OUT.RA Música de regresso: concertos de Janeiro a Abril pelo Barreiro

Entramos no novo ano a todo o gás, com o anúncio de vários concertos na programação regular OUT.RA Música até Abril, pelo Barreiro.

 

A 28 deste mês regressa à ADAO a Noite da Raposa, o nosso espaço de periodicidade incerta para celebrar nomes emergentes nas electrónicas e além, no reboliço de dois palcos sem pausas; desta vez com Zima, Oseias, Zarya, Supperminer, The World According to Mel & Thep e Shikabala.

 

Fevereiro começa com o regresso do argentino Alan Courtis para uma semana de trabalho na Associação Nós e o seu concerto com os Heróis Indianos Romanos Africanos na Biblioteca Municipal (dia 12), e continua na Sala 6 com o concerto de Leonor Arnaut & Ricardo Martins (dia 24).

 

Em Março, de novo na Sala 6, recebemos a música livre e impactante do duo norte-americano Blacks’ Myths (o baixista Luke Stewart, dos Irreversible Entanglements e o baterista Warren Crudup III) e da bracarense Inês Malheiro (dia 11) e o trio-maravilha de Alex Zhang Hungtai, Pedro Sousa & Gabriel Ferrandini (dia 24) e a 30 rumamos à Biblioteca Municipal para o encontro improvisado entre o violoncelo de Daniel Levin, o piano de Rodrigo Pinheiro e o contrabaixo de Hernâni Faustino.

 

Por fim, a 21 de Abril, regressamos à Sala 6 para um concerto de Rita Silva, compositora portuguesa radicada na Holanda que no ano passado editou o promissor “The Inflationary Epoch”.

Estão já à venda os bilhetes para todas estas noites (com excepção de 12 de Fevereiro, tarde de entrada livre) via outra.bol.pt e lojas habituais.

Pedro Alves Sousa em residência artística no AMAC

Ao longo da última semana temos acolhido no Barreiro o saxofonista e compositor extraordinaire Pedro Alves Sousa, em residência artística no Auditório Municipal Augusto Cabrita, onde o músico tem vindo a trabalhar e avançar na sua ópera/instalação/performance “A Vaia Viva”, adaptação sua do conto “Las babas del diablo”, de Julio Cortázar.

Nesta residência o foco principal está centrado no desenvolvimento da composição sonora com recurso a amplificadores e máquinas de bobine (reel-to-reel), e no domingo, dia 27, convidamos todos para uma apresentação do trabalho até agora realizado, em jeito de ensaio aberto, na sala de trabalho utilizada pelo músico, bem nos interstícios do AMAC.

A entrada é livre, e o público deve dirigir-se ao átrio principal do Auditório, pelas 17h, para que em grupo nos possamos dirigir, por escadarias e corredores meio secretos, ao encontro do músico.

Entrevista a Erwan Keravec

Erwan Keravec é um músico francês (Bretanha), cujo instrumento de eleição é a gaita-de-foles. Com ela, atravessa a tradição e abraça a modernidade e a improvisação, interpretando com regularidade os cancioneiros históricos do instrumento, peças escritas para si por diversos compositores contemporâneos, peças suas para teatro e dança ou improvisando com nomes fortes do jazz europeu. Actuou na Igreja da Nossa Senhora do Rosário no Barreiro em Julho de 2019, e depois do seu soundcheck aproveitamos para lhe fazer uma entrevista que agora partilhamos convosco.

Olá Erwan, podes falar-nos um pouco sobre o teu background enquanto músico e como escolheste a gaita de foles como o “teu” instrumento?

Eu cresci com a música tradicional. Os meus pais dançavam ao estilo tradicional da Bretanha, com música tradicional da Bretanha, e quando eu era uma criança os primeiros instrumentos que ouvi foram a gaita de foles e o bombarde, um tipo de oboé. Aprendi a tocar a gaita de foles no seu contexto tradicional, para marchas e danças. Um dia toquei com uma orquestra em Bern com gaitas de foles, tarolas e bombarde, e encontramo-nos com uma big band de jazz. Foi aí que improvisei com a gaita de foles pela primeira vez, e a partir dai decidi focar-me na música improvisada, apesar de o meu background ser mesmo a música tradicional.

