Viegas – Entrevista

Parte do impressionante colectivo mina, participante nas festas Rabbit Hole e já de há tempo parte da Rádio Quântica, Viegas é um artista e DJ barreirense que fez parte da noite de encerramento do OUT.FEST 2019 no espaço A4. Antes do festival tivemos a oportunidade de conversar com ele sobre o seu percurso artistico, e a sua actividade nos colectivos que integra numa entrevista que agora divulgamos.

Como e quando descobriste o techno e a música eletrónica de club?

Em 2014 passei uns meses fora de Portugal, em Barcelona, e a forma que encontrei de criar relações (com a cidade e conhecer pessoas) foi a sair à noite. O River Dealer do Burial tinha sido lançado há pouco tempo e esse EP foi também uma porta de entrada para a electrónica, principalmente para a cena musical do UK, e foi uma porta de entrada para outras coisas.

Que clubes e noites mais frequentavas, depois desse período formativo? Se calhar mais aqui no Barreiro e em Lisboa?

No Barreiro as minhas noites eram mais na rua…mas em Lisboa o Lux, e algumas festas da Rabbit Hole e noites Príncipe.

Antes de irmos ao teu coletivo, queria perguntar-te rapidamente sobre as Rabbit Holes – porque eram festas que apesar de serem associadas à música de dança eram muito variadas, cheguei até a ver um amigo que fazia música drone a atuar numa. Achas que essa mistura de estilos de música diferente que influenciou a tua forma de ser DJ?

Sim, de certa forma. Na Rabbit Hole havia lugar para todo o tipo de expressões artísticas, tudo cabia numa noite. Esse ecletismo que havia na programação talvez me tenha influenciado, sim.  Ter crescido no subúrbio também teve um grande impacto na minha percepção de música eletrónica e nos meus interesses. Comecei a ouvir Kuduro e Kizomba muito antes de Techno ou House ou qualquer outro estilo…então ultimamente tem sido mais um trabalho de perceber como misturas as várias referências que tenho em algo que se adequa ao momento em que estou a tocar.

Falando agora sobre a mina, como é que ela surgiu e como é que te juntaste a ela?

A mina surgiu de um juntar de forças entre a Rabbit Hole e a Rádio Quântica (outro projeto a que acabei por me juntar pouco tempo depois de ter começado a colaborar com a Rabbit Hole). Na altura faltava em Lisboa uma noite de música eletrónica onde houvesse espaço para experimentares com a tua identidade e sexualidade…onde as regras fossem…subentendidas, mais baseadas no respeito entre as pessoas e não aquelas regras que estão associadas a espaços mais institucionalizados. o Pedro Marum, que foi uma das pessoas que fundou a Rabbit Hole, e que também se juntou à Rádio Quântica mais ou menos na mesma altura que eu, teve a ideia de criar estas noites com a Violet e com o Photonz, que são os fundadores da Rádio Quântica, e como eu estava a colaborar com os dois projetos fui convidado a ajudar.

Quanto à Rádio Quântica, tu ainda tens o programa de rádio “Mercúrio”?

Bem entretanto mudou para rave3000, e ultimamente não tenho feito com tanta frequência, mas sim.

Como é que diferem as playlists que fazes para a rádio do que passas na pista de dança? Quais são as diferenças e as semelhanças, o que tentas trazer para um e para o outro?

Se calhar começando pelas semelhanças: acaba por vir tudo do mesmo sitio, os critérios são semelhantes, eu tento ser inclusivo e ter sempre o meu foco mais afastado do centro. Com o programa não tenho tantas preocupações, se a música é dançável ou como vai ser recebida, porque acho que é um espaço muito mais experimental e com muito menos expectativas da parte de quem ouve. E também tento sempre dividir o slot com outra pessoa, por isso varia também de quem convido. Na rádio para mim o mais importante é dar oportunidade a outras pessoas de terem acesso a esta plataforma, tenho a certeza que se não existisse Rádio Quântica teria sido tudo muito mais complicado para mim.

Tu já tocaste lá fora várias vezes, em Berlim por exemplo…

Sim…neste último ano tive a oportunidade de tocar em várias capitais Europeias, Londres, Paris, Atenas…

São capitais bastante diferentes, e conhecidas pela sua vida noturna…como é que achas que Lisboa se compara com esses sítios? A cidade tem alguma coisa de único nesse sentido?

Em Lisboa estou mais confortável, então sinto-me mais à vontade para experimentar certas coisas. Normalmente também toco em contextos em que o público está habituado a ouvir de tudo, e essa diversidade é celebrada. Talvez por não termos grande variedade de festas especificas a certos géneros é habitual haver esta convergência. Em Londres, por exemplo, senti o mesmo, mas no UK a história da música electrónica é muito rica e diversa.  Não sei se será uma coisa única, mas sendo uma cidade pequena é fácil conheceres pessoas de cenas diferentes.

Tu estudaste Cinema Documental, não foi?

Eu comecei por estudar Publicidade e Marketing, na Escola Superior de Comunicação Social, mas apercebi-me muito rapidamente que não era isso que queria fazer e depois tirei um curso de Cinema Documental de um ano e estudei Fotografia no Ar.Co e nas Belas Artes.

