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DEAFKIDS de hoje a uma semana / DUMA adiados

É já de hoje a uma semana, próxima sexta dia 3 Junho, que recebemos no Barreiro, após o seu explosivo concerto no OUT.FEST 2019, os brasileiros DEAFKIDS, que “cruzam vários aspectos do punk hardcore iniciático, várias declinações do metal, e uma tribalização rítmica que é uma versão de hard’n’heavy psicadélico à Sepultura via Motorhead, com uma data de momentos mais para o abstracto, com muito trabalho da cartilha do rock cabeludo cheio de delay.” Já se percebeu que é imperdível, ainda mais com o power-garage-rock das lisboetas CLEMENTINE a abrir a noite.

Entretanto, é com pena que anunciamos o adiamento da estreia dos quenianos DUMA no Barreiro, devido a problemas com o visto europeu de um dos membros da banda. Estamos a trabalhar com os músicos e os seus agentes para uma nova data, lá mais para a frente no ano. Os bilhetes já adquiridos serão válidos para a próxima data.

Para o concerto de Deafkids, bem como para o de FÖLLAKZOID*, a 25 Junho, continuam à venda os ingressos via outra.bol.pt e lojas habituais.

PARTICULAR UNIVERSAL: Vaiapraia em residência em Castro Marim

Rodrigo Vaiapraia é o próximo artista em residência no Concelho de Castro Marim, ao abrigo do projecto Particular Universal. 

Criador transdisciplinar e autodidata, lidera desde 2014 os Vaiapraia, banda maior do rock independente em Portugal, herdeiros directos e assumidos dos movimentos punk/riot-grrrl/queercore, aclamados em igual medida por Público, Blitz ou Time Out, por exemplo, com o álbum “100% carisma”, de 2020, como marco no rock português de qualquer época.

Entre os dias 6 e 13 de Maio, Rodrigo, juntamente com Ana Farinha, Daniel Fonseca e Beatriz Diniz, estará pela Quinta da Fornalha a trabalhar sobre várias ideias embrionárias colecionadas ao longo dos últimos dois anos, procurando “encontrar coletivamente a atenção, crescimento e reformulação que cada melodia pede”.

No dia 14, pelas 19h, no Anfiteatro ao ar livre do Revelim de Santo António, teremos a oportunidade, talvez, de conhecer pela primeira vez (ao lado de algumas das mais enérgicas e profundas canções de produção nacional dos últimos largos anos), as novas direcções de Vaiapraia. O concerto é de entrada livre.

Esta é a segunda residência com curadoria da Filho Único, parceira do projeto Particular Universal.

PARTICULAR UNIVERSAL: Knut Olaf Sunde em residência em Castro Marim

O compositor norueguês Knut Olaf Sunde, cujo trabalho se desenvolve em volta das noções de lugar, duração e som imersivo, é o próximo artista em residência no Concelho de Castro Marim, no âmbito do projeto Particular Universal.

Entre os dias 23 de Abril e 7 de Maio, Knut Olaf Sunde propõe-se “observar, aprender e entender as diferentes lógicas culturais e paisagísticas” do Concelho, recorrendo à gravação áudio e vídeo, bem como à interacção com a população local, de forma a montar uma narrativa que será apresentada no dia 29 de Abril, pelas 17h30, no Armazém do Sal – um evento de entrada livre.

Esta será a segunda residência artística com curadoria da NyMusikk, parceiro norueguês do projeto Particular Universal, financiado pelo mecanismo EEA Grants, cujo tema é “Memória, Identidade e Paisagem em Castro Marim”.

Bolsa de Criação Local OUT.RA 2022

É com satisfação que anunciamos a vencedora da Bolsa de Criação OUT.RA para 2022, depois de analisadas as candidaturas que recebemos no início deste ano.

Com a proposta de criação de uma peça de arte sonora, de título “A Segunda Natureza”, que procurará criar um “espaço sonoro imersivo que emule a segunda natureza de um corpo aquático”, decidimos atribuir a Bolsa a Rita Santos, compositora e artista sonora nascida no Barreiro, e atualmente estudante de mestrado em ciências musicais na Universidade Nova de Lisboa, onde desenvolve trabalho de investigação nas áreas da consciência sonora, da ecologia acústica e da Soundscape composition.

O trabalho a desenvolver ao longo dos próximos meses será apresentado em formato de instalação, no final do ano. Fiquem atentos às notícias!