Já experimentaste outros instrumentos da família da gaita de foles, de outras tradições musicais? Como os compararias à “tua” versão?

Há dois anos toquei num trio com duas outras gaitas de foles – uma da Algéria, outra do Irão, e a minha. Ao inicio a minha ideia era que iriamos os três tocar solos, e quando estávamos a ensaiar claro que experimentamos as gaitas de foles dos outros, e não foi muito fácil… (risos). A forma de tocar é diferente, embora o sistema de respiração e sopro seja o mesmo, claro, mas o jogo de dedos é totalmente diferente, por isso não é muito fácil tocar outros tipos de gaita de foles…foco-me na da Bretanha exclusivamente.

Tens estado em tour com o teu trio “Revolutionary Birds” (com o Wassim Halal e o Mounir Troudi). Como surgiu esta colaboração?

Os Revolutionary Birds nasceram de um desafio feito por dois festivais, o Irtijal em Beirute e o La Voix est Libre em Paris, e a ideia que os responsáveis desses festivais tiveram foi misturar música do Irão, do Líbano, da Tunísia de da Bretanha. Apesar de não ter começado como uma ideia nossa, após esses festivais nós os três decidimos pegar no projecto e ir em tour com ele. Para mim isto é diferente do que costumo fazer – quando toco a solo, duo ou trio, etc, as coisas partem sempre de ideias minhas, mas esta foi a primeira vez que toquei em algo que partisse de ideias de outros. Ao inicio fiquei um bocado a pensar: “Ok, que tipo de banda é esta?” Trabalhamos muito com a percussão logo desde o início do processo de composição, por isso a estrutura da nossa música é toda baseada na gaita de foles e na percussão, com as vozes a vir depois. Mas não é o que eu costumo fazer – normalmente pego numa ideia e desenvolvo-a do início ao fim, por isso isto é novo para mim.

Como tem sido recebidas as actuações do trio? Os públicos têm gostado?

Sim, em todos os tipos de contextos, até em festivais de rock. Não tocamos rock, mas também não é world music…não toco musica da Bretanha, só a gaita de foles da Bretanha, e o vocalista, o Mounir, também não canta música Tunisina – ele faz um pouco de Mawwal, que é musica improvisada da Tunísia, mas não são músicas inteiras, é um improviso que faz parte da música. Mas pronto, em festivais de música tradicional e de world music a recepção é boa, e em festivais de música nova também, por isso…é estranho. (risos)

Hoje vais trazer-nos o teu projecto “Urban Pipes” – podes explicar-nos o conceito que está por trás desse projecto?

No início este projecto era apenas de estúdio, e na altura não queria tocar esta música em concerto, queria apenas gravar. Tocar a gaita de foles a solo é a forma tradicional de usar o instrumento, e o que me fez lançar este projecto foi querer fazer música nova para a gaita de foles. Por isso peguei na forma tradicional deste instrumento, e depois anos depois, quando comecei a dar concertos, decidi tocar apenas uma peça e mexer-me muito durante a performance, mudar muito… Após lançar o meu segundo disco eu próprio já tinha mudado muito e composto mais e…o “Urban Pipes” é a minha concepção do que é a música de gaita de foles, o que eu consigo fazer com o instrumento.

Quando iniciei o projecto, queria fazer música sem qualquer referência à música tradicional. É possível a gaita de foles ser o seu próprio instrumento, e não só um instrumento exclusivamente usado em música tradicional? Como seria música nova para este instrumento? Era isso que eu buscava, mas não foi fácil porque foi justamente nessa tradição que eu cresci, por isso a minha forma de imaginar a música é naturalmente influenciada pela música tradicional. Mas agora é diferente, porque já trabalhei muito em música nova, em música contemporânea, o que me permite concepcionar a música de forma diferente, mas em 2007 não era esse o caso… a música tradicional da Bretanha é a música do campo, não da cidade, e quando comecei a explorar esta música nova queria ver o que seria a música urbana para a gaita de foles.

Já actuaste em igrejas?

Sim.

E gostaste da experiência?

Sim, claro!

Então porque?

