina e do Rabbit Hole. Achas que alguma dessa formação se infiltrou no teu trabalho? Não só na fotografia, mas também na forma como és DJ?
Acho que foi mais ao contrário, foi o clubbing que acabou por se infiltrar na minha fotografia. Foi na noite que o meu interesse por fotografar despertou, porque tive vontade de registar o que estava a acontecer. Agora não sei, no futuro eu adorava também apostar mais numa componente visual nos meus shows, por isso talvez a coisa vire ao contrário, e seja a fotografia a influenciar a minha forma de ser DJ.
Voltando aqui ao Barreiro – Tu nasceste e cresceste lá, e ouvias o festival, o OUT.FEST, do teu quarto, segundo um post teu. Podias falar-me sobre as tuas experiências de OUT.FEST, partindo mesmo dessa escuta no teu quarto?
Sim, eu vivia muito perto dos Ferroviários, e houve várias edições que aconteceram lá. Então lembro-me de ser mais novo e não conseguir classificar o tipo de música que estava a ouvir, e isso sempre me despertou interesse. Quando comecei a ir foi muito importante perceber que existem outras linguagens e possibilidades…ver pessoas com abordagens muito criativas aos instrumentos, enquanto o público é paciente e receptivo. Descobrir lendas do ambient e do drone com quem possivelmente nunca me iria cruzar, tudo isto em espaços incríveis que o resto do ano passam despercebidos. O tipo de música que ouço em casa quando não estou a preparar um set é muito influenciado pelo que ouço no OUT.FEST.
Tens algum mix especialmente preparado para o OUT.FEST? Com o que podemos contar para o encerramento do festival?
Eu vou tentar manter-me perto de lançamentos mais recentes. Quero que de alguma forma represente o que tenho ouvido e tocado nos meus últimos sets, dando prioridade a cenas mais experimentais que noutros sítios não funcionariam tão bem. Quero também ir a muitos lugares…mas vamos ver o que acontece!