Concertos para Maio e para um Junho CRAZY

Abril mal começou e já sabemos que nos reserva duas noites a não perder, mas não paramos e contamos já tudo o que aí vem em Maio e Junho (que vai ser crazy)!

No dia 14 de Maio celebramos a criatividade do ‘Grande Barreiro’, com a apresentação dos trabalhos finais dos dois bolseiros OUT.RA em 2021: George Silver (André Neves) e Puçanga (Vera Marques). Ambos apresentarão novas edições, com música criada e gravada ao abrigo da Bolsa de Criação do ano passado. Os concertos decorrem na ADAO, com entrada gratuita.

O mês seguinte é JUNHO CRAZY: três noites de grandes concertos com os brasileiros Deafkids e as lisboetas Clementine (dia 3 na ADAO), os quenianos Duma e o barreirense Cavernancia (dia 11 na Gasoline), e os chilenos Föllakzoid e o catalão Anti S. (dia 25, de novo na ADAO, para uma noite que finalmente cumpre a promessa de 2020, adiada devido à pandemia*).

Por merecer este epíteto especial, há um bilhete a preço especial para os três concertos de Junho, disponível em quantidade limitada, que pode ser já adquirido via outra.bol.pt e lojas habituais, tal como de resto os bilhetes individuais para cada noite.

* Os bilhetes adquiridos para a data de original de 2020 mantêm-se válidos para este concerto.

Sexta: Erik Dæhlin no Castelo de Castro Marim

Terá lugar na sexta, por volta das 17:00 no Castelo de Castro Marim, a primeira apresentação pública de trabalho desenvolvido por artistas em residência do projecto Particular Universal: neste caso o do norueguês Erik Dæhlin, compositor que trabalha nas intersecções entre Som, Imagem e Texto, que desde 13 de Março tem explorado diferentes locais e ambientes do Concelho de Castro Marim (incluindo a Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Sto. António, com foco particular no delta do Guadiana) e registado as suas impressões em forma de textos, gravações sonoras e fotografias, materiais que tem trabalhado com vista à performance / conversa de sexta, e que posteriormente será espelhada numa peça a apresentar no festival Only Connect, em Oslo, no final de Abril.

Para abrir o apetite para este evento, espreitem o teaser mais abaixo, que inclui um pouco das conversas que tivemos com o artista ao longo da residência e do seu processo de trabalho.

Primavera em flor: o que aí vem em Março e Abril

Super-entusiasmados por partilhar cinco-sim-cinco programações para Março e Abril pelo Barreiro, com um regresso em força dos concertos imperdíveis que tomam o pulso ao que se vai fazendo pelo país e pelo mundo.

Em Março, no dia 11, recebemos pela primeira vez um quarteto transatlântico que carrega em si todos os jazzes: o Humanization 4tet do guitarrista Luís Lopes, acompanhado pelo saxofone de Rodrigo Amado e o contrabaixo e a bateria dos texanos Aaron e Stefan Gonzalez; o último disco da formação, o seu 4º desde que começaram a tocar em 2008, tem lugar em quase todas as listas dos melhores álbuns de 2021 a nível internacional, e o concerto promete o fogo do free, a melodia do bop e a energia do punk. Dificilmente haveria melhor forma de regressarmos a uma sala onde já fomos tão felizes, agora com nova e dinâmica gerência – a Sala 6 (antigo Be Jazz Café).

Uma semana depois, dois regressos: a admirável Clothilde, mestre das arquitecturas sónicas modulares e das paisagens sonoras eléctronicas criadas com a parede de sintetizadores feitos à mão pelo músico Hobo, de retorno à nossa cidade após actuações no OUT.FEST em 2018 e 2019; e o promissor João Silva, trompetista que tivemos o prazer de ouvir há dois anos e meio como parte da noite especial dedicada à editora Creative Sources. Os concertos acontecem no Auditório da Biblioteca Municipal, no dia 18.

Já em Abril, nova dose dupla de música criativa: no dia 15, regressamos à Sala 6 para o encontro explosivo entre dois dos pontas de lança do jazz nacional – Ricardo Toscano & Gabriel Ferrandini trazem-nos o seu duo pleno de lirismo e fúria, diálogo entre a poesia do saxofone de Toscano e a bateria infinita de Ferrandini.