Porque o som é muito alto, há muita reverberação. O som pode estar em qualquer lado, é possível tê-lo a vir da frente, de trás, as igrejas são óptimas para isso. Eu não gosto muito de tocar na rua porque não há paredes, o som não é reflectido, e numa igreja ele reflecte em todo o lado, por isso…adoro tocar em igrejas.

O que achaste desta igreja [Igreja da Nossa Senhora do Rosário] e do som dela?

Vai estar alto (risos)…vai estar alto. Mas isso é bom! (risos)

ERWAN KERAVEC

Erwan Keravec é um músico francês (Bretanha), cujo instrumento de eleição é a gaita-de-foles escocesa. Com ela, atravessa a tradição e abraça a modernidade e a improvisação, interpretando com regularidade os cancioneiros históricos do instrumento, peças escritas para si por diversos compositores contemporâneos, peças suas para teatro e dança ou improvisando com nomes fortes do jazz europeu.

A solo, é notável a forma como cria um espaço físico e sonoro de imersão total, radicalmente diferente de tudo o que possamos ter experienciado – impressionante, comovente e desafiador.

A caminho do Festival de Músicas do Mundo, em Sines, onde actuará com o seu trio ‘Revolutionary Birds’, pára no Barreiro para a primeira programação da OUT.RA na icónica Igreja da Nossa Senhora do Rosário. Um concerto a não perder.

 

Entrada: Donativo de 4€

Sexta-feira há jazz na Biblioteca

É já nesta sexta-feira, dia 21, que a Biblioteca Municipal do Barreiro recebe um quarteto absolutamente abençoado, com músicos de primeira linha internacional a estrear trabalho colaborativo recente em Portugal.
 
Luís Lopes (guitarra), Fred Lonberg-Holm (violoncelo), Ingebrigt Häker Flaten (contrabaixo) e Gabriel Ferrandini (percussão) andam pelo país em concertos e gravações, com o fogo do free-jazz e da livre improvisação a espalhar-se por palcos e estúdios nacionais. Sexta-feira é a nossa vez de sentir a energia no ambiente próximo da biblioteca. A não perder!
 
Os bilhetes podem ser comprados no Posto de Turismo (estação fluvial) e no Vitoriana’s Spot (Av. Alfredo da Silva), ou reservados para o mail habitual info@outra.pt
 
Até já!

Lonker See / Lunnar Lhamas

Os LONKER SEE são um estrondoso quarteto polaco que mergulha no jazz e no psicadelismo rock com toda a segurança e desenvoltura do mundo – espaço, peso e jams balanceadas na perfeição pela bateria, guitarra, baixo e saxofone, espelhados num disco “One Eye Sees Red” que lhes tem valido criticas superlativas em fóruns insuspeitos como o The Quietus, por exemplo, e palcos por toda a Europa numa longa tour com passagem agora pelo Barreiro.

LUNNAR LHAMAS é o duo de André Neves e José Veiga, dois artistas barreirenses emergentes que aqui desenvolvem o seu amor pelas paisagens ambient e, ao mesmo tempo, pela propulsão rítmica – num projecto que tem vindo a prometer.

Entrevista a Ernesto González (Bear Bones, Lay Low)

Falamos com o Ernesto González (Bear Bones, Lay Low e outros projectos) antes do seu concerto na ADAO sobre a sua tour Portuguesa, as cenas musicais Belga e Venezuelana e muito mais. Leiam tudo abaixo:

Foto cortesia do Pedro Roque – Eyes of Madness

Olá Ernesto, estás em tour em Portugal já há algum tempo, como tem sido a tua experiência por cá até agora?

Sim, tenho estado em bastantes sítios desde o norte até aqui ao Barreiro, e tem sido bastante especial na verdade…eu não sabia bem o que esperar, mas tem mesmo excedido as minhas expectativas – tenho tocado em todo o tipo de espaços todas as noites, conhecido pessoas mesmo maravilhosas e mágicas, e os concertos tem sido constantemente bons, mesmo eu sendo bastante crítico do meu próprio trabalho…não sei, esta tour tem sido tipo: “Isto é fixe, não estou a fazer tantas asneiras, ou então estou a enganar-me da maneira certa…” e o pessoal tem gostado da música todas as noites, apesar da ideia que eu tinha dos públicos em Portugal serem mais reservados. Pelo menos em muitos dos sítios onde toco, como só sou eu a tocar, as pessoas chegam, estão meio silenciosas ao inicio e depois dependendo da situação podem começar a entrar mais na coisa e começar a dançar. Mas é engraçado, pensava sempre que não estavam a gostar muito, mas depois no fim era tudo bastante bem recebido. Por isso sim, isto tem sido uma tour memorável, graças à Ya Ya Yeah Music.