Sei que tiras fotografias nas noites da mina e do Rabbit Hole. Achas que alguma dessa formação se infiltrou no teu trabalho? Não só na fotografia, mas também na forma como és DJ?

Acho que foi mais ao contrário, foi o clubbing que acabou por se infiltrar na minha fotografia. Foi na noite que o meu interesse por fotografar despertou, porque tive vontade de registar o que estava a acontecer. Agora não sei, no futuro eu adorava também apostar mais numa componente visual nos meus shows, por isso talvez a coisa vire ao contrário, e seja a fotografia a influenciar a minha forma de ser DJ.

Voltando aqui ao Barreiro – Tu nasceste e cresceste lá, e ouvias o festival, o OUT.FEST, do teu quarto, segundo um post teu. Podias falar-me sobre as tuas experiências de OUT.FEST, partindo mesmo dessa escuta no teu quarto?

Sim,  eu vivia muito perto dos Ferroviários, e houve várias edições que aconteceram lá. Então lembro-me de ser mais novo e não conseguir classificar o tipo de música que estava a ouvir, e isso sempre me despertou interesse. Quando comecei a ir foi muito importante perceber que existem outras linguagens e possibilidades…ver pessoas com abordagens muito criativas aos instrumentos, enquanto o público é paciente e receptivo. Descobrir lendas do ambient e do drone com quem possivelmente nunca me iria cruzar, tudo isto em espaços incríveis que o resto do ano passam despercebidos. O tipo de música que ouço em casa quando não estou a preparar um set é muito influenciado pelo que ouço no OUT.FEST.

Tens algum mix especialmente preparado para o OUT.FEST? Com o que podemos contar para o encerramento do festival?

Eu vou tentar manter-me perto de lançamentos mais recentes. Quero que de alguma forma represente o que tenho ouvido e tocado nos meus últimos sets,  dando prioridade a cenas mais experimentais que noutros sítios não funcionariam tão bem. Quero também ir a muitos lugares…mas vamos ver o que acontece!

Entrevista por: Tiago Franco

Angélica Salvi – Entrevista

Angélica Salvi é uma harpista espanhola radicada no Porto há alguns anos, que tem erigido um trabalho exploratório no seu instrumento com uma variedade realmente heterogénea de colaboradores musicais e transdisciplinares, ainda que essencialmente focada em trabalho de improvisação. Para além de leccionar no Conservatório de Música local, já realizou trabalho como solista com a Orquestra Sinfónica da Casa da Música ou o celebrado Remix Ensemble.

Das suas colaborações com músicos icónicos como Han Bennink ou Evan Parker, do que lhe conhecemos em palco e de discos, o seu vocabulário vai sempre se adaptando – mantendo a identidade – de acordo com contexto e ideias, a nível de timbragens e efeitos. A ver o seu discurso solista, que já foi apresentado por diversas vezes pela Europa e Estados Unidos.

Tivemos a oportunidade de conversar com ela antes da sua actuação no OUT.FEST 2019, e convidamo-vos a ler o resultado dessa conversa abaixo.

Quando e porque é que te mudaste para Portugal? O que te fez ir para o Porto, especificamente?

Eu estava a morar na Holanda, onde estudava, e recebi um e-mail de uma professora a dizer que precisavam de alguém para dar aulas de harpa no Conservatório de Música do Porto e perguntou se eu tinha disponibilidade. Pensei, por que não? Assim, em Setembro de 2011 mudei-me para o Porto. Entretanto ia e vinha da Holanda uma vez por mês para acabar o mestrado que tinha começado.

Há quanto tempo começaste a tocar harpa?

Desde os meus 11 anos.

E o que é que te levou a apostar neste instrumento em particular?

Foi uma coincidência. Naquela altura, eu tinha começado a estudar piano. Eu fiz as provas para estudar no Conservatório e quando fui aceite escolhi piano como primeira opção e harpa como segunda (por ser o mais parecido). Não havia vagas para piano e fiquei em harpa. Gostei, apesar de na altura não conhecer bem o instrumento.

É o teu instrumento principal, mas houve alguma vez em que decidiste mudar de instrumento, ou houve algum outro que te tivesse cativado?

Eu tinha um piano em casa (a minha mãe estudou e tocava piano) e houve uma altura em que tocava piano e harpa, e para mim os dois instrumentos têm muito em comum. Embora goste muito de outros instrumentos para alem destes dois, nunca decidi explorá-los a sério.

Quando te começaste a interessar pela improvisação? Normalmente não é algo muito ensinado em escolas, especialmente para a harpa… houve algum momento, alguma ideia, artista ou concerto que te tenha despertado o interesse nesta abordagem à música?