No dia 29, e outra vez na Biblioteca Municipal, noite de improvisação livre com a estreia barreirense da belga Farida Amadou, nome de grande destaque nas novas músicas europeias, que com um baixo eléctrico, um amplificador e meia dúzia de pedais redefine o papel e o potencial do instrumento, e o “nosso” Fernando Ramalho a fazer o mesmo com a guitarra e a sua poesia oblíqua.

Os bilhetes para estas 4 noites já podem ser adquiridos, como habitualmente online, ou presencialmente nas lojas do costume.

Por fim, mas logo de início, recebemos na tarde de 5 de Março, também na Biblioteca, mais um momento público do trabalho desenvolvido por uma das bolseiras OUT.RA em 2021: Vera Marques aka Puçanga é a anfitriã de novas “Vozes Plurais“, um ciclo de conversas abertas ao público sobre a potência afectiva e política da voz nas suas várias manifestações, seja na música, na oralidade ou na escrita. Os convidados para este encontro são os históricos militantes anti-fascistas Helena Pato e Álvaro Monteiro. A entrada é livre.

Muitas e boas ocasiões para nos reencontrarmos! Até já!

Rabu Mazda apresenta ‘Bindi’ na Gasoline a 4 de Fevereiro

Regresso aos concertos – e à Gasoline! – com uma friday night party para celebrar e apresentar ao Barreiro o disco “Bindi”, novo trabalho de Rabu Mazda aka Leonardo Bindilatti, residente ilustre da cidade vai já para um bom par de anos. 

Convidados especiais do Leo são Silvestre, jovem produtor da Lisa que mistura tudo o que há de baixo e acima do Sol e ainda traz dançarinos, desafio playstation e luzes e fumo pelo nariz, e o irlandês Seán Being, exemplo bom da tomada do país pelos camones e praticante de uma ambient-pop delicada que dá a entender uma aprendizagem afincada da saudade. 

Os bilhetes estão já à venda via outra.bol.pt e lojas habituais, ao preço de 5€ (ou 2,5€ para sub-25).

A OUT.RA procura: Produtor Executivo em Castro Marim

A OUT.RA – Associação Cultural procura uma pessoa para exercer as funções de Produção Executiva Local das actividades do projecto Particular Universal no concelho de Castro Marim.

O projeto engloba diversas atividades artísticas até 14 de setembro de 2023.


O/a produtor/a terá como principais funções:
— O acompanhamento das actividades a realizar durante toda a execução do projecto, nomeadamente assistência a artistas em residência;
— Todas as tarefas inerentes à produção de eventos e apresentação públicas (definição de horários, licenciamentos, articulação entre todos os intervenientes e demais detalhes de ordem logística e técnica);
— Representar o projecto em visitas e reuniões com artistas, parceiros de projecto, representantes de entidades locais e membros da comunidade.Necessário:
— Ter residência habitual no concelho de Castro Marim ou num dos concelhos limítrofes;
— Falar e escrever fluentemente português e inglês
— Domínio de ferramentas de gestão de produção online (drive, dropbox, email).
— Deverá ter carta de condução e viatura própria.Candidatura:

Para a candidatura deverá ser enviado email para info@particularniversal.pt com identificação, carta de motivação e CV, até às 18h00 do dia 31 de Janeiro de 2022.
Candidatos/as com os CV’s mais adequados ao perfil pretendido serão contactados para realização de entrevista.

PARTICULAR UNIVERSAL: Identidade, Memória e Paisagem em Castro Marim

Estamos muito felizes por anunciar hoje para o Mundo um novo e ambicioso projecto, de nome PARTICULAR UNIVERSAL, que até final de 2023 decorrerá no mágico concelho de Castro Marim, bem no sudeste do país.

Com financiamento do programa Cultura do mecanismo EEA*, e parceiros como o Município de Castro Marim, a norueguesa NyMusikk e as associações lisboetas Teatro do Vestido e Filho Único, desenvolveremos diversas actividades de co-criação artística ligadas aos temas da identidade, da memória e da paisagem sonora na região, sendo de destacar, entre outras, a realização de duas dezenas de residências artísticas dirigidas a criadores portugueses, noruegueses e internacionais para o desenvolvimento e apresentação de obras de artes sonoras e novas músicas, bem como a criação de um arquivo sonoro, de um arquivo comunitário para as “Vozes da Memória” e a produção comunitária de performances teatrais em diálogo com os habitantes e o património imaterial do Concelho.

Já está online o site do projecto, a partir do qual, muito em breve, serão divulgados eventos e oportunidades para artistas de todo o mundo. Visitem-no e vão acompanhando as notícias através dos nossos canais habituais.