A tua música parece profundamente orgânica apesar de usares instrumentos electrónicos. Podes falar-nos um pouco sobre a história, inspiração e influências de Bear Bones, Lay Low?

Comecei este projecto talvez há 11 anos, ou até mais, tinha 16 anos…as primeiras gravações que fiz foram lançadas com este nome. Isto era suposto ser só um projecto de noise – quando tinha 16 anos gravei muita coisa sozinho inspirado pelo underground do noise e da música psicadélica que estava a acontecer no inicio de 2000, principalmente coisas dos Estados Unidos e da Europa. Foi quando cheguei à Europa, à Bélgica, desde a Venezuela que entrei mesmo nesta música underground, notei que toda a gente estava a fazer a sua própria cena e isso inspirou-me, e comecei a explorar várias coisas diferentes, um era uma espécie de projecto de folk psicadélico, o outro era suposto ser mais noise com guitarras…e Bear Bones era mesmo um projecto de harsh noise com coisas simples, e era o projecto de que eu gostava menos, na realidade (risos). Mas como era a única coisa que conseguia fazer ao vivo, acabei por começar a tocar com esse nome, e tudo o que andava a fazer na altura acabou por se fundir no que faço agora, no projecto Bear Bones, Lay Low.

Então o projecto continuou a evoluir – quanto mais ouço diferentes tipos de música mais eles me influenciam, e acabo por aplicar o que aprendi de outros discos e músicos no meu som. Um evento importante foi quando um amigo meu apareceu com um Korg MS-10, um sintetizador analógico, e isso mudou mesmo a minha vida – eu não sou um viciado em sintetizadores mas adoro-os, esses sons electrónicos…isso foi o ponto de viragem, e comecei a desenvolver mais a minha música em vez de ficar só no noise e no drone, que era o que fazia com as cenas de Bear Bones até ai 2009 e 2010, e comecei a fazer musica mais parecida com, tipo, música cósmica…ouvia coisas como Cluster, os primeiros discos de Tangerine Dream, toda essa música alemã, o Conrad Schnitzler deixou-me parvo, ainda me deixa parvo hoje em dia, é um dos artistas que eu mais admiro.

Eventualmente comecei a tocar com outro amigo meu chamado Mike, criamos uma banda juntos chamada Tav Exotic, e começamos a tocar coisas mais…vamos dizer música de dança, coisas electrónicas mas com ritmo, e eu também comecei a integrar isso com Bear Bones, por isso agora é um misto de musica electrónica cósmica e repetitiva com ritmos pesados e um som meio maximalista, tentar fazer sons que são mesmo gigantescos…inspiro-me muito nos Skullflower e Sunroof, essas bandas ainda me inspiram hoje em dia…Tudo isto evoluiu de aprender com outros discos, ouvir muita coisa, gosto sempre de descobrir musica nova…não sinto que tenha algo de particularmente original, só pego em coisas daqui e dali e faço uma colagem.

Ao longo dos anos tens feito parte de vários projectos, incluindo Silvester Anfang, Steenkiste / Hellvet e mais recentemente Tav Exotic (com o Weird Dust) e lançaste splits com vários artistas. O que procuras nestas colaborações e como é que o processo criativo difere da tua música a solo?