Bem, eu sempre estive muito interessada na parte criativa artística em geral. Andei 3 anos nas Belas Artes,  gosto muito de desenhar e sempre gostei de inventar coisas novas. Na minha escola tive um método de ensino muito conservador (ainda bem que depois mudaram um pouco as coisas), portanto tive de procurar e explorar por mim. Procurava algum tipo de liberdade e a única alternativa que eu encontrei naquela altura (que fosse mais alem da música escrita) foi o Jazz. Tive algumas aulas de jazz, conheci uma professora de harpa que dava aulas de jazz na Universidade do Arizona e fui estudar com ela durante ano e meio. Depois continuei os meus estudos na Holanda no Conservatório de Música e na Dutch Impro Academy, onde conheci aos músicos da ICP Orchestra e da Brokken-Fabriek  (Amsterdão), desta forma descobri o mundo do free jazz.  Por tanto a improvisação faz parte do meu percurso já alguns anos.

Falei com o Peter Evans há alguns dias e ele disse-me que tem sempre dificuldade em ensinar às pessoas a forma “correta” de tocar música, e que o método de ensino dele não é tanto mostrar como se “deve” fazer algo, mas sim servir de guia para novas possibilidades musicais. Também tens algumas dessas dúvidas, sobre a melhor forma de ensinar música e harpa? Como é que guias os teus alunos nas suas aprendizagens?

Eu tenho sempre muitas dúvidas… nós, os professores, estamos sempre a aprender coisas novas com os alunos.  Falo sempre com muitos colegas e também com os meus alunos para experimentarmos diferentes métodos e fórmulas. Alguns dos meus alunos são muito jovens, por isso tenho de tentar encontrar um equilíbrio entre o que é a parte criativa e a parte teórica. Por um lado, eles têm de aprender a parte teórica (apesar de que as vezes isso seja um pouco repetitivo e monótono) para conseguir atingir uma certa técnica e posição de modo a dominar minimamente o instrumento. Às vezes é um pouco complicado porque requer muita paciência, consistência e rotina.  É uma espécie de arte marcial.

A procura desse equilíbrio, é que não é nada fácil. Também depende muito das pessoas, da personalidade de cada um, por isso é importante adaptar as aulas a cada aluno e perceber o que cada um gosta ou com o que se sente mais à vontade.

E depois pronto, a partir de aqui sim, concordo com Peter Evans: o professor deve servir como guia para novas possibilidades!

Tens alguns projectos para o futuro próximo que gostarias de divulgar?

Tenho vários projectos a acontecer, estão todos no meu website: www.angelicasalvi.net.

Tu já colaboraste com vários músicos Portugueses, como por exemplo, o Rafael Toral – sentes que haja alguma abordagem à música, particularmente improvisada, que seja única aqui em Portugal? Claro que toda a gente tem a sua personalidade, mas achas que há algo de especial na abordagem desta comunidade em Portugal?

Acho que cá em Portugal os artistas tem uma coisa muito fixe. Julgando pelo que vi, parece-me que os músicos que conheci tem todos projectos e colaborações muito diferentes, não fazem uma coisa só ou gostam de um estilo especifico, são muito abertos e dominam áreas muito diferentes que se complementam.  Esta forma abrangente e livre de abordar a arte, permite criar projectos colaborativos muito interessantes.

Tinha a sensação, sobretudo quando morava na Holanda, que nos últimos tempos há uma tendência para a especialização: na educação, nas artes… parece que um artista tem de ter um estilo muito específico predefinido, até com certas regras para conseguir encaixar em algum lado ou ter uma etiqueta (muitas editoras fazem pressão constante aos artistas com este tipo de coisas). Penso que isto é um caminho errado porque o resultado acaba por ficar formatado, globalizado e aborrecido… por isso sinto-me muito feliz neste país, penso que os artistas conservam e protegem muito a sua essência e acreditam mesmo em aquilo que fazem. Esta é a experiência que tive com o circulo de músicos que me adotaram.

Entrevista por: Tiago Franco

 

OUT.FEST 2019 – O cartaz final

Aí está o cartaz final do OUT.FEST 2019, a 16ª edição do nosso grande encontro anual de descobertas sonoras.

Entre os dias 3 e 5 de Outubro, vamos ter 26 concertos em 9 (!) espaços diferentes do Barreiro, muitos deles acolhendo pela primeira vez concertos na história do festival.

Os passes globais (a desaparecer rapidamente) e agora os bilhetes diários encontram-se disponíveis via BOL e nos balcões das lojas FNAC, Worten, CTT e restantes parceiros da BOL em todo o país.

Conheçam os novos nomes do cartaz abaixo, e descubram toda a informação (incluindo espaços e horários) sobre a edição deste ano em outfest.pt

OUT.FEST 2019: Datas anunciadas (e bilhetes à venda)

Está lançada a 16ª edição do OUT.FEST – Festival Internacional de Música Exploratória do Barreiro, a decorrer entre dias 3 e 5 de Outubro, como habitualmente em vários espaços da cidade (com novas salas em estreia prometida!), com particular destaque para o centro do Barreiro.

Enquanto não anunciamos os primeiros nomes, podem desde já adquirir o passe global de acesso a todos os dias do festival ao preço especialíssimo de 16€ e em quantidade limitada – 100 passes – aqui.

Marquem na agenda estes três dias de descoberta.