Bolsa de Criação OUT.RA 2022 – Candidaturas abertas

Foto por: Vera Marmelo

A OUT.RA – Associação Cultural aceita, a partir deste momento, candidaturas de artistas locais para o desenvolvimento de trabalho artístico relacionado com Música / Som / Artes Sonoras / Multimedia durante o ano de 2022.

A novidade para este ano é o desaparecimento do limite de idade, mantendo-se no entanto a prioridade ao apoio de artistas emergentes, sem uma carreira ainda consolidada.

Mantém-se o alargamento geográfico dos critérios de selecção estabelecidos em 2021: artistas residentes nos Concelhos vizinhos da Moita e Seixal podem candidatar-se a este apoio, no valor de 1000€.

A Bolsa de Criação OUT.RA já apoiou, desde 2015, artistas como André Neves, Van Ayres, Camila Vale ou Vera Marques, entre outros.

Consultem abaixo todas as informações para a candidatura, que tem como data-limite o dia 16 de Janeiro de 2022. Esperamos pelos vossos projectos!

 

OPEN CALL

BOLSA DE CRIAÇÃO LOCAL OUT.RA 2022

Os critérios de selecção a ter em conta são:

  • Residência no Concelho do Barreiro, Moita ou Seixal;
  • Idade superior a 18 anos;
  • Formação (superior ou técnica) em áreas artísticas, em particular em Música / Artes Sonoras / Multimédia / Etnomusicologia, etc ou, em alternativa, trabalho relevante desenvolvido em Música / Som que revele a procura de novas soluções e permita antever uma personalidade artística própria;
  • Conhecimento do trabalho desenvolvido pela Associação (OUT.FEST, programação regular, documentação sonora, etc) e adequação das propostas a este trabalho;
  • Qualidade conceptual do projecto criativo, grau de maturidade apresentado para o seu desenvolvimento, razoabilidade dos meios necessários aos espectáculos para sua apresentação;
  • O trabalho a desenvolver pelo(a) bolseiro(a) deve contemplar pelo menos um momento de apresentação pública.
  • A bolsa a atribuir tem o valor de 1000€.

As candidaturas devem ser enviadas para o mail info@outra.pt até ao dia 16 de Janeiro, e conter as seguintes informações:

  • Nome, CV e biografia artística
  • Descrição e calendarização da proposta
  • Material necessário para o seu desenvolvimento

Entrevista a Sarnadas (OUT.FEST 2021 (II))

João Sarnadas, tcp Coelho Radioactivo, foi o responsável pela abertura do último dia do segundo momento do OUT.FEST 2021, com a apresentação de uma experiência de escuta profunda de música intimamente ligada à do seu trabalho de estreia em nome próprio, dois discos duplos de seu nome “The Hum”. Na SDUB “Os Franceses” pudemos ouvir duas horas de improviso electrónico rico em harmonias e texturas nas condições perfeitas para tal: deitados, de olhos fechados, a absorver o som.

Tivemos também a oportunidade de falar com o artista antes e depois do concerto, e é o resultado compilado dessas entrevistas que vos apresentamos abaixo.

Entrevista por Tiago Franco. Fotos de Nuno Bernardo e Pedro Roque (a preto e branco).

 

 

Qual foi o teu primeiro contacto com música de longa duração minimal deste género?

Oláolá. Sempre gostei muito de músicas demoradas, não necessariamente em termos de duração da música mas mais no que toca à sua composição e também à utilização de sons mais contínuos. Nem que seja pelo simples facto de muitas vezes haver algum drama associado a músicas longas desse modo e esse drama ser algo com que eu me relaciono facilmente. Assim de repente os meus primeiros contactos com música de longa duração minimal, diria que aconteceram com artistas não muito duracionais ou minimais, as primeiras músicas que me lembro são a “Back to Schinzo” do Pascal Comelade e a “Stranger Intro” do Bill Frisell (Introdução para um disco da Marianne Faithfull) que eram músicas que ouvia bastante quando era miudo. O Pascal é um dos meus músicos preferidos de sempre, e felizmente tem discos que cheguem para se ouvir sempre coisas novas, só há coisa de uns 5 anos é que descobri os primeiros discos mais experimentais dele. A Stranger Intro é um loop de 30 segundos que eu ouvia em repeat, e que decidi fazer uma versão para este disco, se bem que quando a fiz não sabia necessariamente que ia fazer parte de um disco, só a quis experimentar tocar para ouvir o que poderia ser uma versão com mais de 30 segundos, acabou por ser a D1 M Bombarda Transmission. A nível de coisas mais intelectuais, acho que assim o primeiro músico minimal de longa duração em que colei foi o La Monte Young, depois possivelmente o concerto do Terry Riley com o Don Cherry em Köln. Mas não sei se foram essas as minhas inspirações para fazer este disco, até porque a longa duração foi mais um efeito da maneira como eu toco do que um ponto de partida, obviamente que são artistas de quem gosto portanto acabaram por influenciar as minhas melodias e o meu pensamento mas acho que a música acaba por ser um resultado de um número de influencias muito mais abrangente.