Suponho que quando começo a colaborar com outras pessoas que isso de alguma forma começa de uma ideia que tivemos juntos. Com os Tav Exotic, o Mik também tem muitas influências de música cósmica, temos gostos muito similares, mas a abordagem era suposto ser um pouco menos…barulhenta, queríamos fazer mais coisas com beats… Mas agora que penso nisso, nestas colaborações e projectos acaba tudo a ser o que sai naturalmente – quando o Mike e eu tocamos fazemos este tipo de coisa, música electrónica sequenciada e repetitiva, estás a ver? Quando toco com os meus amigos do Jooklo Duo, a Virginia e o David (temos um projecto de electrónica abstracta chamado YADER), o que fazemos são improvisações electrónicas, por isso vejo isto mais em termos de ficar a conhecer as pessoas, é como uma conversa que consigo ter com algumas pessoas. Tu não usas a mesma linguagem com toda a gente, não falas com os teus avós da mesma forma que falas com os teus amigos, e é a mesma coisa nestas colaborações, é um dialogo e um processo de ficar a conhecer pessoas, e o que sai é uma extensão natural desta comunicação, por isso embora possam haver ideias precisas sobre um som, tudo aquilo em que me tenho envolvido tem sido sempre bastante orgânico, digamos assim…

Estou sempre a tentar fazer música com outras pessoas e acho que a melhor forma de o fazer é quando são só duas pessoas, talvez três…quer dizer, nos Silvester Anfang éramos tantos que mais para o fim, por volta de 2012 (eu juntei-me à banda em 2006) começou a ser difícil – éramos sempre entre seis e oito, nove pessoas, e ao fim de algum tempo toda a gente começou a afastar-se, enquanto que se forem só duas pessoas dá para se fazerem coisas maravilhosas, é como um bom casal…(risos)

É difícil gerir uma banda grande, especialmente porque há sempre alguém que tem que tomar as rédeas, e nem toda a gente está ok com esse tipo de organização. Mas é um espelho de como a sociedade funciona, pode-se desenhar um paralelo ai, há algumas pessoas que querem tomar a iniciativa de criar uma estrutura, outras pessoas estão lá para questionar essa estrutura, outros podem ter uma função mais de apoio, e toda a gente encontra o seu próprio lugar para fazer as coisas funcionar, mas quando não sabes o teu lugar e começas a criticar o das outras pessoas é quando as coisas começam a ficas disfuncionais e acabam por se desmoronar. O que aprendi nessa banda é que muito importante saberes o teu lugar, às vezes és o líder, outras vezes estás mais atrás, tens que aprender onde ficas.

Há alguns artistas específicos com os quais gostavas de colaborar?

Deixa ver… Fogo, claro que adorava fazer uma jam com o Matthew Bower, eu adoro-o, isso seria incrível, só tocar guitarra com aquele gajo. Hmm…a maior parte das pessoas com quem estou ansioso por colaborar são amigos, tirando esses heróis que sempre tive, como o Matthew Bower, o Ben Chasny dos Six Organs of Admittance…fico mais excitado ao conhecer novas pessoas com as quais posso criar uma amizade e fazer música. Recentemente conheci umas pessoas com as quais estou bastante interessado em começar algo, como uma banda do Reino Unido chamada Guttersnipe, não sei se já ouviste falar deles, mas são uma cena mesmo freak rock, rock maluco, um duo meio tipo Arab on Radar mas mais dementes, e a guitarrista tornou-se uma grande amiga minha e começamos a colaborar e a fazer música juntos. É difícil pensar nisto assim de repente…talvez tocar com os Black Witchery também fosse fixe (risos). Eu estou sempre aberto a fazer música com pessoal, só juntarmo-nos e tocar, e se a coisa funcionar…isso é que me deixa excitado.

Já vives em Bruxelas na Bélgica há vários anos: podes falar-nos da cena músical da cidade (e do país) e como ela te recebeu? Há algumas bandas ou músicos que queiras recomendar?

A cena tem mudado desde que me mudei para lá – sinto que em Bruxelas o underground hoje em dia cresceu, pelo menos o tipo de música pela qual me interesso e o tipo de sítios a que vou…em grande parte devido à enorme quantidade de Franceses que vieram viver em Bruxelas e que dão muita vida ao underground lá, sinto que se não fossem eles…ainda está lá a velha guarda que tem feito coisas desde sempre no underground experimental, no underground da música livre – gosto de lhe chamar isso porque é só uma área aberta para todos os tipos de música onde o estilo não é muito importante, mas sim a iniciativa de fazer música pelos teus próprios meios.

Por isso sim, no underground da música livre não há assim tantas associações e organizações genuinamente belgas a fazer coisas acontecer, mas felizmente há todo este pessoal estrangeiro a vir fazer coisas, abrir espaços…mas também há tantas coisas que ainda não conheço em Bruxelas, mesmo passados 15 anos lá, a cidade está cheia de surpresas e isso é uma coisa muito fixe sobre a Bélgica – não parece assim tão divertida à superfície, parece um sitio cinzentão, mas se fores procurar encontras todo o tipo de coisas incríveis a acontecer….

Posso sempre recomendar a Orphan Fairytale, é uma artista incrível de Antuérpia. Ela não anda a tocar assim tanto ultimamente mas ainda faz música, e toda a gente devia espreitar os discos dela porque são mesmo lindos e únicos, ela é um dos nomes grandes e importantes no underground Belga e vai sempre ser mencionada. Tipo, até estive na Peakaboo Records em Lisboa e eles tinham um disco dela. Também há uns Franceses a viver lá não sei há quanto tempo, mas são amigos meus, um deles é o Loto Retina e é assim um geniozinho, tem tipo 24, 25 anos mas é muito avançado, faz música digital abstracta maluca mas com imensa alma e com skills, e há um amigo dele, um Francês chamado Apulati Bien, ele faz música electrónica esquisita inspirada pelos primórdios do Jungle e do hip-hop do sul nos Estados Unidos, mas misturado com umas vibes malucas à Asmus Tietchens…a lista continua, a namorada do gajo, a Victoria, é uma artista sonora incrivel, faz umas peças de rádio mesmo fixes, e há outros gajos que tem uma label chamada Third Type Tapes, eles lançam beats e noise e organizam estas festas loucas, andam agora a trabalhar num sound system para poder viajar de um lado para o outro e se tudo correr bem também vou poder viajar com eles…em Gent há o Kohn, que também é uma figura importante na música electrónica Belga, o tipo já faz tanta coisa diferente…eu podia continuar, as coisas vão surgindo, mas deviam investigar, ficavam surpreendidos com a quantidade de coisas que acontecem lá.

A situação aqui em Portugal parece-me parecida, se não estiveres por cá não tens noção da quantidade de coisas que cá existem.

Sim, esta tour foi fantástica, esta é a ultima noite, mas uma coisa que me aborreceu um bocadinho foi não poder partilhar o palco com mais artistas Portugueses. Só no Porto – toquei lá duas vezes, um show a solo e um em colaboração com um percussionista, o João Pais Filipe e o Julius Gabriel, um saxofonista alemão que lá vive (nota do editor: os dois formam o duo Paisiel), e até gravamos esse concerto, a ideia é lança-lo se tudo correr bem, mas tirando essa noite e hoje não pude ver mais nenhuns artistas Portugueses, e sei que há muitos…Por isso sim, estou ansioso por ver o Ricardo (Martins) tocar bateria. E espero que a próxima vez que cá venha possa explorar mais, porque parece uma cena musical muito interessante, não só na música experimental como no que toca aos DJs…

É a primeira vez que venho cá a sério, estive cá há 5 anos em tour com Tav Exotic, a Orphan Fairytale e mais algumas pessoas, fizemos uma tour em que eramos 6 ou 7 pessoas num autocarro péssimo a vir directos da Bélgica, viemos cá e demos alguns concertos nas Caldas, no Porto, Lisboa, e mais alguns sitios….quando viajas com tanta gente parece que estás numa matilha sabes, estás numa família, mas agora que estou a viajar sozinho consigo perceber e aprender mais sobre o país. Espero conseguir ir ainda mais fundo para a próxima.

 

Como era a cena musical Venezuelana antes de te ires embora? Mantens-te em contacto com outros músicos por lá? Como é que te sentes em relação à situação actual do país?