 

 

Podias falar um pouco sobre o equipamento que usaste neste álbum? Foi construído pela Inês Castanheira, que gere um workshop de sintetizadores DIY. Foi uma comissão ou foi-te entregue a ti com os 3 osciladores?

Sim, o instrumento que utilizei neste álbum, e que uso agora ao vivo, é um sintetizador simples com 3 osciladores e 3 switches de on/off feito pela Inês Castanheira. Felizmente tenho a sorte de partilhar não só a minha vida como casa com a Inês, o que faz com que tenha facilmente acesso às cenas que ela constrói, este em particular foi um dos primeiros que ela construiu, porque estava na altura a explorar o campo da construção de sintetizadores, e é assim simples precisamente por esse motivo. Começámos a usar este synth e outro num projecto que temos os dois chamado Well, e eventualmente comecei também a usa-lo em peças colectivas da Favela Discos como por exemplo a peça Desilusão Óptica. Foi um bocado com esse background que fui desenvolvendo a abordagem ao material que tenho neste disco, à base do uso deste sintetizador, da mesa de mistura, de loops e outros pedais de efeito.

 

 Gravaste o disco em 2 dias, o que resultou em 8 horas de gravações, em que demoraste 3 anos a reduzir a 2 discos de 2 horas cada. Que métodos de condensação usaste e que desafios encontraste no cutting room?

Bem, na altura quando fiz essa sessão de gravação não estava já com ideia de fazer necessariamente um disco. Como disse em cima, simplesmente sentia que tinha chegado a uma maneira de tocar diferente do que fazia por exemplo com Coelho Radioactivo, e que queria gravar alguma coisa com essa “linguagem”. Na verdade sinto que o The Hum até acaba por ter algumas coisas de Coelho, creio que as melodias acabam por ter algo a ver com esse universo, assim como a utilização de loops que era uma coisa que fazia bastante ao vivo e quando tocava sozinho em casa. Na altura tinha ficado com a mesa do Nuno Loureiro em minha casa porque a tinha usado num concerto de Desilusão Óptica e aproveitei para fazer esses dois dias de gravações, que como disseste resultaram em 8 horas. Na verdade até foi mais de 8 horas, foram cerca de 11 horas, mas eu não costumo contar essas 3 horas extra porque não estavam fixes à partida. Basicamente o grande desafio foi perceber o que é que tinha em mãos, que creio que se dividia em dois problemas,  primeiro o de reduzir as músicas de maneira a que tivessem uma duração minimamente aceitável para que fossem mais fáceis de perceber como uma música, e o segundo de perceber o que é que eram aquelas músicas, se eram três discos… se era um… se eram dois… Qual era o percurso / ordem que fazia sentido… Quais eram os modos das músicas etc… Eventualmente consegui simplificar a coisa em dois discos, um mais drone, outro mais ambient, ou um mais atonal, outro mais melódico, ou um mais nocturno outro mais diurno, mas ao longo desses três anos fui agrupando as músicas com conceitos bastante diferentes, que provavelmente não são tão claros mas que me ajudaram a perceber o que eram estas músicas.

 

 

Li algures que foste informado pela ‘harmonia única de cada cidade que viveste’, podias falar um bocado sobre isso? Vês algum cruzamento entre a tua música e a arquitectura?