Bem, eu sai bastante jovem, aos 15, por isso nessa altura não estava em nenhum tipo de cena, tinha uma bandinha e tocávamos na escola, em festas, coisas assim. Não estive muito envolvido quando lá estava mas depois quando me mudei para a Bélgica e comecei a lanças coisas de Bear Bones e a por música no MySpace descobri um tipo chamado Álvaro Partidas que fazia música noise, harsh noise, lá na Venezuela, e contactei-o logo. Eu tinha 16 anos e ele tinha ai uns 30 na altura por isso quando nos encontramos ele ficou logo tipo “meu, tu és um puto, mas que raio”, porque falávamos online e nos conhecemos quando eu costumava voltar muito à Venezuela no verão (infelizmente já não volto lá há 5 anos). Mas desde o momento em que nos conhecemos começamos a dar concertos juntos, e os mais memoráveis foram numa espécie de galeria de arte chamada “Organización Nelsón Garrido”. Esse gajo, o Nelsón Garrido, era um fotografo e tinha imensas fotos mesmo sangrentas de orgãos e coisa do género, acho que muito material dele foi usado por bandas de grindcore, mas o sitio era maravilhoso e era o único sitio onde podíamos tocar música noise e as pessoas gostavam, porque sempre que tocávamos em bares as pessoas ficavam mesmo zangadas e começavam a gritar “isto não é música, isto é poluição”…Lembro-me de tocar em bares de desporto e as pessoas ficavam sempre com um ar de “o que raio se está a passar aqui”, mas chateadas, para eles não era música…

Mas sim, essas foram as minhas únicas experiências com a cena musical na Venezuela. O Álvaro ainda lá está, falamos recentemente mas já não o fazíamos há anos…espero que ele venha à Europa e que possamos fazer uma tour juntos, ele tem lá outra banda, um trio noise com guitarras….mas sabes, a situação na Venezuela agora está tão incerta, caótica e catastrófica que não há mesmo tempo para este tipo de coisas, as pessoas estão ocupadas com a sua sobrevivência, ou então estão a sair do país. Já todos os meus amigos da minha terra saíram – eu fui o primeiro em 2003, mas a partir dai todos os anos sai mais alguém, e mais alguém, e no ano passado já tinham saído todos, acho que não tenho nenhum amigo de infância ainda a viver lá. Tenho lá família, a minha avó, os meus pais, por isso tenho mantido o contacto, mas já não vou lá há cinco anos…Acho que está na hora de voltar, sabes? Deixa ver o que acontece com toda a loucura que se está a passar por lá.

Quais são os próximos passos para Bear Bones, Lay Low? Tens música nova a caminho?

Sempre, mas sou muito lento a gravar e tenho dado muitos concertos…mas estou sempre a gravar, e quando acabo alguma coisa mando-a ao pessoal que me pede…mas acho que assim que voltar a casa tenho mesmo que acabar um split com o Black Zone Myth Chant, de França. Ele é um amigo meu, já nos conhecemos desde que ele tocava musica psicadélica de guitarra enquanto High Wolf, e finalmente vamos fazer um split juntos depois destes anos todos. Também tenho um EP ai a vir com uma música de para ai 15 minutos, mais um remix que alguém vai fazer, para uma nova editora de uns gajos em Offenbach que fazem festas chamadas Hotel International, chamada Ok Spirit.

Também tenho que acabar coisas de Tav Exotic quando voltar a casa, mas logo três dias depois vou em tour com os Jooklo Duo (tens que ir espreitar as coisas deles, eles são incríveis) e depois vamos fazer uma residência em Roterdão, num estúdio de sintetizadores louco que têm por lá…também tenho uma banda nova chamada Carcass Identity, que é mais techno, e vamos começar a dar concertos.

Por isso sim, ando sempre a fazer coisas, mas não tenho pressa de lançar discos ou fazer seja o que for, acho que as coisas saem quando têm que sair. Não vejo grande sentido, nos dias que correm, de ter esta pressão de “vais em tour, tens que ter um disco”  – já não estamos nos 60s, se quiser partilhar música posso po-la online de graça e chega às pessoas mais depressa, por isso os discos para mim têm que ser algo que vá durar… esse é o verdadeiro propósito dos discos, não algo para vender, mas algo que deixas para trás…os discos, especialmente o vinil, se se molharem ou ficarem bolorentos ainda ficam meio utilizáveis, só desaparecem com um desastre natural, mas a informação digital parece mais frágil e que pode desaparecer assim do nada…apesar de precisarmos de todos esses formatos. Mas sim, não tenho pressa, estou a fazer as coisas dia a dia.

 

 

Noite da Raposa III

com:

MIMIMIC

VIOLETA AZEVEDO

MÉRI

ODETE

SIMÃO SIMÕES

NADA-NADA

Terceira edição desta noite diversificada que junta novos criadores locais e regionais nas áreas da música electrónica dançante, da síntese modular e da ambient music (e tudo o que estiver pelo meio), com seis actuações em sucessão nos dois palcos montados na sala principal da ADAO.

MIMIMIC é o alter-ego do Diogo Carneiro, a desbravar caminhos pelo psicadelismo electrónico colorido; VIOLETA AZEVEDO é um enorme talento de Lisboa a criar mundos impossíveis com uma flauta processada; MÉRI é membro integrante da barreirense Linha Amarela com o bom gosto e pausa associados a este grupo de jovens guerrilheiros suburbanos; ODETE é uma das vozes mais activas e fortes da heterogénea cena dançante nacional, em regresso ao Barreiro após actuar no OUT.FEST 2018; SIMÃO SIMÕES é figura de proa da nova geração de músicas electrónicas oblíquas no país com epicentro no colectivo e editora Rotten/Fresh; NADA-NADA é o veículo solo do multi-talentado Cláudio Fernandes (Pista, Debut, etc) a fazer música que combina com as camisas de padrões tropicais no novo milénio.

NOITE CREATIVE SOURCES

NOITE CREATIVE SOURCES

com: Ernesto Rodrigues | Nuno Torres | João Silva | Carlos Santos

Bilhetes: 5€ (2,5€ menores 25 anos)

Noite dedicada à editora Creative Sources, um dos mais importantes selos discográficos dedicado à música improvisada no plano internacional, que desde o ano de fundação – 2001 – conta já com perto de 600 lançamentos.

Apresentam-se três concertos de formações variáveis (duos e quarteto) compostas pelos músicos Ernesto Rodrigues (viola), Nuno Torres (saxofone alto), João Silva (trompete) e Carlos Santos (electrónica).

Do quarteto promete-se uma experiência musical de intimidade e detalhe, com recurso a uma linguagem instrumental não convencional que explora noções de timbre, cor e plasticidade. Uma estética que se inscreve no domínio da improvisação livre dentro de uma abordagem minimalista, na qual as noções de silêncio e espaço acústico são fundamentais.

JOÃO PAIS FILIPE / BALEIA BALEIA BALEIA

Uma noite especial que junta as visões da OUT.RA e da GASOLINE num só palco.

A abrir, o baterista, percussionista e esculturo sonoro João Pais Filipe volta ao Barreiro após ter sido um dos concertos de destaque no OUT.FEST 2018, com o seu espectáculo ritmicamente transcendente de percussão solo que evoca o tecno primordial, e cujo disco recentemente lançado tem valido, pelo país e não só, palavras de elogio reservadas para as obras verdadeiramente inovadoras.

A tomar conta do resto da noite, o duo Baleia Baleia Baleia que em 2018 tocou em vários dos palcos mais relevantes do panorama alternativo nacional, com o seu rock afiado, punk vibrante e pausa stoner com bateria, baixo e voz e palavras mordazes e actuais – para trazer suor à mente e ideias ao corpo.

ÉME e MOXILA

ENTRADA LIVRE (com caixa de donativos a reverter para os músicos)

A Moxila é uma artista multifacetada e prolífica que, para além da música, cria bandas desenhadas e animações. A par dos albums que lançou em nome próprio, é a responsável pelas edições “Natal Gentil”. O Éme tem-se afirmado como cantautor da vida lisboeta, entregando albums que são cancioneiros de uma geração enrascada. No seguimento do trabalho que desenvolveram em conjunto nos últimos anos – Domingo à tarde, Natal Gentil 3 – o Éme e a Moxila compuseram juntos um molhe de novas canções folk com a guitarra acústica e o cavaquinho, juntando arranjos da flauta, da harmónica e dos coros num encontro perfeito e equilibrado entre a melodia e a lírica.

 

Matinée de canções com Éme e Moxila

No próximo sábado (dia 9 de Março) a OUT.RA associa-se ao bar À Portuguesa para apresentar uma matinée com as canções de Éme e Moxila, dois ilustres representantes da nova geração do cancioneiro português a dar continuidade a um trabalho conjunto que têm vindo a desenvolver ao longo dos anos.
 
O concerto começa às 17h, e a entrada é livre com a opção de um donativo que reverte integralmente para os músicos.
 
Até lá!