Isso na verdade, apesar de ser inspirado em coisas que eu sinto em relação ao disco, ao processo e ao que eu andava a pensar na altura em que fiz o disco, é um bocado Mumbo-Jumbo de Press. Fico sempre um pouco na dúvida entre conceptualizar ou não a música que faço, normalmente não crio coisas previamente definidas por um conceito, a única coisa que me interessa na altura da gravação é a minha intuição, e se estou a gostar da música que estou a fazer. No entanto por outro lado, o pensamento do som é uma coisa que me interessa, e que acabo por fazer no meu dia a dia por vários motivos, seja simplesmente por ler coisas sobre música e som, seja por comunicar sobre o que faço a solo ou colectivamente com as pessoas com quem trabalho no dia a dia, como por exemplo com o resto da malta da Favela Discos quando desenvolvemos peças colectivas: obviamente que precisamos de verbalizar sobre o que queremos fazer, e eventualmente queiras conceptualizar ou não o que fazes acabas sempre por ter alguns pensamentos sobre o que é aquilo que estás a fazer. Nesse sentido uma coisa que me interessa, por exemplo, é a relação entre a ambiguidade e a audição profunda. Da mesma maneira que com uma audição profunda consegues descobrir melodias, ritmos, tons, etc na paisagem sonora de uma cidade, também consegues ir percebendo novas camadas sonoras no tipo de música que eu faço, por entre as melodias mais óbvias consegues perceber outras melodias, assim como as consegues distinguir no meio da massa sonora e do ruído. Nesse sentido acho que a relação com a paisagem sonora da cidade acaba por ser essa, a de descobrir alguma lógica musical no meio da massa sonora a que estamos expostos, entre carros, ventoinhas e turbinas, aquelas cenas barulhentas de ar condicionado, e todas as coisas que fazem o chão sonoro que por vezes nem nos apercebemos que está lá.

 

O fenómeno global do ’The Hum’, com relatos de pessoas quase perseguidas por frequências ultra baixas em zonas residenciais ou industriais, é considerado um som desagradável, que causa insónias e dores de cabeça. São os últimos efeitos que iria descrever ao ouvir o teu disco. O disco tenta redimir este tipo de som e pô-lo num contexto diferente?

Bem, em primeiro lugar obrigado pelo elogio. Agora, em relação ao fenómeno do The Hum, creio que ele é desagradável também porque é um som intruso, indesejado e permanente, mas não sei se num concerto de música experimental esse som não seria aceitável (risos). A minha ideia não é bem redimir o fenómeno, simplesmente acho que adoptei o nome assim como um termo mais abrangente, como disse em cima acho que o meu The Hum fala mais do som das cidades que não nós é perceptível imediatamente. O fenómeno do The Hum também não é audível por todas as pessoas, aparentemente parece haver pessoas que são mais sensíveis a esses “Hums” e outras que não são tanto. Ou seja não me interessou falar de um som violento que persegue as pessoas mas simplesmente de um som que só ouvimos quando despertamos para a sua existência ou algo assim. Interessa-me a ideia, mas não me interessa tanto a text-book definition do conceito, e como em relação à música, dos principais motivos pelo qual escolhi o nome foi por intuição, gostei da mística da ideia e pareceu-me um nome fixe. Para além disso também aproveitei este tema e título para uma banda desenhada, que foi editada pel’ O Panda Gordo em 2016 ou 2017, e na altura achei que seria fixe ligar as duas coisas por trabalharem um pouco a mesma ideia de maneiras muito diferentes.

 

 

Como achas que o disco e a música muda quando tocas ao vivo? Fizeste alguns ajustes para o concerto do OUT.FEST?

Bem eu na verdade não estou mesmo a tocar as músicas do disco, o que eu estou a fazer é utilizar os mesmos meios e técnicas para criar novas músicas. O disco foi criado em improvisação, que é o que faço ao vivo, sendo que ultimamente já tenho levado alguns loops iniciais gravados para não ser tão boring. Durante os ensaios ainda tentei replicar algumas das músicas dos discos, mas não gostei do resultado, por estar muito preocupado em tentar fazer que a música soasse igual ao disco acabava por fazer uma cópia foleira da música do disco, que nem soava 100% igual ao disco, nem era uma música tão interessante como as do disco. Portanto achei melhor simplesmente usar as técnicas que usei no disco para criar algo novo, que não é o que está no disco mas que de certa maneira faz parte daquilo que é o disco.  Para o OUT.FEST a única coisa que fiz de especial foi escolher uma série de loops à partida para usar, mas a preparação do concerto foi toda muito caótica porque foi a primeira vez que usei a cenografia e foi assim tudo mesmo em cima da hora. Acho que assim o maior ajuste que fiz para o concerto foi mesmo a existência da cenografia da “cidade” ou como lhe quiserem chamar, era algo que eu já queria fazer desde o início e que ainda não tinha feito, e fiquei bastante contente com o resultado.